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A Época (Rio de Janeiro)

24 Jul 2014

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e marcado com as tags Arte e cultura, Censura e repressão, Colunismo social, Guerra do Contestado, Hermes da Fonseca, Imprensa marxista, Lauro Sodré, Literatura, Movimento grevista, Primeira Guerra Mundial, Questões sociais, Questões trabalhistas, República Velha, Revolta da Chibata, Rui Barbosa, Subúrbio, Vicente Piragibe, Wenceslau Brás

A Época foi um jornal matutino lançado no Rio de Janeiro (RJ) em 31 de julho de 1912, como propriedade da Sociedade Anônima A Época. Seus diretores foram inicialmente Vicente de Toledo de Ouro Preto, Vicente Ferreira da Costa Piragibe, J. B. Câmara Canto. Circulando diariamente em formato standard e com oito páginas, o jornal tinha redação e administração no nº 151 da Avenida Rio Branco.

Denunciando os hábitos “puramente provincianos” da imprensa brasileira de então, no editorial de sua primeira edição, o jornal se mostrava contrário ao governo do marechal Hermes da Fonseca, e, portanto, ao Partido Republicano Conservador (PRC) e à imprensa que o bajulava: para A Época, o chamado “artigo de fundo” de boa parte da imprensa “Quasi sempre é um aranzel escripto em muitas columnas por um redactor incompertente, ignorante das questões technicas, em que se faz, da noite para o dia, bacharel electrico, como o senhor Fonseca Hermes”. Durante o conturbado estabelecimento do governo do presidente (que durou de 1910 a 1914), o Correio da Manhã publicou um texto que citava Vicente Piragibe, um dos diretores de A Época, como grande figura oposicionista: “A imprensa anoiteceu na censura, jornalistas da primeira linha de combate – Edmundo Bittencourt, do Correio da Manhã, Macedo Soares, do Imparcial, Vicente Piragibe, da Época, e Leônidas de Rezende – foram encarcerados” (SODRÉ, 1966, p. 379/380). Nesse contexto de contrariedade ao governo A Época tinha um papel altamente anti-oligárquico, opositor ao diário O Paiz e ao líder do PRC, o senador Pinheiro Machado, sendo favorável à figura de Rui Barbosa.

Ainda no editorial de sua edição de lançamento, A Época discorria sobre os vícios e desqualificações de jornalistas e da imprensa brasileira em geral, a qual tachava de “ridícula” em seu destaque a noticiários policiais, notas sobre determinados órgãos públicos e bajulação a figuras da alta sociedade:

Quem pretender um emprego público ou tiver interesses dependentes da adminitração não pode exercer com liberdade e energia a missão de jornalista. Não é possível ser a um tempo censor e pedinte, juiz da administração pública e pretendente a favores administrativos. Outra praga do nosso jornalismo (…) é a mendicância feita aos pés do governo federal e das administrações estadoaes para a publicação de relatorios, mensagens, avisos, editaes e outras pepineiras. Tudo isso deve ser banido do jornal que, sob roupagens novas, quizer triumphar e conquistar a opinião.

Cabe ressaltar, no entanto, que A Época não necessariamente rompeu com alguns desses vícios. Este próprio editorial era assinado por Irineu Machado, deputado muito benquisto e enaltecido no periódico, a exemplo do que se lê em seu nº 60, de 28 de setembro de 1912. Outro editorial da edição inicial, assinado pelos três diretores da folha, “sinceramente catholicos”, colocava o periódico como apartidário e defensor de “um Exercito e de uma Marinha efficiantes, isto é disciplinados”.

A Época, apesar de apresentar refinados artigos e ensaios de cultura e moda galante, também tinha uma linha popular, voltada a questões sociais e trabalhistas. Abordando lutas e manifestações gerais do operariado, a sua “Columna Operaria” noticiava greves, reivindicações proletárias, novidades sobre clubes e associações sindicais, incluindo mesmo atividades dançantes, esportivas e carnavalescas. O diário ainda tratava de assuntos ligados ao cotidiano e às condições de vida da população suburbana carioca na seção “Nos Suburbios!”, onde tanto eram destacados acontecimentos interessantes quanto expostos problemas de infraestrutura, violência, etc. Na primeira edição do jornal, a primeira “Columna Operaria” iniciava-se com um editorial de seu autor, Mariano Garcia, que destacava: “A Época será um jornal onde teremos absoluta liberdade e independencia para defesa das nossas questões, e por isso cumpre que todos os que têm sêde de justiça me auxiliem nesta campanha, afim de que seja afficaz o nosso esforço, e saibamos corresponder aos bons desejos dos cidadãos que a fundaram com tão sublimes ideaes”. Em novembro de 1912, A Época noticiou e discutiu amplamente o projeto de construção de vilas operárias por parte do governo – ver, por exemplo, a edição nº 120, de 27 de novembro de 1912.

Ao passo em que, em diversas ocasiões, o diário se mostrava simpático à causa socialista – ver “Socialismo e paz!”, na página 3 da edição nº 155, de 1º de janeiro de 1913 -, curiosamente, muito pela conduta política de Vicente de Ouro Preto, A Época não deixou de transparecer o gosto de seu diretor pelo monarquismo. Na edição de terceiro aniversário do jornal, o nº 706, de 31 de julho de 1914, o matutino ressaltava em editorial que “Monarchista, elle deixou, entretanto, a Vicente Piragibe, republicano sincero, a direcção politica e intelectual d’A Época, só fazendo a propaganda das suas idéas com a responsabilidade de seu nome, em artigos assignados”. Pelo revelado nesta edição, todo o corpo redacional de A Época era republicano. A contradição entre o monarquismo de Ouro Preto e a atenção às causas operárias na publicação, dando noções sobre o ambiente democrático em sua redação, ficava exposta neste nº 706 não só pelos dizeres sobre Ouro Preto: ali, estes vinham junto ao texto “Algumas palavras sobre o movimento revolucionario contemporaneo”, de Astrojildo Pereira (ver pág. 3).

Em seus primeiros momentos, A Época vinha com uma coluna de política internacional, “Política Exterior”, assinada por “G. Ruch”; uma seção de humor político intitulada “Fora do Sério”, assinada por “Ridente”; entrevistas e textos opiniativos sobre política nacional; notícias sobre Portugal, na seção “Cousas Portuguezas”, de Alberto Estanislau; folhetins de autores diversos; notas sobre movimentações militares, sobretudo na seção “Forças Armadas”, assinada por Vedeta; notícias gerais de utilidade pública no Rio de Janeiro e em outras cidades, como transportes, obras públicas, legislação e assuntos jurídicos, etc.; cotidiano carioca; a coluna social “Echos Sociaes”; artigos sobre saúde; notícias e variedades relativas ao Congresso Nacional; notas sobre política e administração pública na seção “Periódicas”, assinada por “Xosciuszko”; notícias enviadas por telegramas do estrangeiro e de várias cidades brasileiras; cotidiano policial; uma coluna intitulada “Commercio, Lavoura e Industria”, com cotações de produtos e variedades sobre economia e mercado; a “Chronica Esotérica” assinada pelo Barão Ergonte, depois substituída pela seção de ocultismo e estudos espíritas “Os mysterios do Além…”, então dirigida pelo médium Fernando Lacerda; anúncios de peças de teatro e crônica teatral, na seção “Coisas do Theatro” ou em especiais dominicais; artigos e ensaios sobre mestres da literatura; uma seção esportiva; uma “Secção Livre”; sonetos, contos e crônicas de autores variados, sendo alguns traduzidos; despachos de órgãos públicos; viagens e curiosidades sobre diversas cidades e paisagens; ciências; moda; resultados do Jogo do Bicho; anúncios publicitários, entre outras coisas, incluindo fotografias.

Inicialmente, assinaturas semestrais e anuais de A Época custavam, respectivamente, 18$000 e 30$000. O matutino costumava lançar edições dominicais mais robustas, com cerca de 12 páginas e matérias especiais de capa, em geral ilustradas. Os temas de destaque dos três primeiros domingos do periódico foram, no dia 4 de agosto de 1912, “O repatriamente dos restos mortaes de Suas Magestades D. Pedro 2º e D. Thereza e a revogação do banimento da Familia Imperial” – o jornal, tendencioso à família real, chegava a afirmar: “A República, que era tão bella no tempo do Imperio, não satisfaz nem mesmo aos proceres que a pregaram e dirigiram”; na edição de 11 de agosto “Um antro em plena cidade – O morro da Favella continúa a ser um reducto do crime e da miséria”; e na edição de 19 de agosto “O despertar do Mercado (Novo) – Aspectos interessantes no cáes de desembarque”. Estas edições dominicais traziam, além do conteúdo habitual de A Época, comédias e crônicas, com artigos e versos em maior profusão.

Foi bem destacado, nas edições iniciais de A Época, um desastre férreo na Central do Brasil, com vítimas fatais. O fato levou o jornal a criticar duramente Paulo de Frontin, então diretor da Central do Brasil e a postura de Hermes da Fonseca frente ao ocorrido. Em agosto de 1912, o jornal ainda defendia Lauro Sodré contra Antônio Lemos, o “famigerado oligarcha” do PRC na crise política que assolou o Pará naquele ano (ver edição nº 32, de 31 de agosto). Em geral, como já ressaltado, acusações contra o presidente da República e figuras ligadas ao PRC – escândalos ministeriais, erros administrativos, ataques à imprensa, etc. – eram recorrentes no periódico. Em fins de dezembro de 1912 o diário deu todo destaque aos chamados “Escândalos da Cooperativa Militar”, resultantes numa disputa judicial entre o deputado Thomás Cavalcante de Albuquerque e Vicente Piragibe, representado pelo seu advogado Vicente de Ouro Preto, também diretor de A Época.

As convicções políticas de A Época, como era de se esperar, renderam ao jornal inúmeras polêmicas e embates. Vicente de Ouro Preto publicou um editorial-desabafo na edição de 2 de julho de 1913, onde relatava:

(…) como eu (…) houvesse demonstrado que o sr. Conselheiro Rodrigues Alves está longe de merecer as glorias de estadista, e principalmente porque Martim Francisco houvesse abrilhantado as columnas d”A Epoca’ com três artigos de sua collaboração, cujas opiniões ‘A Epoca’ adoptou, um jornal de S. Paulo nos atacou, a mim pessoalmente e ao egregio deputado paulista, de um modo affrontoso e desabrido. (…) Acontece (…) que o ‘Jornal do Commercio’ transcreveu em suas columnas pagas as aggressões. Transcrevendo-as, endossou-as e é por ellas, indiscutivelmente, responsável. (…) O ‘Jornal do Commercio’ (…) apenas agiu pela ganancia dos magros mil réis que lhe rendeu a transcripção. É seu redactor-chefe um deputado federal, membro da Academia de Letras, um homem, pois, a quem eu podia, sem descahir, chamar a contas. (…) – fil-o da maneira por que o fazem os cavalheiros, desafiando-o para um duelo sério, para um duel á espada (de cujo manejo sou ignorante), duello em que o sangue de um de nós corresse no desaggravo da honra.

O redator-chefe do Jornal do Commercio, Félix Pacheco, no entanto, recusara o chamado ao duelo, remetendo a Ouro Preto uma carta em que afirma: “Redobraremos de cuidados para evitar a reproducção disto. A Época e o seu director sabem como é diffícil uma fiscalisação rigorosa na formidável massa de originaes em um jornal”.

Em maio de 1913, pensando nas eleições presidenciais do ano seguinte, A Época passou a defender a candidatura de Lauro Sodré. Na capa da edição do dia 24 daquele mês, além de um grande retrato de Sodré, o diário vinha com uma chamada enfática: “O povo precisa unir-se num grande movimento patriótico para repellir a candidatura do contrabandista Campos Salles” (que sequer disputaria essas eleições, pois morreria naquele mesmo ano de 1913). Curiosamente, na edição do dia 25 o jornal publicou o texto “Campos Salles e a imprensa”, enumerando os jornais O PaizJornal do Commercio, Jornal do BrasilGazeta de NotíciasA Notícia e A Tribuna como favoráveis ao presidenciável da situação, ao passo que A ÉpocaCorreio da ManhãO Século e A Noite fariam oposição ao mesmo.

Em sua edição de 1º aniversário, de 31 de julho de 1913, especialmente rodada com 24 páginas, A Época revelava no rodapé de sua capa que era impresso com “tinta norte-americana especial rotativa número 98 da Companhia Ault & Viborg”, editora baseada na Rua General Câmara nº 172. No fim deste ano o jornal passou a ter sua própria impressora em seu endereço na Avenida Rio Branco.

Em novembro de 1913 A Época passava por uma onda feroz de ataques ao PRC e a seus políticos. Em meio a isso, noticiou, na edição do dia 25, o falecimento de seu diretor Vicente de Ouro Preto (dois dias depois, o jornal se mostrava solidário às ameaças sofridas pela revista Careta pelo filho de Hermes da Fonseca, por exageros humorísticos contra seu pai). Por conta da morte de Ouro Preto, na 490ª edição, de 1º de dezembro daquele ano, o jornal deixou de publicar em sua capa os nomes de seus três diretores – na edição do dia 15 de dezembro, no entanto, Vicente Piragibe passou a figurar no cabeçalho do diário sozinho, como diretor. Sabe-se que, durante sua gestão, em 1917 Porto da Silveira ingressou como secretário de redação de A Época.

Em 1914, com a República já sob o governo de Wenceslau Brás, A Época aplaudia sobretudo a atuação de Rui Barbosa como senador. Crítico ao estado de sítio impetrado por Hermes da Fonseca em 1913 contra os movimentos operários no Rio de Janeiro, manobra mantida por Brás no ano seguinte, em suas edições de 17 e 18 de junho de 1914 o diário discutia a situação política nacional transcrevendo um discurso de Barbosa. O assunto seria evocado ainda em outras edições, até que no nº 708, de 2 de agosto daquele ano, o jornal inicia uma vasta cobertura à I Guerra Mundial – “A Europa está conflagrada – começou esta madrugada a maior luta armada que a humanidade conhece”. Após grande atenção inicial ao conflito armado na Europa, o jornal voltaria a lançar ataques ao governo, evocando ainda a anistia aos envolvidos na Revolta da Chibata – ver, na edição nº 856, de 28 de dezembro de 1914, “A amnistia aos revoltosos de 1910”.

Ainda em 1914, conforme visto a partir da edição de 3 de outubro, a redação, a administração e as oficinas do jornal se mudam da Avenida Rio Branco para o nº 139 da Rua do Rosário. Por volta de outubro de 1916, A Época deu destaque à Guerra do Contestado e à questão fronteiriça envolvendo os estados do Paraná e de Santa Catarina. Ruy Barbosa continuava uma figura benquista nas páginas do jornal, assim como o chanceler Lauro Muller, mas críticas gerais ao governo federal cessaram.

A edição de nº 1.588, de 15 de novembro daquele de 1916, trazia uma mudança de opinião do diário em relação a Wenceslau Brás; avaliando os dois anos de governo do presidente, A Época afirmava: “O segundo anno do actual governo merece bem ser festivamente commemorado: elle assignala na historia do regimen o fortalecimento de esperanças de rehabilitação moral da Republica e de reintegração nos creditos tão abalados pela politica interesseira; elle marca os primeiros fructos da reacção benefica que vem triumphando em todo o paiz, dentro da ordem e dentro da lei, sem attrictos e sem choques numa eloquente attestação das grandes victorias que podem ser conquistadas no terreno do direito. (…) Fomos dos que, logo no inicio, combateram a organisação do actual governo porque vimos no ministerio uma demonstração de que ia ter seguimento a política até então dominante. O dr. Wencesláo Braz soube, porém, (…) dar orientação diversa aos negócios publicos e quasi todos os seus auxiliares vieram moldando os seus actos de accordo com as normas de moralidade e de justiça do honrado sr. presidente da Republica”.

Findava, portanto, a fase oposicionista de A Época no âmbito federal. Na esfera estadual, no entanto, o jornal fazia oposição ao governo de Nilo Peçanha – ver nota de apoio de Vicente Piragibe a operários com salários atrasados e contra o governador da cidade (“que, em poucos mezes de interinidade, tem augmentado colossalmente as despesas municipaes com as centenas de nomeações  de parentes, afilhados e protegidos”) no nº 1.597, de 24 de novembro de 1916. Mas mesmo parecendo favorável ao governo da nação, A Época sofrera com a censura da época. Na edição de nº 1.998, de 31 de dezembro de 1917, ao relatar a prisão de Dormund Martins, diretor de A Lanterna, a entrevista com o mesmo teve dois trechos cortados. Em edições anteriores, nos tempos de maior oposição do diário, isso já havia acontecido com textos inteiros. Ademais, com seu aparente situacionismo, o jornal não deixara de ser crítico ao abordar certas questões sociais, continuando a defender os interesses de populações mais humildes – ver edição nº 2.044, de 16 de fevereiro de 1918, com as manchetes: “Si as coisas continuam como vão morreremos de fome” e “A miseria do povo – A infecta moradia dos humildes – sem luz, sem ar, sem hygiene”. Cabe ressaltar que a coluna “Nos Suburbios” e a “Columna Operaria”, bem como eventuais textos de verve socialista, continuavam sendo publicados.

Até o nº 2.114, ano 7, de 27 de abril de 1918, Vicente Piragibe assinou a direção de A Época. Na edição do dia seguinte, o diário subtraiu seu nome de seu cabeçalho e passou a ser identificado como “Propriedade de P. D’Almeida Godinho”. Ali, sob o título “A nova phase d’A Epoca'”, explica-se o ocorrido:

Foi assignada hontem (…) a escriptura de dação em pagamento, que fez o sr. dr. Vicente Piragibe, director desta folha, ao sr. dr. P. D’Almeida Godinho, credor hypothecario da Empresa Jornalistica ‘A Epoca’. Em virtude desse acto, praticado por accordo entre aquelles nossos dois illustres amigos, passou ‘A Epoca’ a ser propriedade exclusiva deste último, que ha annos nos vem prestando inestimaveis serviços. O sr. dr. Vicente Piragibe, deixando a direcção deste jornal, vae dedicar-se inteiramente ás suas arduas funcções de representante do eleitorado do 2º districto desta capital, na Camara dos srs. Deputados.

Piragibe – cabe ressaltar – já era mostrado como candidato a deputado pelo 2º distrito do Rio de Janeiro na edição de 26 de fevereiro daquele ano. Ainda naquele editorial sobre a nova fase do jornal, de 28 de abril de 1918, dizia-se que D’Almeida Godinho, capitalista de destaque na alta sociedade carioca, chamara A. J. Gomes Barboza ao cargo de gerente de A Época. Apresentando-o detalhadamente, o texto afirma que Gomes Barboza é “também secretário da 5ª sub-comissão da Grande Comissão Portugueza Pró-Pátria e exerce egual cargo na comissão de subscripção popular”, além de “director-secretário da Camara Portugueza de Commercio, (…) gerente reeleito tres vezes”. No âmbito editorial, afirma-se que “‘A Epoca’ nenhuma mudança soffrerá na sua orientação, com a retirada do sr. dr. Vicente Piragibe. Continuará a cumprir o seu programma”. Além disso, “como redactor-secretario desta folha continuará o nosso prezado companheiro sr. dr. Porto da Silveira, que ha varios mezes lhe vem prestando o concurso dasua intelligencia e dedicação”.

Na edição de nº 2.130, de 13 de maio de 1918, uma reforma editorial e gráfica modernizou consideravelmente A Época. Logo em sua capa publicava-se um editorial que destacava sua nova diagramação e seus novos colaboradores – ademais, a partir deste momento, o alto de cada capa de cada edição passa a sair com a frase “Tudo pelo Brazil”. Politicamente, nesta nova fase o jornal parecia neutro ao governo, posição que durou até o fim do mandato de Wenceslau Brás – o rigor operário da folha, todavia, continuava o mesmo. Os maiores destaques no jornal eram então relativos à política nacional, a questões do operariado, ao comércio e à Primeira Guerra Mundial. Conforme o fim de guerra se aproximava, mais atenção o diário dava ao fechamento do conflito.

No governo de Delfim Moreira, que assumira a presidência com a convalescença de Rodrigues Alves, A Época voltava a mostrar esporádicas reportagens e textos críticos ao governo, eventualmente denunciando a turbulenta situação política de então – ver edição nº 2.319, de 20 de novembro de 1918, com manchetes que poderiam parecer dúbias frente à clássica linha socialista do matutino: “Maximalismo no Brazil? – A cidade, graças ás energicas medidas da policia, voltou à calma – foram prohibidos os comicios – várias prisões – uma bomba de dynamite que estourou na rua do Senado matou um homem”.

Para as eleições presidenciais de 1919, A Época apoiou fervorosamente a candidatura de Rui Barbosa, sempre elogiado nas páginas do jornal – ver edição nº 2.379, de 19 de janeiro de 1919, e edições posteriores, até as de 13 e 14 de abril. No início desse ano, com algumas exceções, praticamente cada capa de edição do diário era dedicada às articulações da campanha do político. Ressaltava-se, inclusive, o apoio das classes operárias a Barbosa (ver edições de 10 e 21 de março). Muito por conta desse apoio incondicional, A Época atacava constantemente o governo baiano de Antônio Moniz Sodré de Aragão e a figura de José Joaquim Seabra, opositores de Rui Barbosa, e via com bons olhos o governo de Paulo de Frontin, aliado de seu partidário, no Rio de Janeiro.

Com a confirmação de que Epitácio Pessoa assumiria o governo, o jornal queixou-se de manipulação nas eleições e, aderindo ao Comitê Nacional Pró-Rui Barbosa, continuou ressaltando o político por um tempo. Adquirindo tons radicais em seu discurso nessa época, na edição nº 2.471, de 22 de abril de 1919, o jornal avaliava em sua capa: “Pode o sr. dr. Epitacio Pessoa ser presidente da Republica? Não pode”. Entre demais queixas e críticas ferozes ao governo de Pessoa, o diário noticiou outros assuntos de destaque, como a Conferência da Paz de Paris em 1919 – ver as “Reivindicações femininas” da Comissão Internacional do Trabalho na edição de 28 de maio daquele ano – reivindicações operárias, variedades militares (com destaque para o regresso da esquadra brasileira da I Guerra Mundial na Baía de Guanabara em junho) e assuntos variados do cotidiano urbano carioca, dentre este últimos, a remodelação urbana do Rio de Janeiro durante o governo Paulo de Frontin – ver edição de 23 de julho de 1919.

A partir de sua edição nº 2.591, de 21 de agosto de 1919, A Época passou a estampar em cabeçalho o nome de seu novo dono e diretor: Jeronymo Teixeira de Alencar Lima, fundador do jornal baiano A Tarde. Agora uma propriedade de “A. Lima & Cia.”, o jornal publicava nesta edição uma nota explicativa:

Os drs. Pedro d’Almeida Godinho e Jeronymo Teixeira de Alencar Lima participam á Praça que nesta data constituíram uma sociedade commercial em commandita simples, sob a firma A. Lima & Cª., cujo fim é a edição do jornal matutino ‘A Época’ (…) e a exploração de publicações avulsas nas officinas do mesmo jornal (…). Convidade pela direcção d”A Epoca’, o dr. Gilberto Amado assume, hoje, a chefia da sua redacção”. Um outro texto, assinado por Alencar Lima, dava conta que o jornal, nesta terceira fase, continuaria sendo “um jornal tradicionalista, defendendo a religião catholica (…). Somos nativistas, mas não jacobinos. (…). ‘A Epoca’ é revisionista, mesmo dentro das normas previstas ao nosso Estatuto Constitucional, para dar ao presidencialismo, que adoptamos, uma efficiencia e continuidade mais adequadas ao progresso e para garantir a nossa terra o seu equilíbrio economico e normalisação financeira. Pertencemos á grei dos que se dizem trabalhistas, e nesta accepção, defenderemos os ideaes do operariado e dos homens da vida rude nas suas conquistas de melhoria de posição e na sua organisação em syndicatos.

Outro texto, na mesma edição, ainda informava que, a partir daquele momento, Porto da Silveira não faria mais parte da redação de A Época, onde já assumia a função de redator-chefe, saindo do diário para fundar o “vespertino de combate” A Reacção.

Iniciando sua terceira fase, A Época publicava a série de artigos “O governo e os problemas nacionaes”, intitulada posteriosmente apenas “Grandes problemas nacionaes”. Internamente, as edições do jornal passavam a se organizar em páginas intituladas “Congresso e Governo”, “Correio dos Estados” (onde saía a clássica coluna sobre o subúrbio carioca), “Vida Internacional”, “Justiça – Religião – Sciencia”, “Educação e Trabalho” (onde eram publicados a “Columna Operaria” e a “Resenha Commercial”), “Notas Desportivas e Sociaes” e “Letras, Artes e Diversões”.

Sabe-se que A Época foi publicado até pelo menos sua edição de nº 2.690, ano 8, de 28 de novembro de 1919. Não existem indícios de que o jornal tenha continuado a ser editado a partir desse momento, nem que tenha parado de circular nessa ocasião. De acordo com Nelson Werneck Sodré, no livro “História da imprensa no Brasil”, um periódico intitulado A Época passou a circular no Rio de Janeiro, como jornal diário, a partir de 19 de novembro de 1918. Sua edição inaugural, noticiando em manchetes de letras enormes uma greve de operários cariocas (“O Maximalismo no Brasil?”) e aproximando o Rio da Petrogrado de outubro de 1917, apontava uma linha editorial essencialmente política, de esquerda. Esta edição, tida por Sodré como de lançamento de um novo periódico, é na verdade o nº 2.318 deste mesmo A Época tratado aqui. Acredita-se, portanto, que nenhum outro periódico de mesmo título fora lançado na capital em 1918.

Além dos nomes já citados (sendo vários pseudônimos), ao longo de sua edição, A Época contou ainda com o trabalho e/ou a colaboração de figuras como Coelho Lisboa, J. da Penha, Victorino Drumond, Affonso Celso, Múcio Teixeira, Luiz Maia, Fábio Luz, Sylvio Romero, Marcello Gama, Leal de Souza, Orlando Corrêa Lopes, Maurício de Medeiros, Theodoro Magalhães, Hermes Fontes, Agripino Nazareth, Virgínia Quaresma, Mesquita Pimentel, Alfredo Balthazar da Silveira, Joaquim Madureira, Demétrio de Toledo, Orlando Corrêa Lopes, Maria da Cunha, Angelina Vidal, Juvenal Sampaio, Arthur Guimarães, Mário Fontoura, Lívio Durval, Teophilo Guimarães, Augusto dos Anjos, André Salmon, Viriato Marcondes, Theodureto Ribas, Baptista Cepellos, João Grave, Daltro Santos, Caio Monteiro de Barros, Maurício de Medeiros, Coelho Neto, José Félix, Fialho D’Almeida, Campos de Medeiros, Alberto de Carvalho, Eduardo e Benjamin Magalhães (aparentemente responsáveis pela colunas “Nos Subúrbios” por volta de 1917), Eurico Brazil, Waldemar Bandeira, J. Nogueira Itagyba, Pereira da Silva, J. Primo, Sousa Costa, Paulo Osório, Jayme Victor, Orestes Barbosa, Afonso Lopes D’Almeida, entre outros, como os caricaturistas e ilustradores Fritz, Kalixto e Edmir, de grande destaque na imprensa humorística de sua época. Foram representantes do jornal, em Minas Gerais, Diomedes Rodrigues; no Rio de Janeiro, Chrisantho Moreira; e em São Paulo Felippe Grossi. Algumas das matérias de A Época foram transcritas de agências de notícias.

Fontes:

– Acervo: edições do nº 1, ano 1, de 31 de julho de 1912, ao nº 155, ano 2, de 1º de janeiro de 1913; edição nº 337, ano 2, de 2 de julho de 1913; edições do nº 366, ano 2, de 31 de julho de 1913, ao nº 505, ano 2, de 16 de dezembro de 1913; edição nº 662, ano 3, de 17 de junho de 1914; edições do nº 706, ano 3, de 31 de julho de 1914, ao nº 860, ano 4, de 1º de janeiro de 1915; edições do nº 1.224, ano 5, de 1º de janeiro de 1916, ao nº 1.634, ano 5, de 31 de dezembro de 1916; edição nº 1.845, ano 6, de 31 de julho de 1917; edição de nº 1.998, ano 6, de 31 de dezembro de 1917; edição nº 2.044, ano 7, de 16 de fevereiro de 1918; edições do nº 2.114, ano 7, de 27 de abril de 1918, ao nº 2.690, ano 8, de 28 de novembro de 1919.

– MIYASAKA, Cristiane Regina. Viver nos subúrbios: a experiência dos trabalhadores de Inhaúma (Rio de Janeiro, 1890 – 1910). Tese de mestrado apresentada à UNICAMP em agosto de 2008.

– SODRÉ, Nelson Werneck. A história da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.