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A Voz do Caixeiro

08 Aug 2014

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“Temos direitos a velar, temos opiniões a manifestar, temos idéias a emitir, temos princípios a advogar; e pios sò podem escapar de nós pela grande valvula da imprensa, a mascula grandeza propulsora do progresso. D’aqui o nosso aparecimento, d’aqui a justificativa deste aparecimento. Seremos alheios completamente as luctas partidarias que entendemos prejudiciais, hoje, mais do que nunca, ao futuro da patria e na altura de nossas forças procuraremos concorrer com a nossa dedicação pela solidificação da Republica, pelo alevantamento da nossa classe e pela educação scientifica dos nossos companheiros de classe.”

O semanário A Voz do Caixeiro, como o próprio título sugere, pretendia ser o porta-voz dos caixeiros de Belém, “classe” formada pelos empregados das comerciantes das casas de aviamentos e dos que cuidavam dos depósitos de comidas de tabernas, conforme nos informam Jesse Andrade Santa Brigida, Cleonice Viana Nues e Netília Silva dos Anjos Seixas em Os vestígios do Marxismo no jornal ‘A Voz do Caixeiro’.

Segundo essas autoras o jornal, juntamente com o Clube Popular – espécie de sindicato dos trabalhadores de Belém – era veículo de divulgação das ideias socialistas para a incipiente classe operária, pois se auto-declarava “o comunicador de uma classe, de seus ideais, de seus pensamentos e das suas reclamações”. Matéria publicada no dia 25 de março do ano de 1890 ilustraria essa tese. Seus editores elogiavam a Lei de portas fechadas, que obrigava os comerciantes do Centro de Belém a fecharem suas lojas aos domingos e dias santos, dando folga aos trabalhadores.

O jornal também dava voz aos trabalhadores, publicando cartas como a que denunciava o descaso e os maus tratos sofridos por uma criança trabalhadora do comércio de Belém. Segundo as autoras, a denúncia e a indignação dos editores se deviam apenas ao fato de ser um caso de exploração do trabalho infantil, mas por se tratar de exploração feita por um “patrão burguês”.

A postura do jornal era conciliadora e não de incentivar o embate radical entre patrões e empregados. “Os commerciantes, porém serios, comprehendedores das suas attribuições e que estimam o seu empregado foram-nos favoráveis e, crêmos, sel-o-hão sempre desde que se trate de formar uma lei, como a do fechamento de portas” (edição 1, página 2).

A Voz do Caixeiro tinha duas grandes editorias: uma sobre economia, com as seções “Estudos” e “Comércio”, e outra, intitulada “Formação Literária”, trazia as seções “Sonetos”, “Crônicas”, “Poemas”, além de um espaço de indicação de livros para a “Boa Leitura”. Havia ainda o noticiário social, como aniversários, óbitos, eventos culturais etc . Apresentava no alto da página, à direita do nome do jornal, a máxima de Victor Hugo: “Il faut agir, il faut marcher, il faut valoir” [“É preciso agir, é preciso caminhar, é preciso querer”].

O semanário era publicado aos domingos. Começou a circular em no dia 9 de fevereiro de 1890. Medindo 32 x 23 cm, era impresso de início na Typographia de A. F. da Costa e, a partir da edição de número 38, na Typographia Livro de Ouro. Não conhecemos os nomes dos editores, que não são informados no jornal. A assinatura trimestral na capital custava 1$500 e no interior e estados 1$800; o número avulso 100 rs. A Biblioteca Nacional tem em seu acervo apenas as edições de números 1 a 46, todas referentes ao ano de 1890.

NOTAS

1.BRIGIDA, Jessé Andrade Santa; NUNES, Cleonice Viana; SEIXAS, Netília Silva dos.Anjos Os vestígios do Marxismo no jornal A Voz do Caixeiro. In: Congresso de Ciências da Comunicação na Região Norte, 11., 2012, Palmas. Anais eletrônicos… Palmas: Intercom, 2012. Disponível em: . Acesso em: 30ago.2012.
2.Ibid
3.Ibid