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Acervo da BN | Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura: muito mais do que parece

08 jan 2021

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Abolicionismo, Agricultura, Brasil Imperial, Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, Periódicos Científicos, Questões Ambientais, Ruralismo

Sejamos francos: um periódico que leva a alcunha de “Agrícola” logo no título não inspira muito o cidadão urbanoide à leitura. “Só mesmo se eu quiser mandar alguém plantar batata, ou carpinar um bom lote de terra”, pode pensar, caso queira ser gentil o suficiente para dar o caminho das pedras a algum contendor, numa dessas triviais pinimbas de rede social. Se o leitor se identificou com o caso, trazemos boas notícias. Temos cá uma recomendação de peso e envergadura: aquela que, se não foi a revista de agricultura por excelência no Brasil, foi, ao menos, das de maior presença na área, ao menos durante o Segundo Reinado. Engana-se quem, preconceituoso, acha que seu leitor seria qualquer genérico de Jeca Tatu, deitado e rolado no erre retroflexo – na verdade, até poderia ser, por que não? Ocorre, entretanto, que a pomposa Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura era destinada ao grande latifundiário, figuraça carimbada do business ruralista deste grande celeiro chamado Brasil. Nesse sentido e além, ela foi também um órgão científico. Por vezes, apresentando mesmo argumentos progressistas um tanto inconvenientes, porém sinceros, ao grande fazendeiro.

A Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura foi uma publicação originalmente trimestral de ciências agrárias editada no Rio de Janeiro (RJ) a partir de setembro de 1869, “Debaixo da immediata protecção de Sua Magestade Imperial o Senhor Dom Pedro II”. Subvencionada com verba da Assembleia Legislativa da província do Rio de Janeiro (em dotação anual de 5.000$000), foi o órgão de divulgação científica do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, entidade fundada em 1860 pelo Império para desenvolver a agricultura no país, dando suporte a proprietários rurais e estabelecendo o diálogo entre a classe produtora de conhecimento científico e o campo – ao fim e ao cabo, a instituição acabou sendo mais conhecida por ter sido, na época, a administradora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Tendo passado por três diretores-redatores diferentes, Miguel Antonio da Silva (de 1869 a 1879), Nicolau Joaquim Moreira (até 1887) e Ladislau de Sousa Mello e Netto, a revista circulou até dezembro de 1891, totalizando 87 edições publicadas ao longo de 22 anos. Seu fim deveu-se a uma crise administrativa instaurada na entidade que a geria a partir de 1886, extinta na reorganização das instituições públicas brasileiras ocasionada pela instauração da República no Brasil, no ano de 1889. Atualmente, a Revista Agrícola é lembrada como uma ferramenta de importância para o desenvolvimento de ideias reformistas junto à elite não só na agricultura, mas também na economia e na política: suas páginas imprimiram críticas não só ao uso espoliativo da terra, numa espécie de pré-conscientização ambiental, como também ao uso de mão-de-obra escrava.

Dirigida e redigida primeiro por Miguel Antonio da Silva, a revista era impressa inicialmente na tipografia do Imperial Instituto Artístico, localizado no nº 1 da Rua da Constituição, tendo sempre aparecido em edições de cerca de 60 ou 80 páginas. Antes do lançamento da Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, Miguel Calmon du Pin Almeida, o marquês de Abrantes, era o diretor da entidade, desde a fundação da mesma, em 1860. Com a morte do marquês, em 1865 Luís Pedreira do Couto Ferraz, o futuro barão e visconde do Bom Retiro, assumiu a presidência. Sob sua orientação o periódico foi fundado, tentando ser um meio de comunicação científica voltado a um público não necessariamente intelectual ou acadêmico, mas interessado e/ou ocupado em atividades rurais, procurando levar “civilização” ao campo ao exercer aquilo que chamava de “vulgarização científica”. Propósito honrado. Mas havia, no caso, preocupação em transparecer que o objetivo maior da revista era colaborar para que o Brasil aumentasse e fortalecesse sua produção agrícola, de acordo com os interesses das autoridades e de grandes proprietários rurais da província do Rio de Janeiro.
Formava-se em torno da publicação um esforço entre intelectuais, cientistas, políticos e latifundiários (os dois últimos por vezes se confundindo, certamente) em solucionar sobretudo a falta de mão-de-obra para a lavoura, por meio do desenvolvimento científico e técnico na agricultura, ocasionando volumes expressivos de produção sem a necessidade de dependência do mercado escravocrata – nao que fossem adeptos da filantropia, ou interessados no bem da população negra. Assim, todavia, a Revista Agrícola expunha projetos de melhoramentos da agricultura em geral, métodos de incorporação de práticas científicas e de introdução de máquinas e instrumentos na lavoura, etc. A publicação, afinal, foi uma ferramenta crucial no estabelecimento de outras instituições públicas voltadas às ciências agrárias no Brasil, indo muito além do próprio Imperial Instituto Fluminense de Agricultura – instituições tais que tinham grande atenção do governo imperial, inseridas numa agenda de valorização da produção agrícola, que vinha se constituindo dentro das principais questões políticas e econômicas nacionais desde a década de 1850, sobretudo quando o assunto era a todo-poderosa indústria cafeeira. Um exemplo do interesse imperial pelo desenvolvimento da lavoura foi o Congresso Agrícola de 1878, organizado pelo governo para debater as principais questões agrárias no país. Apesar de o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura não ter participado oficialmente do evento, abordou-o em seu órgão impresso, lançando mão de análises maiúsculas a respeito das relações entre os proprietários rurais e as ciências agronômicas brasileiras.

Begonha Bediaga, em “Marcado pela própria natureza: o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura”, obra de referência sobre a instituição que editava a Revista Agrícola, reserva um capítulo inteiro ao estudo do periódico. Segundo a autora,

Seus principais objetivos eram divulgar os conhecimentos acerca das atividades rurais, promover o debate sobre as novas tecnologias e ciências que despontavam na Europa e nos EUA em prol da agricultura e suas adaptações à realidade brasileira, além de discutir a “crise” da mão de obra e sua substituição por colonos e propagandear o uso de máquinas e instrumentos agrícolas. A missão pedagógica da revista se traduzia em ensinamentos ao leitor sobre as vantagens de abandonar as práticas agrícolas tradicionais e rotineiras e incorporar novos hábitos no trato com a planta e o solo, com apresentação de exemplos advindos, principalmente, dos países chamados civilizados. (p. 149)

Nas páginas da Revista Agrícola o leitor podia “acompanhar as novidades científicas da Europa, conhecer as opiniões de brasileiros que se aventuravam a investigar as disciplinas emergentes em torno da agronomia e aprender com as experiências ali narradas” (p. 153), através de textos de seu diretor-redator ou de colaboradores, que podiam tanto ser membros da diretoria e do conselho fiscal do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura quanto convidados. Estes, aliás, eram mais vistos nas páginas do periódico: Bediaga revela que, ao longo do tempo de publicação, “de 193 autores, apenas 10 (5,18%) eram do instituto, sem contabilizar os três editores” (p. 151). Isso se traduziu numa linha editorial que falava pouco da entidade, que aparecia costumeiramente quando se divulgavam resultados de análises feitas pelo seu Laboratório de Química, ou quando alguns de seus documentos oficiais eram publicados: atas de sessões (inclusive as relativas a anos anteriores à fundação do periódico), relações de membros, transcritos de relatórios enviados pela diretoria ao Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas (MACOP).

Em linhas gerais, pode-se dizer que a Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura foi uma publicação especializada em ciências agrárias, embora, na época, a agronomia ainda estivesse procurando legitimação como campo científico no Brasil. Ainda assim, sua linha editorial, muito por explorar questões inerentes à produtividade do campo, acabava abordando outros assuntos ligados às atividades rurais: os dados técnicos e científicos que os editores da publicação tanto valorizavam vinham acompanhados de informações, avaliações e questões de ordem política, econômica e social. Estas, devidamente colocadas em diálogo, davam ao periódico um quê multidisciplinar. Mais especificamente, alguns dos tópicos recorrentes nas páginas da Revista Agrícola foram geologia, botânica, zootecnia, química agrícola, educação agrícola – onde, cabe ressaltar, a revista criticava o costume de derrubadas de matas e queimadas para a obtenção de solos mais produtivos, oferecendo alternativas a tais métodos –, mecanização de métodos de produção, entomologia agrícola (com foco no combate à moléstia da cana-de-açúcar, empecilho para a indústria açucareira), exposições e eventos nacionais e internacionais interessantes ao desenvolvimento da agricultura, emprego de escravos ou colonos imigrantes como força de trabalho, particularidades de culturas específicas na lavoura (incluindo a silvicultura), técnicas de reprodução e melhoramento de plantas e análises detalhadas da produção agrícola de outros países, etc. Tais assuntos eram desenvolvidos em artigos e editoriais, ou apenas destacados na seção “Noticiário Agrícola”, sendo, em diversas ocasiões, ilustrados.

Em termos extra-editoriais, de ordem administrativa, sabe-se que, apesar de certa estabilidade obtida através do repasse de verbas anual da Assembleia Legislativa provincial, a Revista Agrícola, assim como o próprio Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, contava com recursos limitados. O apoio imperial tinha suas limitações; as ciências no Brasil, tristemente, sempre patinaram. Begonha Bediaga cita um relatório enviado por Couto Ferraz ao MACOP em 1868, onde o presidente da entidade procurava convencer as autoridades a assumir um plano de subscrição anual que ficasse entre cem e duzentas assinaturas, a serem remetidas a câmaras municipais de todo o país – algo que, além de gerar capital para melhorar a qualidade gráfica e editorial da revista e aumentar sua tiragem, também daria maior abrangência ao projeto de disseminação do conhecimento científico a ser aplicado na agricultura, para proprietários rurais em escala nacional (p. 150). Até 1873 tal pedido aparecia nos relatórios do instituto ao ministério, mas é incerto se os esforços de Couto Ferraz de fato lograram. Todavia, Bediaga transcreve o trecho de uma carta enviada pelo visconde a Dom Pedro II, localizada atualmente no Arquivo Histórico do Museu Imperial, onde Ferraz expunha:

Estou de inteiro acordo com o juízo de V. M. I. sobre a nossa Revista Agrícola, e já para diante espero que conseguirei melhorá-la. Não obstante – penso – que se o governo tivesse dado algum auxílio, só para a sua maior vulgarização ela poderia ter prestado já bem bons serviços – com parte do que se tem publicado. Com os chorados e magros 5 contos de réis de cada ano, dados sempre com pouca vontade e depois de imensos esforços pela Assembleia Provincial, pouco se pode obter. Assim mesmo, dou graças a Deus por haver podido mantê-la até agora, contra os desejos de certa gente. (p. 151)

Resta ressaltar, ainda segundo Bediaga, que o instituto editor da Revista Agrícola atribuía à mesma o título de órgão pioneiro em publicidade a favor da agricultura nacional na imprensa brasileira, consideração, no entanto, incorreta: o Jornal da Sociedade de Agricultura, Commercio e Indústria da Província da Bahia, lançado em Salvador em 1832, e O Auxiliador da Indústria Nacional, editado pela Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional no Rio de Janeiro a partir de 1833, também se preocupavam em divulgar conhecimento científico a ser aplicado na lavoura brasileira, em geral. Na obra de Bediaga, aliás, a Revista Agrícola é comparada à Revista de Horticultura, que circulou na capital do Império entre 1876 e 1879, trazendo semelhanças e diferenças ao periódico do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura.

A partir de sua 3ª edição do 10º volume, datada de setembro de 1879, época em que a impressão de suas páginas já era feita Typographia Litteraria, no nº 98 da Rua do Hospício, o diretor e redator da Revista Agrícola passou a ser Nicolau Joaquim Moreira – a mudança ocorrera pelo falecimento de Miguel Antonio da Silva, que, em cerca de dez anos, se ausentou da revista apenas durante um período em 1874, em que viajou à Europa, em comissão científica governamental, ficando a publicação interinamente a cargo de Joaquim Antonio de Azevedo por quase todo aquele ano. Moreira manteve a linha editorial da publicação à semelhança da gestão anterior, com um diferencial: foi o único redator a tocar explicitamente na questão da escravidão, abordada indiretamente nos 10 primeiros anos do periódico, declarando-se contrário à mesma. Ainda levaria 14 para a Abolição acontecer: esforços como esse, com ilustres figuras dando a cara a tapa, eram importantes. Como era dirigido às elites rurais, as principais interessadas na saúde da lavoura nacional, imiscuídas na própria classe política, cabe lembrar, o periódico dirigia-se justamente aos principais beneficiários do regime escravocrata.

No ano de 1882, a Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura foi impressa pela Typographia Polytechnica, localizada no nº 44 da Rua Senhor Passos, mas a partir do ano seguinte sua impressão passou a ser realizada na Typographia Universal de H. Laemmert & Cia., no nº 71 da Rua dos Inválidos. Entre 1886 e 1888 as edições da revista passaram a vir apenas com a marca do ano de publicação, omitindo- se o mês: algo que indica irregularidade no lançamento de suas edições, apesar do periódico sempre ter se declarando publicação trimestral. O instituto estava em crise, sejamos sinceros.

O falecimento do presidente do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, Couto Ferraz, em 1886, veio praticamente junto de duras críticas recebidas do então ministro da Agricultura, com relação ao funcionamento das três instituições que o órgão administrava: o Jardim Botânico, a Fazenda Normal e o Asilo Agrícola – tais críticas certamente foram influenciadas por um relatório ministerial assinado por Nicolau Joaquim Moreira, então diretor-redator da Revista Agrícola, em 1885, ressaltando uma série de falhas administrativas da entidade gestora. A briga envolvia cachorros grandes. Assim que o presidente seguinte, Braz Carneiro Nogueira da Costa Gama, o conde de Baependi, assumiu, teve que se retirar, por motivos de saúde, ficando Pedro Dias Gordilho Paes Leme à frente do instituto, interinamente. Em pandarecos, a instituição vê em 1887 Nicolau Moreira demitir-se tanto da direção de seu periódico como também da chefia do Jardim Botânico, da Fazenda Normal e do Asilo Agrícola, que acumulava. Ao que consta, sua demissão deveu-se a desentendimentos com o presidente interino, ficando Paes Leme à frente das três instituições, também interinamente. A edição da revista, na ocasião, concentrou-se nas mãos do conselheiro Ladislau Netto, cientista natural que esteve à frente do Museu Nacional entre 1875 e 1893, tendo sido responsável pela criação dos Archivos do Museu Nacional, em 1876, reconhecido como o primeiro periódico científico do Brasil voltado às ciências naturais. A certa altura, já no ano de 1887, os cargos de presidente, vice-presidente e secretário do instituto permaneceram vagos, como também os de presidente e vice-presidente de seu conselho fiscal. Eram pepinos, pois.

A partir da única edição lançada em 1888, sob a gestão de Ladislau Netto, a periodicidade trimestral do periódico foi retomada – ao ponto do registro de mês de publicação de suas edições reaparecer no nº 4 do volume 21, marcando dezembro de 1890 como mês de lançamento. Cabe ressaltar que mesmo com a Proclamação da República, em novembro de 1889, a revista não foi extinta: o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura apenas passou a se chamar Instituto Fluminense de Agricultura, algo que ocasionou, obviamente, a mudança no título de sua revista. Mas apesar da aparente melhora na regularidade da publicação sob a gestão de Ladislau Netto, tanto o instituto quanto seu órgão de divulgação foram sendo mantidos de improviso, apesar da crise administrativa, até que a Proclamação da República, em 1889, apenas sacramentou o fim de ambas, cerca de dois anos depois. Vinha-se definhando, afinal. Com sua entidade gestora não figurando mais nos relatórios ministeriais a partir de 1890, a Revista Agrícola, então impressa na Companhia Typographica do Brazil, no nº 93 da Rua dos Inválidos, foi veiculada somente até sua edição válida por dezembro de 1891, a derradeira, que foi tirada com atraso, em data incerta de 1892. O fechamento da revista deveu-se, naturalmente, à extinção formal do Instituto Fluminense de Agricultura.

Ao longo de seus 22 anos de publicação, a Revista Agrícola publicou trabalhos de nomes como Carlos Glasl, Joaquim Antonio de Azevedo, A. Krauss, Emílio Goeldi, entre tantos outros, além de seus três diretores e dos presidentes do instituto previamente citados. Em tempos de aquecimento global, maior conscientização de questões raciais e reformulação de hábitos de consumo, merece, e muito – assim como sua instituição gestora – ser lembrada.


Primeira edição de Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, de 1869.