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Acervo da BN | Um coaxar sublime na imprensa paranaense

07 jan 2021

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Curitiba, Imprensa Literária, Literatura, Paraná, Séc. XIX

Quem diz que São Paulo é a terra da garoa está falando uma meia verdade: quem já pisou em Curitiba há de reconhecer que o índice pluviométrico da capital paranaense é – se é – triste de aguentar. Munido de galochas, jaqueta – digo, japona – impermeável e um bom guarda-chuva, o curitibano pode, quem sabe, já ser considerado um hominídeo diferente, ao menos taxonomicamente: o Homo anfibius. Troças e gracejos à parte, essa é a deixa perfeita para abordarmos hoje um dos mais deleitantes e serelepes impressos da terra das araucárias presentes no acervo de nossa Coordenadoria de Publicações Seriadas: eis O Sapo, semanário literário e humorístico da belle époque curitibana, curitibaníssimo que só. Quem diria, afinal, que por baixo da cútis esverdeada permanentemente úmida e da carranca antropófoba, abstrusa e enjoadinha de tal bicho morava, esse tempo todo, um simpático coraçãozinho zombeteiro?

O Sapo foi um periódico cultural lançado em Curitiba (PR) em 6 de março de 1898. Com redação situada no antigo nº 43 da rua XV de Novembro, foi criado e mantido por Leocadio Cysneiros Correia, seu redator principal, Leite Júnior, Gabriel Ribeiro e Tales Saldanha. Veiculado em formato próximo a 30 x 21 cm, teve entre quatro e oito páginas por edição, sendo impresso em preto ou verde sobre papel fosco, inicialmente através da Typographia da Livraria Econômica. Sempre em moldes de revista, circulou até 1902, até ser retomada por Vasco José Taborda Ribas quase 75 anos depois. Mas aí já temos uma história à parte: ardoroso enamorado do anfíbio (o impresso, naturalmente), Ribas decidiu fundar todo um círculo literário em torno da antiga revista; para tanto, em 1976, não só refundou a publicação como a encetou como boletim da chamada “Soberana Ordem do Sapo”. Perdão. Da chamada “Honorífica e Nobiliárquica Soberana Ordem do Sapo do Brasil”, seu nome completo.

O editorial de lançamento de O Sapo, em 1898, foi escrito por ninguém menos que Emiliano Perneta, que, a rigor, não participava da redação:

A mocidade litteraria paranaense, à semelhança de toda a mocidade brasileira de letras, tem firmado em todos os tempos um alto e magnífico protesto contra a indifferença absurda, que a rodeia e suga. O Brasil é um paiz de surdos-mudos e cegos para tudo que é fino, subtil e intellectual, e só entende e applaude o hystrião político que o diverte com o acrobatismo de saltos mortaes, e farças mirabolantes (...).

Um tanto arrevesado e rebarbativo, o coaxar crítico de Perneta tinha lá suas razões. No mais, cabe apontar: segundo um texto sobre O Sapo no site do projeto Revistas Curitibanas: 1900- 1920, citando verbete relativo à revista produzido por Cassiana Lacerda Carollo para o Dicionário Histórico-Biográfico do Estado do Paraná, de 1991, o termo “sapo”

(...) reporta-se ao apelido como era conhecido o habitante de Curitiba, e que foi inclusive assunto para algumas obras: em “Crônicas Locais”, por exemplo, Nestor Vítor se refere à Curitiba como um “anfiteatro de sapos”. Em O Sapo, alguns textos de caráter simbolista tratando do tema são publicados por Aristides França, Generoso Borges, Nestor de Castro, Antonio Austregésilo e Euclides Bandeira, este um assíduo colaborador da revista. No entanto, como indica a historiadora Cassiana Lacerda Carollo, “O Sapo não revela tendência por uma determinada estética, publica textos de Bilac, Cruz e Sousa, Raimundo Correia, Catule Mendes, Eça de Queirós, Garret, Coelho Neto, recebendo colaborações de Antonio Austregésilo e Oliveira Gomes”.

O ecletismo de O Sapo não era relativo apenas ao escopo literário: em ares descompromissados e leves – quem diria! –, suas páginas publicavam poesia, crônicas, editoriais, comentários, notícias, impressões de viagens, textos amenos de humor ou com polêmicas, partituras com polcas da moda, folhetins, pequenos perfis de poetas e literatos locais, entre outras coisas. Coisa desopilante e alegre. No plano imagético, não esqueçamos, a revista, em seus primeiros momentos, não era abundantemente ilustrada: trazia apenas pequenos clichês, vinhetas e letras adornadas, para mera ornamentação. Ainda assim, uma edição especial de O Sapo publicada em 3 de maio de 1900 trouxe um painel com retratos dos principais escritores do Paraná, em litogravura assinada por A. Clement. A partir desse ano de 1900, aliás, momento em que as habituais quatro páginas da publicação esporadicamente dobravam e seu cabeçalho foi reformulado, algumas imagens a mais passaram a sair. O Sapo passou então a ser impresso na Typographia Impressora Paranaense. Poucos anúncios apareciam nas páginas da revista, todavia.

Além dos já citados, alguns dos nomes publicados em O Sapo foram Thiago Peixoto, João Itiberê, Dias da Rocha Filho, Francisca do Souto, Angelo Duarte, Raul Brazil, Martinho Chaves, Benjamin Leite, Euclides Bandeira, Nicolau Santos, Sylvio Paraná, Mario Lamór, Cleómenes Filho, Hipolito Pereira, Ricardo de Lemos, Generoso Borges, Nestor de Castro, Nestor Victor, Emílio de Menezes, Silveira Netto, Jansen de Capistrano, Vivaldi Coaracy, entre outros. No quinto e último ano de existência da revista, Leocadio Correia a abandonou, deixando-a com Adolfo Werneck, cofundador de O Sapo e uma das cabeças por trás da revista Azul. No entanto, esta última parece não ter ido além de sua edição nº 30 do ano 5, de 10 de agosto de 1902 (a cada virada de ano, o periódico era renumerado).

E quanto à Ordem do Sapo? Ainda existe. E vai bem, obrigado. Seus membros são nomeados barões e baronesas, mas não adianta se assanhar: um conselho decide quem é titulado, não se trata de padaria para entrar quando se dá na telha. O ar buliçoso de suas reuniões e recitais por vezes assume nuances mais formais, com um tiquinho mais de siso, embora nunca caindo no macambúzio: haja vista uma solenidade realizada no Salão Nobre do Colégio Estadual do Paraná em 2016, que até hoje é lembrada por ter contado com a presença do príncipe de Órleans e Bragança, S.A.I. Sim, ele mesmo, o Dom Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança: bródio e berzundela para a inveja os opositores – se bem que talvez não existam opositores a’O Sapo. Segundo José Carlos Fernandes, em reportagem sobre o círculo literário publicado na Gazeta do Povo, os sapos atuais são

(...) discretíssimos em sua maioria, de modo que são identificados apenas pelos conhecidos. É fato que ostentam medalhões, como os graúdos de antigamente, mas vivem como se fossem plebeus. Suas comendas saem das sedas apenas em ocasiões, nalgum palacete, em encontros quase secretos, nos quais se alegram recitando versos e trovas, longe dos arrulhos dos curiosos. Para descobrir a identidade de algum desses eleitos, basta prestar atenção nas lapelas, nas quais prendem um pequenino broche em forma de anfíbio. Eis o sinal.



Capa de O Sapo.