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Atalaia

16 Nov 2017

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Catolicismo, Conservadorismo, Crítica política, Dom Pedro I, Imprensa Áulica, José da Silva Lisboa, Primeiro Reinado

Editado no Rio de Janeiro (RJ) a partir de 31 de maio de 1823, veiculando no total 14 edições até 2 de setembro do mesmo ano, Atalaia foi um pasquim áulico de propaganda à política de Dom Pedro I em meio ao contexto da Independência do Brasil, processo que durou de 1821 a 1825. Exercendo grande crítica aos opositores do imperador e batendo-se contra outro pasquim da Corte, O Sylpho, o periódico tratou, ao longo de suas edições, de tecer considerações negativas sobre sociedades secretas no país, em defesa ao culto católico, além de celebrar a aclamação de Pedro I, ocorrida a 12 de outubro de 1822. Em paralelo, além de outras questões políticas internas, o periódico comentou a Assembleia Constituinte, que pariria a primeira Constituição somente somente em 1824, e louvou a adesão da Bahia à Independência, a 2 de julho de 1823. Impresso na Typographia Nacional, seu redator era José da Silva Lisboa, o visconde de Cairú, que durante o Primeiro Reinado foi um dos mais destacados – se não o maior, certamente o mais prolífico – editores de efêmeros pasquins absolutistas a favor do imperador.

Silva Lisboa tinha grande prestígio frente à coroa, no que se tratava de sua oratória. Quando, entre 1808 e 1821, apenas impressos da Impressão Régia tinham permissão de circular, esta era dirigida por uma junta composta por Silva Lisboa, José Bernardes de Castro (oficial da Secretaria de Estrangeiros e de Guerra) e Mariano José Pereira da Fonseca; o trio deveria se certificar de que nada atentando contra a religião, o governo ou os “bons costumes” fosse impresso. Para tanto, contavam com o exame prévio dos censores reais: o frei Antônio de Arrábida, o padre João Manzoni, Carvalho e Mello e o próprio Silva Lisboa. Com o processo de Independência do Brasil, que se estendeu de 1821 a 1825, e a turbulência política do período, o visconde de Cairú manteve-se ao lado de Dom Pedro I, ajudando-o através da redação e da impressão de inúmeros periódicos de apoio ao monarca e, sobretudo, de revide a seus opositores liberais. O Conciliador do Reino UnidoReclamação do BrasilSabbatina Familiar de Amigos do Bem-Commum, Heroicidade BrasileiraHonra do Brasil Desafrontada de Insultos da Astréa Espadaxina foram alguns dos pasquins do áulico publicista.

Nelson Werneck Sodré, no livro “História da Imprensa no Brasil”, reserva as seguintes palavras a Silva Lisboa, referindo-se ao visconde no contexto pós-Independência. Naquele momento,

Esse áulico empedernido continuaria a desovar impressos. É discutível incluí-los na categoria de imprensa, mas são característicos e por isso devem ser mencionados. Mal se findara o seu sexto periódico, a Causa do Brasil, a 20 de março de 1823, engendrou o Atalaia, de que apareceram 14 números pelo menos. (…) Silva Lisboa e suas publicações, de distante parentesco com a imprensa, mostra o grau de decadência a que ela chegara em 1825: era o mais fundo o abatimento a que o absolutismo conduzira o país. Em 1825, por outro lado, encerravam-se, com os acordos presididos pelo representante inglês Stuart, as negociações para o reconhecimento da Independência, cujos termos revoltaram os espíritos. Ia começar, desse fundo de poço, a arrancada liberal, em que a imprensa desempenharia papel relevante. (p. 97)

Cerca de dois anos depois do fim de Atalaia, dado o início da Guerra Cisplatina em 1825, quando o recém-nascido Império do Brasil disputaria com as Províncias Unidas do Rio da Prata a posse da Província Cisplatina, Silva Lisboa ainda veio a editar o Triumpho da Legitimidade Contra Facção de Anarquistas, para fazer propaganda da campanha junto à opinião pública, já que o conflito não era visto com bons olhos para a população brasileira: implicaria altos gastos de dinheiro público, gerando, naturalmente, um aumento nos impostos.

Fontes:

– Acervo: edições do nº 1, de 31 de maio de 1823, ao nº 14, de 2 de setembro de 1823.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.