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Brasileiro Pardo

06 ago 2018

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Conservadorismo, Crítica política, Dom Pedro I, Imprensa Negra, Período Regencial, Rio de Janeiro

Brasileiro Pardo foi um dos primeiros jornais brasileiros a abordar a discriminação racial, 55 anos antes da abolição da escravatura no Brasil. Lançado sob a inspiração do periódico O Homem de Côr, veio a lume em 21 de outubro de 1833 através da Typographia Paraguassu, de Davi da Fonseca Pinto, localizada na Rua Senhor dos Passos. De ênfase restauradora ou, na terminologia da época, “caramuru” – ou seja, contra a classe política que subira ao poder durante o recém-iniciado Período Regencial –, seu surgimento esteve contextualizado com a proliferação de pasquins de crítica política entre o fim do Primeiro Reinado e o início da Regência, no início da década de 1830. Apesar de ter circulado apenas com sua primeira edição, acabou integrando o grupo da primeira imprensa negra brasileira, composto também por O Meia Cara, O Cabrito (ambos de vertente política liberal, contrária aos restauradores), O Crioulo, O Crioulinho e O Lafuente, além de O Homem de Côr.

Nelson Werneck Sodré, em “História da imprensa no Brasil”, usa uma fala de Evaristo da Veiga para expor a atuação de Davi da Fonseca Pinto na imprensa política da corte, no período. Notadamente pró-Dom Pedro I, apesar de sua inclinação antidiscriminatória entre brancos e negros, Pinto é retratado negativamente ao lado de João Batista de Queiroz, outra figura responsável pela proliferação de pasquins de crítica “virulenta” pelo lado restaurador. Nas palavras de Veiga:


Tiradas poucas exceções, o jornalismo caramuruano do Rio de Janeiro (...) divide-se em jornais “Queiroz” e em jornais “Davi”; são os srs. João Batista de Queiroz, ex-redator da Matraca e do Jurujuba dos Farroupilhas, e Davi da Fonseca Pinto, ex-redator do Poraquê e do Verdadeiro Patriota, os quais inundam a cidade com periódicos, que de ordinário não passam do quarto número. Estes dois paladinos da retrogradação, ambos empregados por Dom Pedro I e detidos da revolução, ambos igualmente notáveis pela imoralidade de sua conduta, pelas ações vergonhosas com que se têm feito conhecidos na sociedade (...); pesam sobre os ombros do sr. Davi: o Adotivo, o Papeleta, o Brasileiro Pardo, o Andradista, o Lafuente e parte do Bentivi, da Loja do Belchior e do Esbarra. (...) (Davi) tem fumos de literato, pilha Filinto Elísio e mais alguns quinhentistas para ter o ar de purista em linguagem e é sempre declamador e pedante. (...) contenta-se com o que acha à superfície, para enfeitar os seus inúmeros escritos. (...) aspira a ser popular e adular a multidão e não pode disfarçar a aversão, o antigo ódio que vota aos brasileiros e a sua simpatia exclusiva por tudo que é do outro mundo. (...) olha a anarquia como o caminho que vai ter à restauração e à tirania imperial. (...) conta enviar à forca e às galés os amigos da liberdade brasileira, gozando o favor do príncipe, em cujo serviço se tem arrastado tanto. (p. 125/126)



Tais palavras devem ser lidas com reservas, mas não eram para menos. Forte figura de oposição a Dom Pedro I, Evaristo da Veiga era frontalmente atacado no texto inicial do Brasileiro Pardo, que lamentava a abdicação do monarca em tons de desilusão: “Os larangeiras bem depressa mostrárão o que erão; D. Pedro foi-se, e os seus ministros e Conselheiros ahi ficárão nos seus logares, e, o que mais é, são esses mesmos homens hoje os conselheiros, amigos, defensores e sustentáculos dos Evaristos!”

Fontes:

- Acervo: edição nº 1, de 21 de outubro de 1833.
- PINTO, Ana Flávia Magalhães. Imprensa negra no Brasil do século XIX. São Paulo: Selo Negro, 2010.
- SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.