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Chronica Maranhense

06 jun 2018

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e marcado com as tags Balaiada, Censura e repressão, João Lisboa, Liberalismo, Maranhão, Período Regencial

Editado por João Francisco Lisboa, Chronica Maranhense foi um jornal liberal lançado em São Luís (MA), a 1º de janeiro de 1838 – época em que, em face ao regresso conservador ao poder em pleno Período Regencial, diversas revoltas sacudiam as províncias brasileiras, situação que colocava o liberalismo nacional em momento delicado. Apesar de estar situado na mesma crença política que outra folha local, O Bemtevi, o jornal de Lisboa tinha feições diferentes da última. Impresso inicialmente na tipografia de Ignácio José Ferreira, que, de seu estabelecimento, no nº 34 da Rua da Paz, vendia os exemplares avulsos do periódico, o mesmo podia ser assinado no escritório do tabelião Joaquim Baptista da Cunha. Num segundo momento, sua impressão ficou a cargo do maquinário de R. A. R. d’Araújo, pelas mãos do tipógrafo A. J. da Cruz, para depois ser impresso da Typographia Imparcial Maranhense: através desta última saíram os últimos exemplares do jornal, que circulou, aparentemente, até sua 284ª edição, de 5 de janeiro de 1841.

A importância histórica da Chronica Maranhense reside em sua relação com a Balaiada, revolta popular que varreu o Maranhão entre 1838 e 1841, primeiro sob a liderança de Raimundo Gomes e depois de Cosme Bento, contra o monopólio político de certos fazendeiros conservadores locais, que abusavam da truculência para alcançar seus objetivos econômicos. Importante ressaltar que o período em que a insurreição aconteceu quase coincide com o tempo de vida da Chronica – o fim do periódico de João Francisco Lisboa, provavelmente, se deu em desdobramento ao fim da revolta.

Nelson Werneck Sodré, em sua “História da imprensa no Brasil”, cita o historiador maranhense Astolfo Serra para comentar a respeito da Chronica Maranhense, que, à sua época, era avaliada como “um dos jornais mais bem redigidos do país” (p. 184). Nas palavras de Werneck Sodré,


Nela apareceu, a 23 de dezembro de 1838, o primeiro rebate da Balaiada: “consta-nos que há poucos dias uma partida de proletários (ao muito 15 homens) atacaram o quartel da vila de Manga, do qual se apossaram”. João Francisco Lisboa acompanhou, em seu jornal, o desenvolvimento da rebelião, sem penetrar as suas razões, sem explicá-las, mas não formou no coro dos que a invectivaram, capitaneados pelo órgão do governo da província, O Publicador Oficial. Coube a José Cândido de Morais e Silva, no Maranhão, o papel de jornalista liberal típico. Com a sua folha, O Farol, abriu caminho, que Lisboa seguiria depois. O historiador maranhense (Astolfo Serra) escrevia, ante o fundo feudal que constituía a base que sustentava a facção conservadora: “Receais a guerra civil, não existe ela já porventura, quando se assassina, e quando os matadores, à frente de uma tropa numerosa e em atitude ameaçadora, estão ainda brandindo os punhais ensanguentados? Não poderá ela acaso rebentar também do criminoso abandono em que se deixa uma população inteira? Quer-se-á que cada um entregue às suas próprias forças, deixando o caminho da lei, encete o das vinditas particulares tão funestas e desastrosas?” João Francisco Lisboa não esposaria, entretanto, a causa dos amotinados. Nem mesmo Estevão Rafael de Carvalho, mais extremado na pregação, a esposaria. As acusações a ambos, nesse sentido, levantadas e pugnazmente sustentadas por Sotero dos Reis, carecem de fundamento. Foi a Balaiada, sem qualquer dúvida, movimento camponês deflagrado e mantido por força de condições regionais específicas, em circunstâncias também específicas. A pregação da imprensa liberal da província teve influência muito remota e frágil nela. O movimento era plebe, com razões e métodos plebeus. (p. 134/135)



Avaliado por Werneck Sodré como um dos jornalistas mais brilhantes de seu tempo, João Francisco Lisboa ocupava cargo público à época em que redigia a Chronica Maranhense: havia sido eleito à Assembleia Legislativa local em 1834, tendo sido secretário do governo provincial entre 1835 e 1838. Depois de sua experiência à frente da folha liberal, foi também redator-chefe do Publicador Maranhense, onde ficou até 1885, até se mudar para o Rio de Janeiro, onde assumiu temporariamente, somente até o final daquele ano, a seção jurídica do Correio Mercantil.

Fontes:

- Acervo: edições nº 1, ano 1, de 1º de janeiro de 1838; nº 99, ano 2, de 4 de janeiro de 1839; nº 231, ano 2, de 7 de janeiro de 1840; e nº 284, ano 3, de 5 de janeiro de 1841.
- SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.