BNDigital

Correio da Manhã

17 nov 2014

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Aliança Liberal, anticomunismo, Arte e cultura, Campanha Civilista, Carlos Lacerda, Censura e repressão, Comércio, Crítica política, Departamento de Imprensa e Propaganda, Ditadura civil-militar brasileira, Economia, Edmundo Bittencourt, Entretenimento, Estado Novo, Getúlio Vargas, Hermes da Fonseca, Liberalismo econômico, Moniz Sodré, Primeira Guerra Mundial, Questões agrárias, Reforma Passos, Revolta da Chibata, Revolta da Vacina, Revolta dos 18 do Forte, Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, Revolução Constitucionalista de 1932, Revolução de 1930, Rio de Janeiro, Rui Barbosa, Segunda Guerra Mundial, Tenentismo, União Democrática Nacional, Xenofobia

Um dos mais respeitáveis periódicos da imprensa diária de grande tiragem do país, que atingiria tiragens superiores a 200 mil exemplares em seus melhores momentos, o Correio da Manhã nasceu bastante modesto, no Rio de Janeiro (RJ). Fundado por um jovem advogado idealista chamado Edmundo Bittencourt, é considerado hoje um dos mais importantes jornais brasileiros do século XX, dotado de uma ética própria e introdutor de refinamentos textuais que se transformariam na sua marca. Lançado em 15 de junho de 1901, numa época em que a imprensa se mostrava mais explicitamente parcial no jogo do poder, o periódico, desde sua primeira edição, nas palavras de Nelson Werneck Sodré, primava por um “ferrenho oposicionismo, de extrema virulência”, em contraste com o “extremo servilismo” adotado por jornais concorrentes. Seu caráter era independente, legalista, liberal e doutrinário, dentro de uma linha editorial combativa à situação, no caso, inicialmente, a República Velha oligárquica – no entanto, sempre se destacou como “jornal de opinião”. Identificava-se, num primeiro momento, com as classes populares, mas com o passar do tempo atraiu a atenção da classe média do Rio de Janeiro; muitas vezes apresentava aos leitores textos de forte carga emocional. Ao longo do tempo desenvolveu também certa preocupação estética, no que foi inovador, marcado-se pela crescente valorização de ilustrações e fotos. Ademais, o Correio da Manhã sempre se posicionava a favor de medidas modernizadoras e contra forças políticas vistas pelo como bloqueadoras do desenvolvimentismo e do acesso popular a alguns direitos fundamentais. O fim de sua publicação, em 8 de julho de 1974, deu-se por incompatibilidades da folha com a ditadura militar, que inicialmente apoiara.

A primeira edição do Correio da Manhã, possibilitada por uma rotativa Marinoni comprada do senador Francisco Glicério por Bittencourt, tinha apenas seis páginas, sendo três apenas com anúncios. Com formato standard e periodicidade diária, não trazia manchetes, como boa parte dos jornais de sua época. A primeira página apresentava apenas um título grande e o texto se distribuía por oito colunas, além de não publicar fotogravuras, só desenhos – ali vinham assuntos nacionais, acontecimentos de destaque no Rio de Janeiro, críticas, editoriais e troças com a política e a sociedade cariocas. Na segunda página figurava o noticiário internacional (que passaria à primeira página nos períodos das grandes guerras), de conteúdo fornecido pela agência de notícias Havas. O matutino apresentava ainda as editorias “Seção de Comércio”, “Letras e Artes”, “Dia Social”, “Teatro” e “Dia da Caserna”.

Carlos Eduardo Leal, em extenso verbete sobre o Correio da Manhã no “Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930”, expõe detalhes quanto à crença política de Edmundo Bittencourt. Para o autor, a criação da folha tem relações com a Revolução Federalista, eclodida nos primeiros momentos da República no Rio Grande do Sul, e com os eventos que sucederam a mesma no turbulento cenário político brasileiro de então:
Sabe-se que Edmundo Bittencourt estava de alguma forma vinculado aos federalistas. Ainda no Segundo Reinado, iniciara sua vida jornalística em Porto Alegre, colaborando em A Reforma, jornal pertencente ao conselheiro Gaspar Silveira Martins. Essa formação gasparista e portanto oposicionista parece explicar a linha “participante e combativa” que Bittencourt imprimiria a seu próprio jornal. De fato, declarando-se isento de qualquer tipo de compromisso partidário, o Correio da Manhã apresentou-se como defensor “da causa da justiça da lavoura e do comércio, isto é, do direito do povo, de seu bem-estar e de suas liberdades”. Em outro nível, o jornal causou grande impacto por sua independência da situação, vindo “romper com os louvores a Campos Sales”, então presidente da República. Finalmente, outra característica do Correio da Manhã no momento de sua fundação foi sua aproximação com as camadas menos favorecidas da sociedade. (p. 1.625)

Mais que um mero órgão de combate à República do Café com Leite, para o autor, o jornal funcionou como uma frente opositora organizada que reunia as mais díspares vertentes políticas – nesse contexto, em seu corpo de colaboradores estavam lado a lado, por exemplo, o florianista Medeiros e Albuquerque e o monarquista conde de Afonso Celso. De fato, o talento de Bittencourt em arrebanhar e mediar tamanhas personalidades mereceu análise detalhada de Lima Barreto na obra “Recordações do escrivão Isaías Caminha”. Em paralelo, quanto à sua tonalidade inicialmente popular e de defesa dos interesses das massas, o Correio da Manhã veio a lume combatendo o aumento na tarifa das passagens dos bondes da Cia. São Cristóvão, denunciando funcionários públicos que extorquiam comerciantes e fazendo campanha contra os jogos de azar. Ademais, movimentos populares em geral tinham destaque nas páginas do jornal de Bittencourt. Evaristo de Morais, um dos colaboradores dessa época, destacava em sua coluna os movimentos operários ao redor do mundo, denunciando, em paralelo, o caráter coercitivo da legislação brasileira frente aos anseios das camadas populares.

Apesar de ter visto com bons olhos a nomeação de Pereira Passos para a prefeitura do Rio de Janeiro, muito por valorizar seu perfil de administrador, com poucas ligações partidárias (apesar de suas relações próximas com o governo de Rodrigues Alves), o Correio da Manhã não tardou em se posicionar contra o prefeito nos contextos da Revolta da Vacina e do “bota-abaixo” promovido pela Reforma Passos, onde na verdade a revolta estava contida. No primeiro caso, a folha assumia o papel de porta-voz do movimento contra a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, liderado por Mauro Sodré, Barata Ribeiro e Alexandre Barbosa Lima, fortalecendo o caráter ideologicamente insuflado da insurreição, por parte da oposição, sem deixar de contestar cientificamente a eficácia da vacina. A campanha movida pelo jornal contra a medida imposta pelo governo por inspiração do médico sanitarista Oswaldo Cruz, afinal, não se restringiu a condenar veementemente a vacinação em massa: sua posição pode mesmo ter insuflado a Revolta da Vacina, que entre os dias 10 e 16 de novembro de 1904 transformou a centro da antiga capital federal numa praça de guerra, deixando um saldo de 30 mortos. Tal postura chegou a ser condenada como uma atitude reacionária e obscurantista por parte do Correio da Manhã, em face dos benefícios da vacinação, especialmente para a insalubridade do Rio daquela época; hoje, entretanto, tende-se a considerá-la uma questão de princípios: o que o jornal se negava a admitir era a intervenção estatal na vida pessoal dos brasileiros. No plano geral do problema, inscrito nas obras de melhoramentos urbanísticos do Rio de Janeiro, sobretudo os artigos assinados pelo redator-chefe do periódico, Gil Vidal (pseudônimo de Leão Velloso Filho), apontavam basicamente que as remodelações iniciadas na capital em 1903 atingiam negativamente os grupos menos favorecidos da sociedade carioca. Para Carlos Eduardo Leal,
Na verdade, o jornal, apoiando os setores menos favorecidos, não fazia mais que arregimentar elementos para constituir aquilo que se poderia denominar uma clientela urbana. Esta clientela iria dar conta da tradição legalista do Correio da Manhã daí em diante: a orientação oposicionista, baseada no respeito incondicional à letra da lei, atacando qualquer forma de intervencionismo do Estado e pugnando pelo primado dos preceitos liberais, tendia a cristalizar-se. (p. 1.626)

Em 1906 o jornal se tornou o primeiro periódico brasileiro a apresentar um caderno especial aos domingos, agora já com fotogravuras. Por outro lado, nesse mesmo ano o senador Pinheiro Machado, cacique do Partido Republicano Conservador (PRC), então no poder, sentiu-se ofendido por um texto assinado por Edmundo Bittencourt. O estadista, que tinha poder e prestígio similares ao do presidente da República, sendo mesmo influente sobre o mandatário, desafiou o dono do Correio da Manhã para um duelo. Bittencourt aceitou o desafio, saindo dele ferido. O embate alimentaria o caráter combativo do diário em diversos aspectos – bom exemplo foi sua postura contrária à obrigatoriedade do serviço militar, instituída no governo Afonso Pena pelo ministro da Guerra, o marechal Hermes da Fonseca.

Com o fim do mandato de Afonso Pena em 1908, a disputa pela sucessão presidencial trouxe alguma surpresa quanto à linha política empregada pelo Correio da Manhã: o jornal, após a desarticulação da campanha pela candidatura de Davi Campista, apoiou Hermes da Fonseca. Sustentado pela aproximação entre setores civis da política nacional e o Exército, o marechal era visto como figura não ligada às oligarquias, representando, portanto, um rompimento com a situação que merecia o apoio de Edmundo Bittencourt. No entanto, a campanha por Hermes da Fonseca não durou muito; na verdade, em 1909 o diário daria uma guinada de 180º em sua linha política. Em 22 de maio desse ano, mesmo mês em que o jornal rendera grande homenagem de aniversário ao ex-ministro da Guerra, no dia 12, ocorreu a convenção que o confirmou o para o pleito. Após a mesma, e muito pelo programa apresentado nela, Rui Barbosa passou a ser o nome indicado pelo matutino para a presidência. O governo de Nilo Peçanha, que até então vinha sendo bem avaliado pelo Correio da Manhã, ademais, subitamente passou a ser criticado agressivamente. Com Hermes da Fonseca então sendo repudiado em suas páginas, o jornal passou a integrar a Campanha Civilista de Rui Barbosa assim que sua candidatura foi oficializada, em agosto de 1909.

Hermes da Fonseca saiu vitorioso no pleito. A partir de 10 de outubro de 1910, data da posse do marechal, Edmundo Bittencourt tinha em mãos o órgão que, mais uma vez, chefiava a oposição ao governo na imprensa. Como tal, o Correio da Manhã atacou o excesso de influência de Pinheiro Machado sobre o Senado – rejeitando o estadista ainda mais quando este passara a disputar com Nilo Peçanha o governo do estado do Rio. Nesse sentido, na ocasião da Revolta da Chibata o periódico ficou do lado de João Cândido e dos demais insurretos. No plano internacional, entretanto, o jornal se posicionou ao lado da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Em seguida, o Correio da Manhã capitaneou a oposição ao governo também durante o mandato de Epitácio Pessoa, tendo defendido Rui Barbosa novamente nas eleições de 1919.

Ao fim do mandato de Epitácio, o matutino estava ao lado da candidatura de Nilo Peçanha, pela Reação Republicana, opondo-se, portanto, a Artur Bernardes, que saiu vitorioso somente para assumir um governo politicamente instável, com o republicanismo oligárquico sendo constantemente ameaçado por conspirações civis e militares. Nesse contexto antibernardista, a folha de Edmundo Bittencourt atraiu grande atenção em outubro de 1921, pela publicação de uma série de cartas de autoria atribuída a Bernardes, dirigidas ao senador Raul Soares. Vazadas ao jornal pelo senador de oposição Irineu Machado, que articulou o contato do redator Mário Rodrigues com seu portador, Oldemar Lacerda, em suas páginas, para grande escândalo, o presidente questionava a integridade moral das forças armadas e sugeria suborno aos militares para angariar adesões. Após a instauração da polêmica, apesar de o diário insistir no contrário, Lacerda acabou confessando ser o verdadeiro autor das cartas.

Em 31 de agosto de 1924, com o país em estado de sítio, o Correio da Manhã chegou a ser fechado por Artur Bernardes, sob a acusação de estar imprimindo clandestinamente o folheto “Cinco de Julho”, em apoio ao levante dos 18 do Forte, ocorrido em 5 de julho de 1922. Já logo em seguida a essa revolta Edmundo Bittencourt havia sido preso, ficando Paulo Bittencourt, seu filho, na direção – na prática, no entanto, a folha era dirigida pelo redator-chefe Mário Rodrigues. Este chegou a acusar Epitácio Pessoa de ter sido subornado pela indústria açucareira – através de um colar dado a sua esposa – para que levantasse medidas restritivas que favorecessem a exportação de açúcar. Com isso, Rodrigues foi também condenado à prisão, em sentença de um ano. Pedro da Costa Rego, então senador por Alagoas, acabou assumindo o cargo de chefia de redação, já que a escolha mais óbvia, Leão Velloso Filho, havia falecido em 1923.

Após a interrupção em 31 de agosto de 1924, em 20 de maio de 1925 o periódico foi reaberto, sob a direção provisória do senador Moniz Sodré. Iniciado o governo de Washington Luís em 1926, o Correio da Manhã foi novamente o principal opositor no jornalismo – tendo, obviamente, feito campanha contra a Lei de Imprensa, que acabou sendo aprovada pelo Senado em 1927. Cerca de dois anos depois, Edmundo Bittencourt passou definitivamente a direção e a propriedade do jornal a Paulo Bittencourt, que assumiu a 17 de março de 1929 e imprimiu grande anglofilia à linha liberal da folha. Nesse mesmo ano, novas rotativas da marca Man, de Dusseldorf, foram instaladas nas oficinas do Correio da Manhã, que funcionava até então com uma impressora Scott incompleta. Em 1933 esse maquinário novo possibilitara algumas inovações editoriais, como a criação de manchetes e de seções infantis, femininas, de rádio e de agricultura, entre outras, tendo sido mantido na ativa até 1958, quando foi substituído por uma rotativa norte-americana Hoe.

Na campanha para a sucessão presidencial após o mandato de Washington Luís, o jornal dos Bittencourt, como não poderia deixar de ser, fez coro à Aliança Liberal, encampando a candidatura de Getúlio Vargas contra o situacionista Júlio Prestes. Em maio de 1930 confirmaria sua tendência criticando duramente o manifesto de Luís Carlos Prestes contra a Aliança. Com a vitória do candidato da República Velha em junho, as denúncias de fraude eleitoral e a irrupção da crise política, o jornal passou a noticiar os desdobramentos do movimento que gerou a Revolução de 1930, que a 24 de outubro depôs Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes. Nessa data o Correio da Manhã trazia em destaque a manchete “Triunfou a Revolução” em letras vermelhas, informando, em paralelo, que nos últimos cinco dias fora proibido de lançar qualquer notícia sobre a marcha empreendida por Vargas rumo ao Rio de Janeiro, por proibição governamental. Em editorial, condenava-se veementemente a censura durante o mandato de Washington Luís.

Com a eclosão do movimento articulado pela Aliança Liberal, o Correio da Manhã queria, basicamente, três coisas: a escolha democrática de um novo presidente sem imposições do chefe do Executivo em exercício – que se traduzia na realização de novas eleições sem a influência governamental –, a oficialização de senadores e deputados independentemente das ações do presidente da República e o respeito à autonomia dos estados da União. Na avaliação de Carlos Eduardo Leal,
Para o Correio da Manhã, a Revolução de 1930 teria duas causas básicas: por um lado, a política partidária impondo a hegemonia dos estados mais fortes e, por outro, a posição tomada anteriormente por Washington Luís em relação à valorização do café. Pode-se notar aqui a conjugação do programa tenentista, encampado pelo jornal, e do descontentamento do Partido Democrático de São Paulo, engrossado por dissidentes do Partido Republicano Paulista. Esse conjunto de fatores seria, no entanto, para a maneira de ver do jornal, consequência das transformações verificadas ao nível das ideias em todo o mundo após a Primeira Guerra Mundial. As novas ideias privilegiariam uma mudança no que se referia à “estrutura da velha sociedade capitalista e à crença na democracia liberal”, e afetariam “todas as classes mais ou menos cultas do país”. E os adeptos da revolução, em virtude de tais alterações, clamavam por “representação e justiça”. (p. 1.627)

Com o triunfo da revolução e a instauração do governo provisório, o Correio da Manhã apoiava Getúlio Vargas ocasionalmente. No entanto, já em 1931, quando o interventor paulista João Alberto Lins de Barros entrou em choque com outras lideranças políticas de São Paulo, o jornal se posicionou ao lado destas. Em janeiro do ano seguinte, a folha adotou discurso pró-constitucionalização, ao sabor da Revolução Constitucionalista que ocorreria poucos meses depois, em terreno paulista. Se mantendo então em oposição manifesta ao governo, quando da irrupção do conflito, entre maio e junho de 1932, o Correio da Manhã procurou manter-se neutro. Em setembro de 1933, um episódio menor gerou algum embaraço no Executivo: visando prejudicar a candidatura de Virgílio de Melo Franco ao governo de Minas Gerais, o jornal de Paulo Bittencourt acusou a família Melo Franco de ter se beneficiado da desapropriação de uma estrada de ferro quando o pai de Virgílio, Afrânio de Melo Franco, era ministro da Viação, em 1919. Durante o governo provisório Afrânio era ministro das Relações Exteriores, cargo do qual acabou se demitindo, acreditando que as denúncias foram publicadas sob a vista grossa do governo.

Já contando com M. Paulo Filho na direção, ao lado de Paulo Bittencourt, e com Costa Rego como redator-chefe e principal articulista, o Correio da Manhã comemorou o início dos trabalhos em torno da Assembleia Nacional Constituinte de 1934, registrando-a destacada e minuciosamente, com a transcrição de discursos quase na íntegra, ao lado de registros “fora do plenário”: comentários extraoficiais quanto às articulações político-partidárias em geral, naquele contexto. Contando com inúmeros correspondentes pelo Brasil, bem como com o serviço da agência de notícias Havas, o jornal publicava matérias dando conta da situação de diversos estados da União, ao passo que defendia o federalismo e criticava o planejamento econômico do governo, atacando, sobretudo, o Decreto do Reajustamento Econômico – promulgado para aliviar as dívidas da indústria cafeeira. Osvaldo Aranha, então ministro da Fazenda, era constantemente afrontado na coluna de Costa Rego, o que valeu censura oficial sobre os escritos do redator-chefe do Correio da Manhã. No entanto, não eram apenas os seus textos os vetados: muitos dos editoriais da folha também não passavam, especialmente aqueles mais agressivos contra o decreto, a reforma tarifária e a imigração de sírios e japoneses, indivíduos considerados indesejáveis pelo jornal. Apesar de tais rompantes xenófobos, o periódico não se identificou com o movimento integralista: quando não o ignorava por completo, limitava-se a noticiar seus distúrbios e a ironizá-lo. Nessa mesma época, quando esteve em discussão o anteprojeto da Lei de Segurança Nacional (entre janeiro e abril de 1935), o Correio da Manhã chegou a suspender sua circulação em sinal de protesto contra a mesma. No entanto, o antigovernismo da folha só veio a atingir seu ápice em 1937, quando seus gestores optaram por apoiar a candidatura do ministro José Américo de Almeida à presidência da República.

Cinco dias antes do golpe que daria início ao Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, o Correio da Manhã já previa a afronta à Constituição. Como não poderia deixar de ser, o jornal passou a ser rigorosa e minuciosamente censurado, passando a ter um censor instalado em sua redação, lendo todo o conteúdo que seguiria para publicação. Com as dificuldades de abordagem ao terreno da política nacional, assim como ocorria com o restante da imprensa censurada, o noticiário internacional do diário de Paulo Bittencourt se desenvolveu – ainda mais dada a eclosão da Segunda Guerra Mundial. No conflito, aliás, o Correio da Manhã teve postura oscilante. Em 1939, o jornal considerava que acordos comerciais com países europeus como a Alemanha não deveriam ser colocados em risco, pregando, portanto, a neutralidade brasileira. No ano seguinte a folha já não pensava assim, passando a refletir os interesses do governo em suas páginas, via censura.

Quando já posicionado do lado Aliado, o jornal teve que abordar a questão envolvendo o navio Siqueira Campos, detido por forças inglesas em 1940 transportando material bélico alemão para o Brasil. Góis Monteiro, general então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, lançou mão de violenta campanha contra os interesses ingleses. A investida transbordava virulência a tal ponto que Osvaldo Aranha teve que intervir. O ministro pediu a Lourival Fontes, diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que pedisse aos jornais a amenização da abordagem ao assunto. Em 19 de janeiro de 1941, enfim, o Correio da Manhã acabou publicando uma matéria paga da Comissão das Indústrias Britânicas que continha um comentário favorável à Inglaterra feito por Osvaldo Aranha em novembro de 1940. Góis Monteiro, com o aval de Eurico Gaspar Dutra, à época ministro da Guerra, decidiu suspender o periódico por tempo indefinido. Getúlio Vargas, no entanto, quando informado sobre as intenções do general, recomendou que nada se fizesse contra o jornal.

Nos últimos momentos da guerra, o Correio da Manhã contribuiu para o fim do Estado Novo ao publicar, em 22 de fevereiro de 1945, uma entrevista realizada pelo jornalista Carlos Lacerda a José Américo de Almeida, considerada ousadíssima para aquele momento político. Mesmo com o entrevistado criticando abertamente o regime – muito próximo do fascismo que ele mesmo combatia em solo europeu, como se sabe – e expondo a necessidade de eleições, o DIP não reagiu. Com a falta de censura, a entrevista, hoje considerada referencial tanto em ousadia quanto na exposição das posições liberais do Correio da Manhã, suscitou outras manifestações de descontentamento da oposição em outros órgãos impressos.

Politicamente coerente dentro de sua marca opositora, o jornal de Paulo Bittencourt decidiu-se pelo apoio ao brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional (UDN), à presidência da República. Além de ter sido amigo de infância do candidato, o dono e principal diretor da folha teria sido um dos primeiros filiados ao partido que o lançava – no entanto, por divergências com correligionários, sua adesão oficial ao udenismo não demorou a esfriar. Gomes continuou sendo louvado nas páginas do Correio da Manhã mesmo com a vitória de Dutra, que do jornal recebeu inicialmente uma atitude de expectativa – apesar dos corrosivos artigos de Carlos Lacerda, mais explicitamente contra o presidente. Temerosa quanto à “epidemia comunista” e ao movimento pró-Vargas conhecido como “queremismo”, a folha ajudou a repercutir os “comandos parlamentares” promovidos por Café Filho – inspeções feitas de surpresa por deputados a repartições públicas, com o fim de confrontar verbas destinadas pelo orçamento, serviços prestados e informações fornecidas pelos encarregados pela aplicação dos recursos –, muito pelo trabalho do repórter Heráclio Sales.

Com o fim do mandato de Dutra, Eduardo Gomes foi novamente apoiado pelo Correio da Manhã para a presidência. Nessa ocasião, pela primeira vez um candidato foi aplaudido pelo jornal incondicionalmente, apontado como a solução para todos os males brasileiros. Com a vitória de Getúlio Vargas, a folha chegou a encampar a contestação udenista sobre a maioria absoluta, que procurava invalidar o resultado oficial, mas em seguida defendeu a posse do presidente eleito – sem deixar de fazer oposição a ele, naturalmente.

A influência do Correio da Manhã durante o último mandato de Vargas, como órgão opositor, era invejável, chegando a pesar nas decisões políticas. Conforme sua tradição liberal, o periódico fez grande oposição ao monopólio estatal do petróleo, mas, assim que a Petrobras foi criada, não a rejeitou, optando por revelar e repudiar o uso da empresa por parte de políticos com fins eleitoreiros. Apesar de ter defendido a exploração do petróleo brasileiro por empresas dos Estados Unidos, quando da visita de Milton Eisenhower, irmão do presidente americano, ao Brasil, em 1952, o jornal aproveitou a ocasião para denunciar o não-cumprimento do governo daquele país com promessas fiscais firmadas pelo presidente Harry Truman. No ano seguinte, o Correio da Manhã ocupou-se prioritariamente de questões econômicas, sendo, em outubro de 1953, grande opositor do chamado “Plano Aranha”, programa de estabilização proposto por Osvaldo Aranha em sua segunda passagem pelo Ministério da Fazenda, que se baseava em restrições ao crédito e na implementação de um novo sistema de controle cambial. Em fevereiro de 1954, o jornal repudiou o aumento do salário mínimo em 100% (que acabou sendo efetivado em maio do mesmo ano), apoiando o chamado “Manifesto dos coronéis”. Em paralelo, fazia violenta campanha contra a Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil (conhecida como Cexim).

Em reflexo às contrariedades do Correio da Manhã com o governo, o diário de Paulo Bittencourt deu total cobertura ao atentado à bala que feriu o líder oposicionista Carlos Lacerda e matou o major-aviador Rubens Vaz, instaurando o caos no ambiente político brasileiro. Após endossar o inquérito instaurado pela Aeronáutica para elucidar a responsabilidade pelo crime da rua Tonelero, o jornal, assim como a oposição, culpou o governo. O suicídio de Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954, surpreendente desfecho da crise, fez com que a folha baixasse o tom em suas críticas, preferindo seguir uma linha que explorava mais as características trágicas do evento – cabe lembrar que, à época, populares solidários ao presidente morto chegaram a reagir violentamente contra outros periódicos de oposição ao governo.

Iniciado o mandato de Café Filho, o Correio da Manhã aplaudiu a nomeação de Eugênio Gudin para o Ministério da Fazenda, algo que já vinha recomendando. Independentemente de suas intenções, o jornal teve, logo adiante, um pedido de empréstimo junto ao Banco do Brasil negado pelo próprio Gudin. Nesse período, Eduardo Gomes, valendo-se de seu prestígio na folha dirigida pelo amigo, tentou dissuadir Paulo Bittencourt a reforçar o caráter udenista do Correio da Manhã ao propor o apoio a Juarez Távora para as eleições de 1955. Bittencourt, no entanto, não esboçara preferência a nenhum dos candidatos apresentados, rejeitando, no caso, além de Távora, Ademar de Barros, Juscelino Kubitschek e Plínio Salgado. Ainda assim, seu jornal acabou apoiando JK, mas isso se restringia aos artigos assinados por Álvaro Lins e Edmundo Muniz – o primeiro louvava Kubitschek, enquanto o segundo atacava Juarez Távora impiedosamente. Carlos Eduardo Leal explica:
Para o jornalista Luís Alberto Bahia, a posição do Correio da Manhã diante das eleições de 1955 deve ser explicada pela fase de transição que a própria estrutura do jornal estaria atravessando naquele momento, passando de uma empresa artesanal de propriedade familiar a uma grande empresa moderna. Assim, verificava-se um conflito entre os pressupostos liberais da primeira fase, em que o jornal defendia a tese da democracia do mercado, e os novos princípios que acabavam de aparecer no cenário econômico brasileiro, como, por exemplo, o combate ao ingresso do capital estrangeiro. (p. 1.630)

Essa postura de pretensa neutralidade, que aparentemente motivou o rompimento de Bittencourt com Eduardo Gomes, embora lembre o conceito de isenção pregado pela imprensa atual, bateu de frente com o clássico legalismo do periódico em novembro de 1955, no episódio conhecido como o “contragolpe preventivo” do Marechal Lott. Na ocasião, Henrique Teixeira Lott havia afastado Carlos Luz da presidência interina da República, frustrando uma tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek, eleito. O Correio da Manhã, apesar de não ser exatamente juscelinista, se manteve ao lado da legalidade, repudiando a tentativa de golpe.

Durante o mandato de JK, antevendo o esvaziamento político da cidade onde tinha sede, o periódico fincou posição contrária à construção de Brasília, chegando a ironizar o projeto. A tradicional preocupação do jornal com as finanças nacionais, ademais, o levavam a criticar a política econômica do novo governo. Em paralelo, a folha movia campanha a favor da consolidação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), denunciando, assim como já fizera com a Petrobras, a tentativa de determinados políticos em usá-la com fins eleitorais. Em outro plano, apesar de sua convicção contra a reforma agrária, o Correio da Manhã publicou uma série de reportagens assinada por Antônio Calado sobre as Ligas Camponesas, ao fim de 1959. Ainda nesse ano o periódico passou a ter um segundo caderno em definitivo – pouco depois, em 1962, pôde imprimir edições a cores, como seus cadernos de quadrinhos destinados ao público infanto-juvenil. Isso se devia à atualização nas oficinas do jornal em 1959, com a troca da impressora Man pela da marca Hoe. A mudança, aliás, não foi fácil, tendo instaurado uma crise no ritmo de trabalho do Correio da Manhã; o problema de adaptação, calcula-se, diminuiu a qualidade do periódico a ponto de ajudar o desenvolvimento de folhas rivais.

Para as eleições de 1960, o Correio da Manhã buscou novamente neutralidade e independência frente a partidos e candidatos. Tendo Jânio Quadros vencido o pleito, a folha, durante o seu mandato, como era de se esperar, reclamou da condecoração dada pelo governo brasileiro a Ernesto “Che” Guevara e criticou de forma áspera a renúncia do presidente – na crise na qual o ambiente político então atolou, o jornal discursou contra tentativas de censura à imprensa, atendo-se, em especial, à apreensão de periódicos logo em seguida à confirmação do afastamento de Jânio. Embora repudiasse João Goulart por suas ligações com o passado varguista, o Correio da Manhã manteve sua postura legalista ao defender a legitimidade da posse do novo presidente, que lideranças militares e determinados setores civis da política nacional não queriam aceitar. Por isso mesmo, aliás, acabou tendo uma edição apreendida no estado da Guanabara, governado então por um antigo e renomado jornalista da casa: Carlos Lacerda.

Foi durante o curto período em que João Goulart esteve à frente do Executivo que o Correio da Manhã sofreu uma guinada conservadora em sua linha editorial. Por questão de princípios – seu comprometimento com o liberalismo econômico, principalmente, que alimentava seu grande medo do avanço comunista no Brasil –, o jornal pôs-se severamente contra o governo, por julgá-lo radical e por considerá-lo contra a Constituição e a ordem pública em questões pontuais, como, por exemplo, o suposto estímulo à quebra de hierarquia nas Forças Armadas. No plano estadual, a folha também ia contra o governo de Lacerda.

Em 2 de agosto de 1963, com o falecimento de Paulo Bittencourt, Niomar Moniz Sodré Bittencourt (sua segunda esposa e filha do senador Moniz Sodré) passou a ocupar o cargo de diretora-presidente do jornal. Isso não ocorreu sem uma disputa entre esta e Sybil Bittencourt, filha do primeiro casamento de Paulo, que acabou ficando com o imóvel onde o jornal estava instalado, em questão resolvida somente cerca de cinco anos depois. A morte do proprietário se deu em um momento peculiar: desde 16 de julho daquele ano uma grande reforma gráfica já estava em curso no jornal. O Correio da Manhã passava a ter menos blocos de texto, privilegiando os espaços em branco, sobretudo no segundo caderno, e fotografias, sendo estas com legendas mais instigantes e criativas. Os efeitos de tal reforma, apesar de terem composto uma nova tendência na imprensa carioca, no entanto, não seriam amplamente desfrutados pelos seus principais responsáveis: pouco depois de iniciada essa nova fase, o periódico entraria em declínio, ao passar a sofrer com a interferência do poder militar, que ajudara a ascender.

1964 começou com o jornal batendo forte na situação: bom exemplo é o pouco lembrado, mas não pouco importante, editorial “Terra de ninguém”, de 16 de janeiro, onde ataques contundentes foram desferidos tanto ao governo federal quanto ao estadual. Em seguida, em episódio de vulto na história da imprensa brasileira, o Correio da Manhã repudiou veementemente os decretos anunciados no comício promovido pelo presidente na Central do Brasil, a 13 de março de 1964 – indo contra a opinião do matutino, estes determinavam a estatização de refinarias de petróleo particulares e a desapropriação de terras próximas a açudes e rodovias federais para cedê-las a lavradores. Ficaram famosos, pelo estilo e contundência, sendo replicados em inúmeros periódicos de oposição a Jango, dois editoriais do Correio da Manhã que denunciavam desmandos do governo e clamavam pela necessidade de sua derrubada. Publicados exatamente enquanto o golpe civil-militar ocorria, “Basta!”, de 31 de março de 1964, e “Fora!”, de 1º de abril, são atribuídos a Edmundo Muniz, que alega que ambos foram escritos coletivamente, afirmando ainda que o jornal não tinha ciência da movimentação militar para destituir o presidente.

O que o Correio da Manhã e outros jornais que apoiaram o golpe esperavam era que o novo presidente da República imposto pelos conspiradores, o marechal Humberto Castello Branco, convocasse eleições e entregasse o governo a uma liderança civil. Mas os militares, uma vez instalados, preferiram manter-se no poder. A folha de Niomar Sodré findou sua breve lua-de-mel com o novo regime e começou a denunciar suas arbitrariedades. Nesse sentido, assumiu grande importância o editorial “Terrorismo, não!”, publicado com todo o destaque pelo jornal já a 3 de abril de 1964, elaborado por Edmundo Muniz e transcrito por outros importantes periódicos nacionais, como a Última Hora, recém-empastelada por forças ligadas aos militares. Poucos dias depois, a imposição do Ato Institucional nº 1 ligou o alerta do jornal para uma ditadura militar, desencadeando denúncias a torturas e abusos de poder a mando do Executivo. Nenhum outro jornal da imprensa diária do Rio de Janeiro deu tanto espaço às cassações de mandatos e direitos de certos políticos, bem como às manifestações de rua contra os governos de Castello Branco e Costa e Silva, quando policiais e estudantes se confrontavam violentamente pelas ruas das principais cidades do país.

As dificuldades começaram para o Correio da Manhã quando agências internacionais de publicidade passaram a boicotar o jornal. O periódico não podia simplesmente abrir mão de seus anunciantes. Um interventor, representando essas agências, passou então a agir dentro da redação e uma espécie de censura se instaurou. Nomes de destaque no jornal passaram a ser limados: Carlos Heitor Cony foi demitido, Otto Maria Carpeaux teve sua seção extinta e seu nome era proibido de aparecer na assinatura de qualquer texto. Em paralelo, a oposição do Correio da Manhã a Carlos Lacerda não havia abrandado: logo ao início da ditadura o governador ameaçou intervir na folha, gerando indignação na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa da Guanabara, assim como no Clube de Engenharia de Brasília e entre sessenta deputados estaduais de São Paulo, que enviaram mensagens de solidariedade a Niomar Sodré, aliás.

Denunciando a falta de democracia, a necessidade de reformas de base, a falta de maiores cuidados no desenvolvimento da indústria, a inexistência de garantias trabalhistas e de qualidade de vida, a infiltração de grupos estrangeiros na imprensa brasileira com a vista grossa do governo (em janeiro de 1966), entre outras arbitrariedades, o Correio da Manhã acabou sofrendo um atentado: uma bomba foi jogada em sua sede em 7 de dezembro de 1968. Como se não bastasse, dias depois as posições díspares tanto do regime quanto do jornal passariam a se radicalizar, dada a edição do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro, que cassou os direitos fundamentais de cidadania e submergiu o país em uma ditadura pior ainda. Com base no AI-5, em janeiro de 1969, Niomar Sodré e os jornalistas Osvaldo Peralva e Nélson Batista, membros da direção do Correio da Manhã, foram presos. Na ocasião, a sede da folha foi cercada por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e a censura prévia passou a agir em sua redação. A Sociedade Interamericana de Imprensa chegou a ser acionada por gráficos, redatores e membros da diretoria do jornal. Nesse período, a 1ª Auditoria da Marinha ordenara a suspensão na circulação da folha por cinco dias. No dia 22 de janeiro, Niomar e Peralva tiveram prisão preventiva requisitada pelo período de 30 dias – em março, a diretora-presidente do Correio da Manhã seguida presa em domicílio.

No pouco tempo que lhe restou de vida a partir daí, o Correio da Manhã continuou fiel a seus princípios apenas enquanto Niomar Sodré se manteve em direção. Denunciava, na medida do possível, apesar da censura, prisões arbitrárias, torturas e outras violências praticadas pelo regime. Após um obscuro período marcado por boicotes de anunciantes, temerosos de retaliações do governo, o atentado à bomba e uma série de perseguições, prisões e cassações dos direitos políticos contra jornalistas e administradores que lá trabalhavam, o jornal ia sentindo os efeitos da falta de verba que chegava via publicidade e da diminuição de seus leitores. E enfim, acabou por ser arrendado, em 1969, pelo prazo de cinco anos, à Editora Comunicações Sistemas Gráficos, liderada por Maurício Nunes de Alencar e ligada à companhia Metropolitana, empreiteira nacional de grande porte.

Nesta fase, que seria sua última, o Correio da Manhã foi totalmente outro. Primeiramente, passou a ser publicado com novas feições gráficas, mais dinâmicas, e com o dobro de páginas (20), com cada edição vindo com um tabloide encartado. Mas, em termos de conteúdo político, o jornal se mostraria um dócil aliado do governo. Contando com a direção de Nunes de Alencar, Frederico Gomes da Silva, Paulo Magalhães e Franklin de Oliveira (este sendo o diretor de redação), o jornal mantinha a verve voltada a questões políticas e econômicas, mas se afastava de seu tradicional liberalismo legalista, onde sua devoção à Constituição pedia uma postura crítica. Isso, no entanto, não retraiu a crise econômica do periódico. Em janeiro de 1973, mês em que para se manter acabou sacrificando seu número de páginas, que ia caindo definitivamente, a Tribuna da Imprensa chegou a noticiar a possível falência do jornal citando uma outra crise, a que assolava a empreiteira Metropolitana. O antigo órgão de Carlos Lacerda, em verdade, através do jornalista Sebastião Néri, iniciava uma campanha contra Maurício Alencar e seus irmãos, em defesa de Niomar Sodré, que acabou sendo prejudicada no acordo de arrendamento. Os novos diretores haviam se comprometido a pagar o déficit do periódico (de então quatro milhões e quinhentos mil cruzeiros) e uma mensalidade de 50 mil cruzeiros à antiga proprietária, mas apenas parte do acordo foi cumprida. Somava-se a isso o drama pessoal de Niomar, vítima de uma série de ataques atribuídos a agentes da repressão política ou a simpatizantes da ditadura, que incluía um incêndio em sua coleção particular de documentos e livros e uma tentativa de assassinato.

Nos seus últimos momentos, sob as acusações de Néri de que seria apenas um objeto na jogada política de Maurício Alencar e da Metropolitana frente à ditadura, o Correio da Manhã esteve sob litígio. A 3 de agosto de 1973 a proprietária foi à justiça contra os arrendatários, gerando um pronunciamento do deputado Nina Ribeiro em defesa destes: para ele, Niomar Sodré esperava uma contrapartida dos militares pelo apoio ao golpe; não sendo esta verificada, direcionou a folha à oposição. Cerca de um ano antes do fim do arrendamento, Maurício Alencar supostamente tentara devolver o jornal à dona, que teria se recusado a reassumir. A crise, então, perdurava e o Correio da Manhã era mantido numa espécie de sobrevida. O jornal parecia ter voltado ao seu estado inicial de penúria, saindo com edições de apenas oito páginas, em tiragens que variavam em torno de três mil exemplares por dia. Em 8 de julho de 1974, enfim, o antigo periódico não pôde mais ser publicado, sendo a edição do dia anterior a derradeira. O Correio da Manhã foi extinto devendo salários atrasados a 182 funcionários.

De acordo com o artigo 93 da Lei nº 5.772, de 21 de dezembro de 1971, o nome ou marca de um empreendimento caduca quando não usado pelos responsáveis em direito durante o intervalo de dois anos. Apenas para evitar a perda do título, uma edição extraordinária do Correio da Manhã foi rodada cerca de dois anos após seu fechamento. Em 13 de abril de 1977, todavia, o título acabou sendo arrematado em leilão por um grupo representado por Wilson Nogueira Rodrigues, por 480 mil cruzeiros.

Em sua trajetória, o Correio da Manhã contou com contribuições de personalidades brasileiras do campo político, cultural e jornalístico, como Rui Barbosa, José Veríssimo, Coelho Neto, Arthur Azevedo, Afonso Celso, Medeiros e Albuquerque, Evaristo de Morais, Carlos de Laet, Alberto de Oliveira, Antonio Salles, Leão Velloso Filho (que usava o pseudônimo de Gil Vidal), Álvaro Lins, Graciliano Ramos, Rodolfo Mota Lima, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Lacerda, Aurélio Buarque de Holanda, Franklin de Oliveira, Antônio Callado, Rubem Braga, Antonio Moniz Vianna, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Carlos Heitor Cony, Otto Maria Carpeaux, Luis Alberto Bahia, Nelson Rodrigues, Osvaldo Peralva, Fernando Pedreira, Márcio Moreira Alves, Hermano Alves, Paulo Francis, Newton Carlos, Paulo de Castro, Oliveira Bastos, José Lino Grünewald, Ferreira Gullar, entre outros. Muitos destes últimos eram colaboradores frequentes do denso “4º Caderno”, suplemento dominical do final dos anos 1960, espaço onde se discutiam política nacional e internacional, literatura, artes plásticas e filosofia.

Por fim, cabe ressaltar que o Correio da Manhã ainda contou com suplementos de destaque, dois em especial. O Almanak do Correio da Manhã foi publicado uma vez por ano, inicialmente entre 1912 e 1916, com edições que circulavam com quase 300 páginas. Relançado em 1939, nesta segunda fase circulou ainda anualmente, em edições que tiveram entre 500 e menos de 200 páginas, até ser extinto após 1961. Fora o almanaque, entre as décadas de 1950 e 1960 o Correio da Manhã trazia a revista ilustrada Singra encartada semanalmente em suas edições. Produto da Editora Singra Ltda., presidida por Paulo Bittencourt, que imprimia o caderno ilustrado do jornal, a revista era dirigida por Cândido Mendes, um antigo colaborador da folha, com Luiz de Medeiros como secretário e Gilberto Flores como gerente (depois substituído por Eugênio de Mattos). Lançada em 25 de abril de 1952, Singra saiu no diário de maio de 1952 a agosto de 1962, mas não era publicada ali exclusivamente. Segundo nota na edição encartada no número de 31 de dezembro de 1954 do jornal, o suplemento circulava, na ocasião, em “62 jornais em igual número de cidades, (...) vinculado às tiragens desses órgãos de imprensa”. Na sua edição da semana de 25 de abril a 1º de maio de 1958, a revista falava que já era encartada em 87 jornais brasileiros, circulando em todos os estados. Por fim, a edição do Correio da Manhã de 1º de janeiro de 1963, momento em que Singra não vinha mais encartada junto de suas edições, noticiava a morte de Cândido Mendes afirmando que o suplemento ilustrado era publicado já em 94 periódicos brasileiros – sabe-se, contudo, que esse periódico não continuou por muito tempo após 1964.

Fontes:

- Acervo: edições do nº 1, ano 1, de 15 de junho de 1901, ao nº 24.881, ano 73, de 7 de junho de 1974.

- ANDRADE, Jéferson Ribeiro de. Um jornal assassinado: a última batalha do Correio da Manhã. José Olympio: Rio de Janeiro, RJ, 1991.

- LEAL, Carlos Eduardo. Correio da Manhã. In: ABREU, Alzira Alves et al. (Coord.) Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, vol. 2. Rio de Janeiro: Editora FGV; CPDOC, 2001.

- Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro: Secretaria Especial de Comunicação Social. Correio da Manhã – Compromisso com a verdade. Cadernos da Comunicação. Série Memória, vol. 1: Rio de Janeiro, 2005.

- SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.