BNDigital

Correio Paulistano

18 Nov 2015

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags anticomunismo, Arte e cultura, Censura e repressão, Colunismo social, Comércio, Conservadorismo, Costumes tradicionais, Crítica política, Economia, Estado Novo, Imprensa oficial, José Bonifácio, Liberalismo, Partido Republicano Paulista (PRP), Questões trabalhistas, República Velha, Republicanismo, Revolução de 1930, São Paulo, Segunda Guerra Mundial, Segundo Reinado

Vindo a lume em 26 de junho de 1854, em São Paulo (SP), o Correio Paulistano foi inicialmente propriedade de Joaquim Roberto de Azevedo Marques, que o lançava diariamente através de sua Typographia Imparcial (não devendo, portanto, ser confundido com periódico homônimo lançado na mesma cidade em 1831). Tendo então Pedro Taques de Almeida Alvim como primeiro redator, o jornal iniciou sua trajetória politicamente situado na trincheira liberal, assim como o célebre O Ypiranga, para logo em seguida passar ao lado conservador e, depois, tornar-se novamente liberal. Tendo abrigado escritos de figuras como José Bonifácio e tendo sido, já durante a República, porta-voz do Partido Republicano Paulista (PRP), foi ainda um órgão de sustentação das oligarquias rurais e urbanas durante a República Velha e de oposição a Getúlio Vargas – além de repudiar, no contexto da Guerra Fria, aquilo que enxergava como “ameaça comunista”. Após diversas mudanças em sua propriedade e em seu formato, acabou sendo extinto em meados do segundo semestre de 1963, quando completava mais de cem anos de existência.

Nelson Werneck Sodré, na “História da imprensa no Brasil”, ao apresentar o Correio Paulistano, expõe que o jornal

Apareceu como diário, até julho de 1855, tornou-se bissemanal daí até 1858, quando retomou a saída diária. Em seu primeiro número (…) apresentava-se como imparcial e informava que as assinaturas anuais custariam 12$000 na capital e 16$000 no interior. Trazia informações do Senado e da Câmara e do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Transcrevia artigo de jornal francês sobre Maria Quitéria. Contava da existência de macróbio mineiro, nascido em 1747, com 14 filhos, 160 netos, 70 bisnetos e 5 tataranetos. Fornecia o preço dos gêneros de exportação em Santos. Noticiava a posse do dr. Antônio José Saraiva na presidência da província, a peça teatral em cartaz, falecimentos, bailes, fundação de irmandade. Desculpava-se por ter atrasado um pouco a saída desse número inicial, prometendo aparecer, daí por diante, ‘até o fechar da noite’, e manter e distribuir regularmente o jornal, com dois agentes. Só se tornou matutino mais tarde. Em 1863, passou a ser impresso pela primeira máquina de aço que a imprensa paulista conheceu, uma Alauzet; antes era impresso em prelo de pau, movido a mão; a partir de 1869, essa máquina foi movida a vapor. A tiragem era de 450 exemplares, até 1863; subiu a 700, nesse ano; a 850, em 1869. Apesar de suas inovações, amparadas certamente no bafejo oficial, tinha também tropeços: certa vez teve de interromper a circulação por uma semana, em consequência da falta de papel. (p. 188)

O “bafejo oficial” que fomentou o jornal, a que Werneck Sodré se refere, surgiu em meio a um contexto, em parte, contraditório. Quando lançado, nos primeiros anos do Segundo Reinado, o Correio Paulistano aos poucos conquistou certo prestígio, não só pelo seu caráter liberal, mas por sua orientação independente – ironicamente, seu redator, Pedro Taques, quando jovem, havia redigido o Clarim Saquarema, órgão conservador que fazia grande oposição a’O Meteoro, liberal. Entretanto, por uma série de circunstâncias, entre elas dificuldades financeiras, o Correio Paulistano acabou cedendo a pressões de figuras locais filiadas ao Partido Conservador, que fizeram com que o jornal aderisse ao mesmo publicamente. Era esse grupo, afinal, que estava em poder da província de São Paulo, cooptando o jornal para que se tornasse de apoio ao governo do conselheiro Antônio José Saraiva, publicando matéria oficial – inclusive debates na Assembleia local, a partir de 1855. A contradição em tal mudança era atenuada pelo contexto político vivido então pela monarquia: à época vigorava uma política nacional de entendimento e equilíbrio de disputas entre os partidos Liberal e Conservador, colocada em prática a partir da instituição do Ministério da Conciliação em 1846 – tendo durado por dez anos, o gabinete teve seu auge em 1853, justamente um ano antes da fundação do jornal de Azevedo Marques. Mesmo assim, apesar da aparente harmonia entre as legendas e de a estratégia ter aliviado as contas do diário, boa parte do reconhecimento que o Correio Paulistano angariara junto ao público se perdeu.

Mesmo após o fim do Ministério da Conciliação, em 1856, a fase conservadora do Correio Paulistano se manteve por anos: somente quando do rompimento definitivo entre liberais e conservadores em 1869 o jornal, enfim, por influência de Américo de Campos, voltou sua linha para o apoio aos primeiros. Logo adiante, durante a chamada Convenção de Itu, em 1873, foi fundado o Partido Republicano Paulista, ao qual o diário dera total apoio – já que a proposta para a mudança no regime político havia sido apontada pela ala radical liberal da qual passara a pertencer desde o fim da conciliação. Já convertido em órgão de divulgação do PRP, o Correio Paulistano era então um dos dois diários a circular pela capital – o outro era o Diario de S. Paulo, fundado justamente por Pedro Taques, após sua saída do primeiro.

Sob essa feição perrepista, em julho do ano seguinte, o jornal foi comprado por Carlos Leôncio da Silva Carvalho. Iniciava-se então um período em que o periódico pregaria insistentemente pela reforma política nacional. Com a ascensão do Partido Liberal ao Conselho de Ministros no início de 1878, Leôncio Carvalho foi nomeado ministro dos Negócios do Império do Brasil – em paralelo, nesse mesmo ano o Diario de S. Paulo deixaria de ser publicado, fazendo com que o seu material de impressão, que permitia a tiragem de suas edições em grande formato, passasse ao Correio Paulistano.

Antônio da Silva Prado, que já havia comandado o Diario de S. Paulo, assumiu a direção da folha perrepista em 1882, imprimindo grande caráter abolicionista na mesma por volta de 1887, antes de guinar sua linha editorial para a defesa da instituição do sistema republicano no Brasil. Essa postura, na verdade, não deixou de estar cercada de novas contradições: segundo Nelson Werneck Sodré, Antônio Prado, após fazer do Correio Paulistano uma folha a favor da abolição da escravatura, passou a apoiar políticos da ala conservadora para “em junho de 1889, com os liberais no poder, exercer severa oposição, mas na linha monarquista, e, com os acontecimentos de 15 de novembro na Corte, ser o primeiro órgão a considerar irreversível a República” (p. 225). Todavia, com o advento da República, quando em seguida empreendeu campanha pela constitucionalização, muito pela cartilha política do PRP qualquer esboço de caráter progressista no jornal foi decaindo, tendo o Correio Paulistano, mantido grande linha conservadora, ou seja, defensora do sistema oligárquico.  Com essa linha o jornal viveu bons momentos, em consequência do prestígio do qual gozava o PRP em São Paulo – no período conhecido como República Velha, ou “República do café com leite”, onde a presidência nacional se alternava entre governantes paulistas e mineiros, o partido emplacava mandatos sucessivos de seus alguns de seus diretores: Manuel Ferraz de Campos Sales, Prudente de Morais e Rodrigues Alves, no caso. O banqueiro e cafeicultor Antônio Prado, que pouco antes da proclamação da República já havia sido ministro, à época, também fazia parte desse mesmo grupo, na diretoria do PRP; entre 1899 e 1911, época em que esteve à frente do Correio Paulistano, foi ainda prefeito da cidade de São Paulo. Quando assumira o jornal, sua tiragem estava estacionada nos 850 exemplares diários – número que saltou para 1.800 pouco depois e que chegou a 8.500 por volta de 1904, em período em que, já sob a direção de Herculano de Freitas, o periódico passou a ser o primeiro paulista impresso por rotativa.

Amélia Cohn, em verbete sobre o diário no “Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930”, destaca o governismo do Correio Paulistano, que se manteve ao longo das três primeiras décadas do século XX. Antecipando a candidatura do paulista Júlio Prestes nas eleições de 1930, o editorial de 1º de janeiro desse ano é citado pela autora, fazendo um balanço positivo de 1928, destacando um clima de “ordem, tranquilidade e trabalho”, com estabilidade cambial e aumento no volume de negócios e de intercâmbio comercial, gerando ganhos tanto para a lavoura quanto para a indústria em âmbito local e nacional. O texto dizia que “O ano que ontem decorreu” traduzia-se “num ambiente de perfeita ordem, assinalando uma das nossas fases de maior e mais intensa prosperidade”. A população brasileira devia isso à “têmpera”, ao “civismo” e à “honestidade inquebrantáveis do sr. Washington Luís”. Em paralelo, “Governa São Paulo um homem de patriotismo, de esclarecida visão e da autoridade moral do sr. Júlio Prestes” (p. 1.635).

No suporte à situação, o principal alvo dos ataques do Correio Paulistano era o Partido Democrático (PD) de São Paulo, que era defendido, aliás, pelo seu próprio órgão, o Diário Nacional. Ao Partido Libertador (PL) gaúcho, liderado por Joaquim Francisco de Assis Brasil, o tratamento dispensado era o mesmo. Sem dar espaço aos candidatos da Aliança Liberal na ocasião do pleito de 1930, a candidatura de Júlio Prestes mereceu amplo destaque do Correio Paulistano, que só deixou de ocupar as primeiras páginas do periódico quando já eleito. A 5 de outubro daquele ano, no entanto, a folha veicularia pela primeira vez notícias referentes a boatos relativos a um movimento revolucionário que tentaria romper o estabelecimento da continuidade ao impedir a posse de Prestes, comentando, numa nota em sua terceira página: “Não queremos dar crédito a semelhantes notícias, mas, si o facto for verdadeiro, devemos, todos, ter a segurança de que as forças do Exército, da Armada e da polícia da maioria das unidades da Federação marcharão promptamente contra os agitadores”. Ganhando contornos cada vez mais chamativos, a partir desse momento o assunto foi abordado diariamente, na capa de cada edição, sempre sob o mesmo título: “Movimento contra o crédito e a honra do Brasil”. Assim, a publicação do jornal manteve-se até 24 de outubro de 1930, mesmo dia em que, apesar de o Correio Paulistano louvar “A mashorca levada de vencida pelas armas nacionaes triumphantes!”, os revolucionários Tasso Fragoso, Mena Barreto e Isaías de Noronha se encarregavam de depor Washington Luís.

Com a consumação da Revolução de 1930 e a instituição de uma junta governativa provisória encabeçada por Getúlio Vargas, o Correio Paulistano, então em posse de uma sociedade anônima, sendo dirigido por Abner Mourão e gerenciado por Edgard Nobre de Campos, foi desapropriado e deixou de circular temporariamente. Estima-se que a folha tenha voltado a circular somente em meados de 1934, com outro endereço e sem trazer o nome de seus responsáveis no expediente – mas ainda pertencendo a uma sociedade anônima. Tendo, portanto, perdido a ocasião de apoiar os paulistas insurretos de 1932, durante a Revolução Constitucionalista, abafada no mesmo ano pelo governo, ao jornal restava ser veiculado com o subtítulo “Orgam do Partido Republicano Paulista”, sem perder oportunidades de tachar Vargas de ditador e de rejeitar a interventoria paulista, em qualquer ocasião. Aos poucos, no entanto, pela repressão estatal, o diário foi silenciando sua linha opositora, sendo levado a abordar feitos do governo sob viés praticamente oficial e voltando sua atenção à política internacional, ou seja, aos contornos da Segunda Guerra Mundial.

Em seu retorno em 1934, o Correio Paulistano não conseguiu manter o mesmo sucesso dos anos anteriores. Depois da imposição do Estado Novo, através de golpe, em 1937, o jornal se destacava mais pelo seu anticomunismo, bem como pelo seu repúdio “a qualquer mudança na legislação com medidas inovadoras ou renovadoras”, segundo Amélia Cohn (p. 1.635). No entanto, a folha veio tanto a reconhecer as conquistas trabalhistas do período quanto a comemorar o processo de redemocratização, quando do fim da ditadura, já no pós-guerra.

Em novembro de 1945 João Sampaio assumiu a direção do Correio Paulistano, contando com Luís Antônio da Gama e Silva como redator-chefe, mas a linha política do periódico continuava basicamente a mesma: para as eleições de 1950 foram apoiadas as campanhas de Cristiano Machado, do Partido Social Democrático (PSD), e Francisco Prestes Maia, da União Democrática Nacional (UDN), respectivamente para os governos federal e estadual. O suicídio de Getúlio Vargas foi discretamente publicado pelo jornal, em 25 de agosto de 1954, reforçando, na notícia, o abatimento do presidente em face à crise política então instaurada.

O antigo subtítulo que ligava o Correio Paulistano ao PRP foi substituído em 1955 para “O jornal mais antigo de São Paulo”. A alteração justificava-se pela mudança no comando do periódico: naquele ano, João de Scantimburgo passou a figurar como diretor. O PRP estava então em baixa no cenário político, levando a folha a atuar sem a necessidade de sua influência. Embora os antigos adeptos da legenda tivessem optado pelo nome de Juarez Távora nas eleições de 1955, o jornal manteve-se neutro na disputa. Nesse ano, todavia, quando surgiram os primeiros sinais de que uma manobra da oposição militar tentaria impedir a posse de Juscelino Kubitschek de Oliveira, o jornal manteve-se ao lado da legalidade, defendendo o presidente eleito apesar de desaprovar seu vice, João Goulart.

A postura de neutralidade não se repetiria no pleito de 1960: na ocasião, um texto de João de Scantimburgo deixava claro que o jornal apoiaria a candidatura do marechal Henrique Teixeira Lott à presidência. Assim que Jânio Quadros confirmou sua eleição, no entanto, Scantimburgo se retirou do Correio Paulistano, deixando Péricles Eugênio da Silva Ramos nos cargos de diretor e redator-chefe. A mudança acarretou novo subtítulo à folha – “O bandeirante da imprensa paulista” –, mas, apesar da grandeza aí expressa, a administração do diário parecia enfrentar dificuldades. Em 1963, após deixar de circular por dois meses e retornar a lume defendendo Jango e criticando Carlos Lacerda em uma polêmica pontual, o Correio Paulistano deixou de ser publicado definitivamente.

Fontes:

– Acervo: edições do nº 1, ano 1, de 26 de junho de 1854, ao nº 1.115, ano 6, de 31 de dezembro de 1859; do nº 1.699, ano 9, de 1º de janeiro de 1862, ao nº 9.699, ano 35, de 30 de dezembro de 1888; do nº 10.009, ano 36, de 17 de janeiro de 1890, ao nº 24.002, de 24 de outubro de 1930; e do nº 24.007, ano 81, de 1º de julho de 1934, ao nº 26.630, ano 89, de 31 de dezembro de 1942.

– COHN, Amélia. Correio Paulistano. In: ABREU, Alzira Alves et al. (Coord.) Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, vol. 2. Rio de Janeiro: Editora FGV; CPDOC, 2001.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

– SOUSA, Rainer. O Ministério da Conciliação. Disponível em: http://www.brasilescola.com/historiab/o-ministerio-conciliacao.htm Acesso em: 4 ago. 2015.