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Critica

03 Jul 2017

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e marcado com as tags Aliança Liberal, Andrés Guevara, Arte e cultura, Censura e repressão, Esportes, Futebol, Júlio Prestes, Literatura, Mário Rodrigues, Noticiário policial, República Velha, Revolução de 1930, Sensacionalismo, Washington Luís

Critica foi um diário lançado no Rio de Janeiro (RJ) em 21 de novembro de 1928, por Mário Rodrigues, depois de sua experiência em A Manhã. Matutino de oito páginas, com informações de política na primeira e de polícia na última, circulava com o preço inicial de apenas 100 réis, um dos chamarizes do jornal, que logrou em sua busca por grandes vendagens entre as classes populares. Crítico, aguerrido e sensacionalista ao extremo, era um legítimo órgão de ataque às figuras públicas. Sua linguagem era acessível, mordaz, panfletária e demagógica, num misto entre o raivoso e o bem-humorado. Muito por esta postura, a folha acabou tendo um fim trágico, menos de dois anos depois do seu lançamento.

Mário Rodrigues havia lançado Critica apenas 49 dias depois de, endividado, perder o controle do jornal A Manhã. Conforme destaca Carlos Didier, em “Orestes Barbosa: repórter, cronista e poeta”,

Quando vende A Manhã, em outubro (de 1928), Mário Rodrigues já tem na cabeça outro jornal: Critica. Deixa ações e dívidas com o sócio e parte para a nova aventura. Um grupo fiel e reduzido, ao qual pertence Orestes Barbosa, acompanha o diretor. (…) O matutino estreia, em 21 de novembro de 1928, com o subtítulo: “Declaramos guerra de morte aos ladrões do povo”.

Na ocasião, Rodrigues havia levado a maior parte dos jornalistas e colaboradores de A Manhã para Critica, que, assim como o primeiro jornal, foi um grande sucesso entre o público leitor. Sua tiragem, que inicialmente era de 100 mil exemplares, poucos meses após o seu lançamento, foi certamente uma das mais altas do Rio de Janeiro. Em 1929, o próprio periódico dizia estar vendendo 130 mil exemplares, valendo-se do slogan de “O matutino de maior circulação no Brasil”, mas, provavelmente, esta marca de vendagem não correspondia com a realidade.

Segundo autores como Ruy Castro, Critica viria a superar A Manhã em sensacionalismo e virulência contra pessoas públicas, ou mesmo anônimos. Citado por Matías M. Molina, no texto “Campeão da virulência”, Castro lembra um episódio de campanha difamatória realizada pelo jornal por volta de março de 1929:

Até os antigos leitores devem ter ficado chocados quando Critica publicou uma fotografia do conde Francisco Matarazzo, em quatro colunas na primeira página, com a palavra “LADRÃO!” escrita na testa. Uma reportagem o acusava de irregularidades no comércio de café. O conde abriu uma queixa-crime e o jornal iniciou a publicação do folhetim “O Abutre”. Quando, uma semana depois, o processo foi retirado, Critica continuou com a série (…).

Certamente, a insatisfação de Matarazzo se deu não só pelo caso citado, mas por uma série de ataques do jornal – na edição de 7 de março de 1929, por exemplo, publicava-se em manchete: “Francisco Matarazzo, semeador macabro da fome, já não és apenas o cem vezes ladrão, mas, tambem, o cem mil vezes canalha!”. Outros empresários chegaram a ter o mesmo tratamento, como Eduardo Guinle, por exemplo, chamado de “batoteiro” na edição anterior à citada. O texto de Molina continua:

A Manhã, que tinha ultrapassado o Correio da Manhã, até então o mais combativo dos jornais, como modelo de destempero, agressividade e falta de autocontrole, foi amplamente superada em virulência pela Critica. Era ainda mais violenta e extremada. Um verdadeiro libelo diário. Na opinião de Herman Lima, era o “jornal mais agressivo talvez de todos os que já apareceram no Brasil, em todos os tempos”. Para Ruy Castro, A Manhã, comparada com Critica, parecia ter sido tão inofensiva quanto o Almanaque da Saúde da Mulher.

Politicamente, Critica foi um jornal não só agressivo, mas também contraditório. A rigor, o jornal foi viabilizado com a ajuda financeira do então vice-presidente da República do mandato de Washington Luís, o mineiro Fernando de Mello Viana. Aceitando esse financiamento, Mário Rodrigues se comprometia a apoiar o governo Washington Luís, usando sua famosa truculência (conhecida pelos anos em que dirigira A Manhã) contra Getúlio Vargas e a Aliança Liberal. Paradoxalmente, o próprio Mário Rodrigues estivera engajado no lançamento, um ano antes, da candidatura de Vargas, então ministro da Fazenda, à Presidência da República. Neste sentido, Critica parecia irônico ao anunciar, em sua primeira edição, que “A Revolução é inevitável. Ela corrigirá os erros e a mentalidade política que está dissolvendo o Brasil!”.

Apesar da ajuda de Mello Viana, em suas edições iniciais Critica enxovalhou a política oligárquica mineira e, independentemente das articulações do governismo para as eleições presidenciais de 1930, destacava, na capa de sua edição de 2 de dezembro de 1928: “O Sr. Julio Prestes, presidente das fraudes eleitoraes de S. Paulo, visitará o Estado do Rio – Irá elle ensinar aos morubixabas fluminenses a sua democracia de patas de Cavallo, chanfalhos e balas de fuzil mauser?”. Em contrapartida, ao longo de quase todo o ano de 1929, o jornal foi tomado por súbito e grande governismo, destacando sempre um perfil altamente favorável e elogioso a Júlio Prestes, em franca campanha política. Na mesma toada, no decorrer do ano, a Aliança Liberal entrava na mira do jornal, naquilo que Herman Lima definiu, segundo Matías Molina, como a “mais furiosa campanha de difamação pessoal em massa em que já se viu envolvido qualquer jornal no Brasil, ridicularizando sanhudamente (…) os homens da Aliança Liberal, tanta vez em charges verdadeiramente sangrentas”.

Nelson Werneck Sodré, em “História da imprensa no Brasil”, justifica a linguagem apelativa do jornal pelo fato de este apoiar o já caduca sistema político oligárquico da República Velha, “uma situação em agonia”, com possibilidades “extraordinariamente limitadas”. A folha foi, para o autor, o “canto de cisne” do regime (p. 424). Na historiografia, afinal, Critica é lembrado por isto e, em verdade, por seus célebres ataques a tudo e a todos, da situação à oposição, atingindo, inclusive, ex-presidentes e políticos em geral (sobretudo Epitácio Pessoa, Antônio Carlos e Arthur Bernardes, antigo inimigo de Mário Rodrigues). O grupo de Washington Luís, por ter pago o jornal, foi, apenas, tratado com um pouco mais de consideração – as charges que retratavam o presidente, por exemplo, eram jocosas, não arrasadoras.

Ainda no tocante à posição política que Critica ocupava, cabe ressaltar que seus “libelos virulentos” também atingiam a política do Estado do Rio de Janeiro. Em determinado momento, o chefe de polícia da capital, por insistentes implicâncias do jornal, levou Mário Rodrigues à prisão. Com isso e com suas anteriores passagens pela cadeia, o diretor de Critica passou a ostentar a alcunha de “campeão carioca de xadrez”.

No aspecto gráfico, Critica foi uma folha que deixou a sua marca na história do jornalismo brasileiro. Em suas charges, ilustrações e caricaturas, bem como em sua diagramação geral, organizada de forma a dar total destaque a fortes imagens e a grandes e ferozes manchetes, a folha de Mário Rodrigues era dotada de uma carga visual tão contundente quanto o conteúdo escrito. A comemorar o seu primeiro aniversário, em 21 de novembro de 1929, o jornal destacava o choque que seu padrão gráfico causou nos moldes do restante da imprensa, “antiquados e rotineiros”, ao lembrar o lançamento de sua primeira edição:

A folha, com suas páginas movimentadas, seus commentarios palpitantes, se afastava, e muito, da feição de todos os outros jornaes. Era o letreiro luminoso, alguma cousa de novo, de leve, de attrahente. (…) À tarde, ainda se lia e commentava o novo matutino. Os velhos profissionaes affeitos á rotina extranharam aquella variedade de titulos, os “grisés”. “Não é um jornal – diziam – é um carroussel”. É que tudo em Critica se movimentava, ocsasionando surprezas, fóra do usual. Mas o publico comprehendeu. E gostou. Não houve encalhe. E assim foi no dia seguinte. Do mesmo modo, depois. Critica nascera victoriosa.

Todo o destaque visual de Critica se deve ao papel do paraguaio Andrés Guevara, que já havia projetado a identidade visual do jornal argentino também de nome Critica, maior jornal popular de Buenos Aires, na época. Na repetição do padrão do periódico portenho, mesmo o logotipo da Critica argentina foi copiado ao homônimo carioca. Trazendo sua experiência para o Brasil, Guevara já havia introduzido algumas de suas criações no campo gráfico em A Manhã, mas foi na Critica brasileira que pôde exercê-las melhor. Segundo Matías Molina,

Graficamente, chamavam a atenção o tratamento dado às fotografias, que tinham expressão e movimento, os desenhos do próprio Guevara, um dos melhores ilustradores da história brasileira, e os do mexicano Enrique Figueroa. Diz Ruy Castro que os dois desenhistas revolucionaram em Critica toda a caricatura brasileira. Na verdade, Guevara já a tinha revolucionado em A Manhã. As manchetes da Critica, segundo Nelson Rodrigues, eram “um berro gráfico, um uivo impresso”. Se em A Manhã Guevara se tinha notabilizado pela agressividade de seus desenhos, na Critica ele aumentaria a dose, acompanhando a fúria dos editoriais de Mário Rodrigues. Como diz Herman Lima, Guevara “foi talvez o que mais virulentamente já exerceu no Brasil o direito de ferir os adversários, no uso do lápis, não como bisturi, mas contundente e mutilante, muita vez, como uma espada, a ponto de ficarem algumas de suas composições entre os espécimes mais cruéis do gênero”.

Ainda nos dizeres de Molina, citando Ruy Castro, a reportagem de Critica

(…) ultrapassava A Manhã em imaginação e iniciativa. A ilustração “reconstituía a cena do crime com um toque tão dramático, erótico e sensacionalista quanto o texto, que era de um mau gosto violento e propositado; (…) o desenho era de um acabamento e qualidade de primeira”, diz Ruy Castro. O ilustrador da página era Roberto Rodrigues, filho de Mário.

Conforme a citação acima destaca, apesar da atuação de Critica na área política, o jornal tinha também outra faceta: como todo bom diário popular sensacionalista, a folha de Mário Rodrigues explorou de forma dramática e truculenta o noticiário policial, que, em suas páginas, “disputava” a atenção do leitor com a parte política. Se nesta última adjetivos como “ladrão”, “presidente da fuzarca”, “macacada liberalesca”, “réprobo”, “urubu sanguinolento” e “hiena insaciável” eram tratamentos comuns a certas figuras, as matérias que narravam escandalosamente crimes e acidentes no Rio e no Brasil eram recheadas de tratamentos igualmente chulos.

Ainda quanto ao jornalismo policial de Critica, o jornal destacou-se por ter sido um dos primeiros periódicos brasileiros – senão o primeiro – a convidar o leitor à atividade da reportagem. Conforme Molina:

Para popularizar a reportagem e conquistar a colaboração da população, o jornal criou a “Caravana de Crítica”, um “grupo impávido de criaturas perspicazes e intemeratas” que acudia aos locais onde se registrava algum acontecimento que alimentasse a imaginação popular. Algo como: “Não respeitando a alcova conjugal, a adúltera foi surpreendida, em flagrante, nos braços do amásio.” Ou: “Quis livrar-se do espírito do mal e foi morto a soco e pauladas”. De grande repercussão foi a “escandalosa crônica” do padre Eugênio Hoetting, vigário de São João de Meriti, um “libidinoso sacerdote” de “alma satânica”, segundo o jornal. Os leitores eram transformados em repórteres. “Cada leitor – segundo Crítica – conhece um caso sensacional que desejaria ver publicado”. Como incentivo, oferecia todas as terças-feiras 100 mil réis para o melhor caso.

Apesar de Critica ser mais lembrado pela sua atuação na política e no jornalismo policial, cabe ressaltar que o diário também teve cobertura de assuntos culturais, como literatura e artes em geral, ao contrário de vários jornais populares. Neste campo, o periódico tinha uma equipe de colaboradores com alguns prestigiados nomes: Henrique Pongetti, Gondin da Fonseca, Bezerra de Freitas, Sady Garibaldi, Cândido de Castro, Brasil Gerson, Simões Coelho, Oscar Tenório, Raphael de Hollanda, Eduardo Tourinho, Matheus da Fontoura, Nicolas Olivari, João de Talma, entre outros. Critica foi também um dos primeiros jornais brasileiros a dar destaque à cobertura esportiva, com a importante atuação de Mário Rodrigues Filho neste sentido – este viria a comprar o Jornal dos Sports anos mais tarde, erguendo-o a novos patamares na imprensa esportiva muito pela experiência que adquirira em Critica.

O início do fim de Critica teve os requintes trágicos de sua própria e célebre página policial – ou de um texto de Nelson Rodrigues, certamente o filho mais conhecido de Mário Rodrigues. Os contornos excessivos que as reportagens de Critica davam ao cotidiano criminal carioca acabaram tendo consequências após o Natal de 1929, num episódio que se tornara célebre na história da imprensa brasileira. No dia 26 de dezembro daquele ano, o jornal noticiava: “Entra hoje em juízo nesta capital um rumoroso pedido de desquite!”. Ali, era narrado o escândalo envolvendo o médico João Thibau Jr. e sua mulher, Sylvia Seraphim, então conhecida colaboradora de vários periódicos cariocas. A separação de ambos deu-se, a rigor, por um caso que a mulher mantinha com outro médico, chamado Manuel Abreu. A capa do jornal daquele dia trazia não só os nomes de todos os envolvidos como as “técnicas de sedução” usadas por Abreu, além da rotineira reconstituição ilustrada por Roberto Rodrigues, por certo erótica para a época, retratando o amante com as mãos nas pernas da mulher. Sylvia havia tentado impedir a publicação do caso, no dia anterior, mas, como seus pedidos foram em vão, comprou uma pistola, voltou ao jornal e atirou no primeiro Rodrigues que viu. Pretendia matar Mário Rodrigues, mas, em sua ausência, alvejou seu filho ilustrador, Roberto, que só veio a morrer no dia 29. A tragédia pegou Critica em meio a uma campanha política contra “a horda sanguinária de Antonio Carlos”, em específico, o deputado Simão Lopes, vice-presidente da Aliança Liberal, então acusado do assassinato de outro deputado, Souza Filho.

A tragédia envolvendo Sylvia Seraphim e os Rodrigues tomou grandes proporções, envolvendo o restante da imprensa e abafando, em parte, o caso de Souza Filho. Critica, então, começou uma violenta campanha para difamar ainda mais Sylvia Seraphim (ao mesmo tempo em que seguia sua outra campanha difamatória, contra a Aliança Liberal). Calcando-se na beleza física da mulher e na exposição do “bom caráter” de Roberto, durante os 267 dias que antecederam o julgamento do caso o jornal publicava com frequência fotos da atiradora, “prohibitivamente linda e sorridente”. Os textos que acompanhavam essas fotos clamavam “Justiça! Justiça! Meretriz assassina!”, chamando-a de “esposa adúltera”, “mãe infame”, “cadela de rua”, entre outras coisas. Em paralelo, grande parte dos outros jornais, que por certo rivalizava com Critica, apoiou a defesa da honra de Sylvia Seraphim. Presa, esta alegou uma crise de apendicite e foi removida para um hospital, para uma extração de apêndice que acabou nunca acontecendo. Nas palavras de Matías Molina, de acordo com um repórter de Critica que se passou por doente para ser internado no mesmo hospital, “Sylvia se alimentava bem, passava o dia cantando e saía durante a noite”.

Com o “circo” em torno da grande polêmica, o julgamento, em agosto de 1930, foi realizado a portas abertas, com sessões transmitidas por rádio e por alto-falantes nas ruas. Sylvia acabou absolvida, numa decisão que boa parte dos jornais da capital e de São Paulo aplaudiu. Mário Rodrigues, no entanto, não chegou a viver para assistir à conclusão do processo: atordoado pela bala que deveria ter sido para ele, morreu dois meses e meio depois do filho. A 16 de março de 1930, Critica anunciava: “Adeus, Mário!”. Seu lugar no jornal foi assumido pelos seus filhos Milton e Mário Rodrigues Filho, que contavam com J. B. Guimarães como gerente.

Antevendo sua morte, Mário havia pedido à esposa que, depois de seu falecimento, vendesse Critica para Júlio Prestes, o candidato à Presidência que o jornal tanto defendia. Já em 1928 Prestes havia mostrado interesse na aquisição. No entanto, o plano não deu certo. Apesar de Prestes ter sido eleito em 1º de março de 1930, a Aliança Liberal acusou o candidato de fraude eleitoral, provocando a turbulência política necessária para a eclosão da Revolução de 1930.

Em 24 de outubro Washington Luís foi deposto e Getúlio Vargas tomou o poder. Critica, assim como o restante da imprensa governista, foi empastelada e destruída no mesmo dia. A maior parte dos jornais que apoiavam a eleição de Júlio Prestes conseguiu voltar a circular, menos o jornal dos filhos de Mário. Em 1935 a família Rodrigues entrou com um processo de indenização contra o governo, que ficou engavetado durante anos. Somente em março de 1955, após o Estado Novo, o retorno de Vargas à Presidência por vias democráticas e, por fim, a morte do “pai dos pobres”, os herdeiros de Mário Rodrigues ganharam o processo contra a União e receberam uma polpuda indenização de 136 milhões de cruzeiros.

Fontes:

– Acervo: edições do nº 4, ano 1, de 24 de novembro de 1928, ao nº 610, ano 2, de 24 de outubro de 1930.

– CASTRO, Ruy. O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

– DIDIER, Carlos. Orestes Barbosa: repórter, cronista e poeta. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

– MOLINA, Matías M. Campeão da virulência. Observatório da Imprensa, 4 out. 2011. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_campeao_da_virulencia Acesso em: 13 mai. 2013.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.