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Diário Nacional

17 ago 2015

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e marcado com as tags anticomunismo, Antifascismo, Coluna Prestes, Crítica política, Frente Única Paulista, Getúlio Vargas, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Partido Democrático de São Paulo, Paulistanismo, Revolução Constitucionalista de 1932, Revolução de 1930, São Paulo, Tenentismo, Washington Luís

Lançado por Paulo Nogueira Filho, José Adriano Marrey Júnior e Amadeu Amaral em São Paulo (SP), como órgão do Partido Democrático (PD) paulista, o Diário Nacional circulou de 14 de julho de 1927 a 30 de setembro de 1932. Dirigido por membros do partido, alternadamente, foi propriedade de uma sociedade anônima da qual faziam parte seus fundadores e nomes como Paulo Duarte, Antônio Carlos Couto de Barros, Joaquim Sampaio Vidal e Vicente Rao.

Citando Maria Lígia Prado, Cássia Chrispiniano Adduci, no artigo “O reforço da “mística paulista” nas páginas do Diário Nacional”, explana que, para o PD,
A constituição de um jornal "como órgão oficial da agremiação" foi considerada fundamental desde o início, tendo, assim, sido criado o Diário Nacional com o objetivo de atingir todo o interior do estado. Na avaliação de Maria Lígia Prado, o Diário Nacional, "na prática, procurou ser um jornal mais adequado às classes médias, mais simples, mais acessível aos paulistas de 'cultura mínima'". Essas afirmações são feitas em comparação ao jornal O Estado de São Paulo que, ainda segundo a autora, embora apoiasse o Partido Democrático nunca teria aceito "se transformar em órgão oficial do partido".

Assim, sem deixar de lado a exaltação da modernidade da metrópole industrial paulistana, o Diário Nacional se destacou por expor posições pontuais do partido: o repúdio ao sistema oligárquico na República Velha, a defesa do voto secreto, o suporte às propostas da Coluna Prestes, a legitimidade da Revolta Paulista de 1924 (a anistia aos revolucionários foi defendida na edição de 23 de novembro de 1927), a denúncia à ação de fascistas brasileiros e o aplauso às manifestações públicas em contrário a esse grupo, a alegação de fraudes nas eleições estaduais de 7 de dezembro de 1927, entre outras coisas. Naturalmente, o periódico fazia oposição frontal ao então presidente Washington Luís e à legenda das oligarquias em São Paulo, o Partido Republicano Paulista (PRP). E perfilava a imagem de candidatos do PD para processos eleitorais – como o pleito estadual supracitado.

Segundo Amélia Cohn e Sedi Hirano, em verbete sobre o jornal publicado no segundo volume do “Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930”, um fator em particular sobre o Diário Nacional merece atenção:
No decorrer do ano de 1928, teve grande presença nas páginas do jornal a figura de Luís Carlos Prestes. Segundo Nogueira Filho, o Diário Nacional foi o jornal que apresentou um dos mais detalhados mapas do trajeto da Coluna Prestes. Para os diretores do jornal, o objetivo de tais reportagens era divulgar o ideário de revolução democrático-libertadora, de seus líderes e feitos históricos. (p. 1.855)

No ano de 1929, momento em que as forças do jornal se concentravam na oposição à candidatura de Júlio Prestes à presidência da República, o Diário Nacional deu uma guinada em sua tiragem, que chegou a 35 mil exemplares por edição, consequência direta da troca da chefia de sua redação: assumiram, então, conjuntamente, Paulo Duarte e Amador Florence Sobrinho. Como a gerência passou a ser feita pelo poeta Sérgio Millet, tornaram-se mais frequentes, na folha, textos de Mário de Andrade e Manuel Bandeira.

Ao passo em que a boa fase em 1929 justificava uma ampliação nas suas instalações, a crise do café, sobretudo a partir de outubro, fragilizou economicamente o diário, que foi forçado a passar por uma reformulação interna. Assim, à época, em sua linha de combate às oligarquias dos partidos republicanos e de unificação das forças opositoras, o jornal alinhou-se a forças da Aliança Liberal que compartilhavam ideais tanto do PD quanto do Partido Libertador (PL), passando a ser financiado pelas mesmas. Nesses termos, se Prestes e Joaquim Francisco de Assis Brasil eram figuras promovidas pelo Diário Nacional, quando do lançamento do manifesto do líder tenentista onde o mesmo aderia publicamente ao comunismo, em maio de 1930, o periódico adotou linha totalmente contrária ao líder – a ponto de destacar, em sua edição de 18 de junho, uma resposta de Juarez Távora a Prestes.

Dentro de sua linha política, todavia, o Diário Nacional apoiou integralmente o movimento que culminara na Revolução de 1930. Sua edição de 5 de outubro daquele ano já anunciava o triunfo do grupo liderado por Getúlio Vargas. Amélia Cohn e Sedi Hirano expõem:
Mesmo na fase mais crítica da revolução, o jornal teve suspensa sua edição somente por poucos dias, e suas edições de novembro já deram grande espaço para os pronunciamentos dos líderes revolucionários vitoriosos. A adesão à Revolução de 1930 foi de tal monta que as próprias interventorias estaduais foram aceitas. A nomeação de João Alberto Lins de Barros para o cargo de interventor em São Paulo foi plenamente apoiada. Somente em abril de 1931, quando o PD rompeu com João Alberto, foi que o Diário Nacional passou a publicar matérias que qualificavam o interventor como "tão pouco adestrado no ofício de estadista", que favorecia elementos "de fora" em detrimento "dos filhos de São Paulo e de outros grandes vultos da terra" nos cargos públicos. O jornal chegou mesmo a acusar João Alberto de favorecer a expansão das ideias comunistas em São Paulo (edições dos dias 5 e 6 de abril de 1931). (p. 1.856)

Ao longo do segundo semestre de 1931, em face aos desdobramentos da sucessão de João Alberto na interventoria paulista, conforme ia vendo os candidatos do PD rejeitados um a um, o Diário Nacional foi articulando sua ruptura com o Governo Provisório, assim como ocorreria com o partido, o que veio a ocorrer, afinal, em 13 de janeiro de 1932. O jornal vinha apoiando o nome de Laudo Ferreira de Camargo para o governo de São Paulo e passou a enxergar o interventor João Rabelo negativamente. Isso, somado à indiferença dos mandatários aos seus pedidos pela autonomia política paulista desde dezembro de 1931, desencadeou a adesão da folha à campanha por um governo local e civil. Em paralelo, o Diário Nacional entrou a fundo na causa da reconstitucionalização do país e do restabelecimento do estado de direito. Fora do jornal, estas campanhas uniram o PD ao PRP na chamada Frente Única Paulista, aliança que veio a ser destacada no periódico, em 16 de fevereiro de 1932. Nesse sentido deu-se o fim do jornal: com a franca sua franca adesão à Revolta Constitucionalista, sufocada pelas forças de Vargas, o Diário Nacional acabou sendo publicado pela última vez em 30 de setembro daquele ano, com apenas uma folha, que noticiava uma proposta para o fim do conflito.

Fontes:

- ADDUCI, Cássia Chrispiniano. O reforço da “mística paulista” nas páginas do Diário Nacional. Lutas sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, número 7, 2001. Disponível em: http://www.pucsp.br/neils/downloads/v7_cassia.pdf. Acesso em: 14 nov. 2014.

- COHN, Amélia; HIRANO, Sedi. Diário Nacional. In: ABREU, Alzira Alves et al. (Coord.) Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. Rio de Janeiro: Editora FGV; CPDOC, 2001. Vol. II.

- Diário Nacional. In: Memória Paulista. Fundação do Desenvolvimento administrativo do Estado de São Paulo. Disponível em: http://memoria.fundap.sp.gov.br/memoriapaulista/publicacao/partido-democratico/diario-nacional. Acesso em: 14 nov. 2014.