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História da Matemática | Júlio César de Mello e Souza, o mago dos números

11 dez 2020

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Usando seu pseudônimo mais conhecido, Malba Tahan, o professor Júlio César de Mello e Souza (1895 – 1974), natural do Rio de Janeiro, foi um dos maiores divulgadores da matemática no Brasil. Soube arrebatar gerações de jovens leitores para a fantasia das histórias orientais, que ele adorava, graças a “O homem que calculava”, “Lendas do Céu e da Terra” e muitos outros. Na literatura pedagógica, matemática e imaginativa, deixou para sempre sua marca de gênio.

Embora tenha nascido no Rio, passou a maior parte da infância em Queluz, São Paulo. Foi lá, naquelas ruazinhas, que começou a sentir o encanto das paisagens orientais. Não as via, claro. Mas elas circulavam em sua imaginação ardente de menino, enquanto devorava, noite após noite, as histórias maravilhosas de Sheherazade. A paisagem e os costumes árabes de seus livros devem-se à fascinação que Júlio César sempre teve por As Mil e Uma Noites.

Em 1925, publicou seu primeiro livro, “Contos de Malba Tahan”. Realizou seu sonho: construir uma obra literária que tivesse no próprio nome uma lenda.

"Ali Yezzid Izz-Eddin Ibn-Salin Hank Malba Tahan, famoso escritor árabe, descendente de tradicional família muçulmana, nasceu a 6 de maio de 1885, na aldeia de Muzalit, nas proximidades da antiga cidade de Meca. Entre as suas obras mais notáveis citam-se: Robael-Khali, Al Samir, Maktub, O homem que calculava, Lendas do Deserto, Mártires da Armênia entre muitas outras."

É assim que começa a biografia de um árabe que nunca existiu. Júlio César, professor de matemática, nasceu aqui mesmo por estas fronteiras. Sempre acreditou em velhos ditados: Ninguém é profeta em sua própria terra. Adotou o pseudônimo de Malba Tahan, sempre para vencer a descrença com que os diretores e secretários de jornal recebiam a colaboração de um jovem escritor, e iniciava, assim, um tipo de literatura que viria torná-lo famoso.

Já na segunda edição de “Contos de Malba Tahan”, Júlio adota o mesmo procedimento, mantendo apenas o pseudônimo e acrescentando abaixo do título: "Traduzidos directamente do original árabe". Virando-se a página, vê-se a “Biographia de Malba Tahan” ao lado de uma ilustração que mostra um árabe, de turbante e longas barbas brancas, escrevendo.

Apelando tranquilamente para uma mistificação literária, achou que suas histórias venderiam muito mais se fossem escritas por um árabe genuíno, cheio de sabedoria e conhecedor dos mais exóticos mistérios do Oriente.

Desde garoto, Júlio César gostava de contar histórias. Estudou no Colégio Militar enquanto seu pai pôde pagar os estudos. Foi depois para o Pedro II onde acabou professor de matemática.

Ele deu vida a Malba Tahan para poder publicar incógnito diversos contos onde os problemas matemáticos, lógicos, filosóficos e até religiosos eram apresentados sob um aspecto lúdico, atrativo e compreensível. Segundo dizia, o segredo da matemática está na maneira de encará-la, tirando-lhe todo o caráter de tortura mental, articulando-a com a vida, interpretando-a como ela deve, em verdade, ser interpretada. Por isso mesmo, em seus livros, não concebia problemas-charadas, problemas sem sentido real, problemas trabalhosos. Muito ao contrário, julgava que as questões deveriam estar intimamente relacionadas com a vida que se vive todos os dias. Não se justifica o divórcio entre a ciência e a vida. Elas precisam andar irmanadas.

Quando isso se verifica, dizia, o interesse pela matemática aumenta e passa a constituir um agradável passatempo. Em “O homem que calculava” temos a maestria de um hábil jogador com a imaginação do leitor de modo a envolvê-lo na resolução de problemas matemáticos.  Esta obra, por sinal, deixou a todos nós maravilhados com sua argúcia e invejável talento de calculista.

Não por acaso, em sua homenagem, o dia de seu nascimento – 6 de maio – foi decretado como o Dia do matemático (ou Dia da matemática) pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
(Cf. https://www.bn.gov.br/acontece/noticias/2020/05/dia-matematica-homenagem-malba-tahan).

Suas obras, entretanto, não aproximavam os leitores apenas do mundo da matemática, mas também os introduzia no universo da moralidade. Além de aproximar a matemática do aluno, tratando-a de forma divertida, sua obra introduz, sistematicamente, valores morais e éticos que transcendem o tempo e o espaço. Daí sua perenidade.

Júlio Cesar de Mello e Souza faleceu em Recife no dia 18 de junho de 1974, vítima de um mal súbito, no Hotel Boa Viagem, onde estava hospedado com a esposa Nair de Mello e Souza, após ministrar aula a professores. (Cf. http://memoria.bn.br/docreader/153931_02/59466)

Em seu testamento, recusou as coroas, e aceitava as flores com uma condição: que fossem anônimas. "Nada de frases feitas com dedicatórias, legendas. Acho horrível esta literatura funerária, sem expressão. Depois que morrer, não quero saber mais de literatura".

Ele já havia deixado a seus filhos um testamento, com alguns pedidos e incumbia parentes e amigos do cumprimento de seus últimos desejos: "Tenho o pressentimento de que vou morrer de momento para o outro. Para o caso de minha morte (queira Deus que seja repentina), eis o pedido que faço à Nair, aos meus filhos, aos meus amigos, aos meus parentes e aos meus colegas: Desejo ser enterrado em caixão de terceira classe. Quero o enterro mais modesto que for possível." (Cf. http://memoria.bn.br/docreader/153931_02/59490)


Um pouco da vida de Malba Tahan

Um dos quarenta artigos do livro "Histórias e Fantasias da Matemática"

Malba Tahan, falando a Armando Pacheco, o repórter, em entrevista para Vamos Ler!