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História do Livro | A Imprensa e a Cartografia

22 ago 2020

Artigo arquivado em História do Livro
e marcado com as tags Blaeu, Cartografia, História do Livro, Hondius, Imprensa, Mercator, Waldseemüller

Tal como a Medicina, a Astronomia e as demais ciências, a Cartografia se beneficiou das possibilidades oferecidas pelas técnicas de impressão, que começou a utilizar nas últimas duas décadas do século XV. Em 1500 já havia cerca de 60.000 mapas impressos circulando na Europa. Os principais centros de produção eram cidades como Estrasburgo e Nuremberg, onde, em 1492, o astrônomo e explorador Martin Bechaim (1459 – 1507) fabricara o primeiro globo terrestre.
Segundo o especialista Jerry Brotton, os mapas renascentistas procuraram conciliar as informações trazidas pelas viagens de exploração com os modelos geográficos clássicos, tais como os de Ptolomeu e Estrabão, que até então orientavam os estudos nesse campo. Era com cautela que introduziam novidades: o cartógrafo alemão Martin Waldseemüller (Wolfenweiler, ca. 1470 – 1521), que, por volta de 1507, foi responsável pelo primeiro mapa a representar a América e chamá-la por esse nome, publicou junto um livro em que afirmava tratar-se, mais provavelmente, de uma ilha, não de um continente. Em obras posteriores, e mesmo em outras edições do mesmo mapa, não utilizou a denominação “América”, e sim “Terra Incognita”.
Veja na BN Digital o mapa de Waldseemüller “Orbis typus universalis iuseta hydrographorum traditionem”, de 1513.

http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart986543/cart986543.pdf
O mapa foi impresso por meio da técnica mais comum na época: a xilogravura. O original, desenhado à mão, era copiado de forma invertida num bloco de madeira (frequentemente em vários, depois emendados) e as áreas onde não entrariam texto nem imagem eram aplainadas. O bloco, então, recebia tinta e era levado à prensa.

Ao longo das décadas seguintes, a xilogravura foi substituída pela gravura feita a partir de chapas de cobre, material que podia ser reutilizado e que permitia maior uniformidade nos caracteres tipográficos. Gerard Mercator (Rupelmonde, Flandres, 1512 – 1594), conhecido por sua projeção cilíndrica do globo terrestre, aperfeiçoou as técnicas de gravação em cobre, levando a impressão cartográfica a um novo patamar. Após sua morte, o gravador Jodocus Hondius (Wakken, Bélgica, 1563 – 1612) adquiriu as matrizes, acrescentou 36 novas gravuras (40, segundo o pesquisador Dante Martins Teixeira) e republicou o Atlas de Mercator, que não tivera muito sucesso comercial, acrescentando seu próprio nome.

Veja na BN Digital o mapa “America Meridionalis”, gravado a partir de matriz de cobre e incluído no Atlas Mercator-Hondius em 1606.
http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart354236/cart354236.pdf

Um dos nomes mais conhecidos na história da Cartografia é, sem dúvida, o de Joan Blaeu (Alkmaar, Holanda, 1596 – 1673), cujo pai, Willem (1571 – 1638) foi astrônomo, fabricante de mapas e globos e cartógrafo da Companhia das Índias Orientais. Ao sucedê-lo, Joan teve acesso aos registros de viagens comerciais efetuadas pelos agentes em mais de cinco décadas, e incluiu algumas dessas informações em suas obras. Uma das mais notáveis, publicada em 1648, foi um mapa com mais de três metros de comprimento, o primeiro a mostrar a costa oeste da Austrália e a Tasmânia (recentemente reivindicada pelo primeiro europeu a avistá-la, Abel Janszoon Tasman). O mapa, gravado em cobre, buscava conciliar as duas opiniões: a crença geocêntrica de Ptolomeu, que ainda possuía adeptos, e a teoria heliocêntrica de Copérnico. Os dois, aliás, são retratados acima de cada hemisfério, em meio a figuras alegóricas que representam os planetas de Mercúrio a Saturno, além do Sol e da Lua.

Veja, na BN digital, uma edição de 1659 da “Nova et accuratissima totius orbis tabula”, de Joan Blaeu:
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_cartografia/cart231101/cart231101.jpg

O mapa foi um dos muitos realizados para integrar a obra mais ambiciosa de Blaeu, publicada em 1662: o “Atlas maior sive cosmographia Blaviana” (Grande Atlas ou cosmografia de Blaeu). Numa espetacular jogada comercial, foram lançadas, simultaneamente, cinco edições, uma em latim, destinada aos eruditos, e as demais em diferentes línguas vernáculas: holandês, francês, espanhol e alemão. As edições, em vários volumes (onze, na impressa em latim, com mais de 4.600 páginas e um total de 594 mapas), podiam ter características diferentes de acordo com a região, e alguns dos mapas eram coloridos à mão, dando a impressão de ser uma obra artesanal.
Jerry Brotton considera o atlas pouco inovador; ele seria menos um veículo de novas ideias do que uma coleção de informações, que se afasta da visão científica e humanista do Renascimento para se constituir numa obra barroca, hiperbólica e cheia de contradições. Ainda assim, está repleto de imagens que ilustram a diversidade de tipos, trajes e costumes ao redor do mundo, e a curiosidade do público fez dele um sucesso de vendas, tal como era o desejo do cartógrafo. Infelizmente, boa parte das chapas se perdeu no incêndio que destruiu sua oficina em 1672, impedindo-o de publicar os volumes planejados – entre eles, uma cosmologia – e encerrando os negócios que, durante décadas, tinham mantido a família Blaeu numa posição de destaque entre os editores holandeses.



Detalhe do mapa de Joan Blaeu, “Nova et accuratissima totius orbis tabula”, em que é retratado o astrônomo Ptolomeu (Div. Cartografia, 1659)