BNDigital

História do Livro | A Ornamentação nos Livros Medievais

14 jul 2020

Artigo arquivado em História do Livro
e marcado com as tags Carta de Abertura dos Portos, História do Livro, História do Papel, Idade Média, Manuscritos, Papel Medieval, Preciosidades da BN

Segundo o especialista Christopher De Hamel, era incomum que um livro medieval não contivesse nada além da simples escrita. A grande maioria deles, porém, não era iluminada – termo que se utiliza para indicar a página ornamentada com ouro ou prata, que a “iluminam” ao refletir a luz – e sim decorada com desenhos mais simples.

Frequentemente, a ornamentação se limitava às iniciais dos parágrafos – chamadas de capitais ou capitulares --, que desde a Antiguidade costumavam se destacar das demais letras do texto, pelo tamanho e/ou pela cor. Nos primeiros manuscritos empregou-se muito o vermelho, ou cinábrio, chamado em latim de “minium”; daí o termo “miniatura” para as iniciais e sua ornamentação. A palavra, entretanto, mudou de significado, passando a ser usada para designar imagens em tamanho pequeno.

Além das capitais, era comum haver ornamentos ao redor do texto ou entre as colunas escritas, bem como nas margens de algumas ou de todas as páginas do códice. Por fim, as ilustrações, que podiam ocupar um canto, uma metade, até a página inteira. Em suma, muitas possibilidades, que variavam de acordo com a época, o lugar, a finalidade do livro, a disponibilidade de artistas treinados e – muito importante -- os recursos disponíveis para a compra do material e o pagamento da mão-de-obra.

Vamos tomar como exemplo os códices ornamentados ao estilo dos Livros de Horas da Biblioteca Nacional, produzidos por volta do século XV. A confecção de uma obra desse tipo era, via de regra, objeto de negociação entre quem o encomendava e o responsável pela execução; firmavam-se contratos especificando o tamanho das páginas, a qualidade do pergaminho (os mais finos custavam caríssimo) e o material a ser empregado. Alguns detalhavam os pigmentos a serem utilizados e, no caso de obras iluminadas, a quantidade das folhas de ouro ou prata necessárias. Também se combinava previamente o uso de cores, a inserção de imagens e de representações alusivas àquele que encomendava ou em homenagem de quem se produzia o códice, tais como brasões e escudos de armas. Podemos dizer assim que cada livro iluminado contém um universo de símbolos, o qual, ao ser decifrado, diz muito sobre a época e as circunstâncias em que se confeccionou aquela obra.

Muitas pessoas se envolviam na produção do livro, cada qual com a sua atribuição, e o projeto devia ser do conhecimento de todos. Os preparadores das páginas tinham de saber onde deixar as linhas em que entraria a escrita e os espaços em branco que conteriam os desenhos. Alguns faziam esboços de letras capitais ou inscreviam instruções à margem do espaço, como lembretes ao desenhista; muitos manuscritos inacabados, e uns poucos já concluídos, contêm essas mensagens. A superfície a receber a tinta precisava então ser limpa antes que o desenhista pudesse fazer os primeiros esboços, frequentemente copiados de outras obras ou, ainda, de álbuns contendo repertórios de figuras. Esses modelos eram de grande ajuda para o artista; ainda segundo De Hamel, podiam ser usados em livros ou em quaisquer outras artes pictóricas.

Nos manuscritos iluminados, o metal era aplicado ao pergaminho por meio de um dentre três processos básicos. Dois deles utilizavam folhas finíssimas de ouro ou prata, que podiam ser aplicadas com um pincel mergulhado em cola – um método muito utilizado nos manuscritos mais antigos – ou, ainda, pela superposição da folha de ouro a uma camada de material aderente, o que deixava a superfície dourada em relevo, assim refletindo a luz por vários ângulos de uma só vez. Em ambos os casos o metal era aplicado antes dos demais pigmentos. No terceiro método, ao contrário, usava-se ouro pulverizado, misturado a goma arábica e a um pigmento obtido da concha de um molusco. Esse último método foi mais usado em manuscritos datados do século XV.

Além do metal, os manuscritos iluminados eram decorados com tintas de várias cores. Um manual escrito por volta de 1455, o Livro Modelo de Göttingen, fornece uma visão “acadêmica” do que seria esse trabalho: primeiro a área era pintada, depois escurecida para dar o efeito de sombra e clareada no lado oposto. Os detalhes mais delicados eram realçados com branco. Tanto a pena quanto o pincel podiam ser utilizados. Os pigmentos estavam disponíveis em um amplo espectro de cores, podendo ser obtidos de diferentes fontes. O vermelho podia ser à base de mercúrio ou de plantas, como o pau-brasil; o azul também podia ser vegetal – obtido, por exemplo, de uma fruta, a “Chrozophora tinctoria”, chamada em Portugal de “tornassol dos tintureiros”, de que se extraía um azul profundo –, mas também vinha de pedras como a azurita e o lápis-lázuli. Outras cores incluíam o verde da malaquita, o amarelo extraído do açafrão ou à base de terra vulcânica e vários tons de terra e ocre, de origem mineral. Várias receitas eram utilizadas para transformar o pigmento em tinta, a maior parte delas empregando gema ou clara de ovo para fazer a liga.

Terminada a ornamentação dos cadernos – o que se fazia a várias mãos, com aprendizes encarregados das tarefas simples e os artistas experientes produzindo as imagens mais elaboradas, que exigiam talento e um bom domínio das técnicas --, a obra era encaminhada ao encadernador. Os livros medievais eram geralmente encadernados em couro ou em pastas de madeira revestidas com couro e fechadas com garras de metal, mas havia encadernações mais suntuosas, inclusive com inscrustações de pedras semipreciosas. Isso exigia que empregassem gravadores e joalheiros.

Em conclusão, toda uma gama de artesãos e artistas, sem falar nos comerciantes de tinta e pergaminho, participava do processo de produção do livro: um trabalho especializado e de grande complexidade, o qual, graças à durabilidade do material, continua a ser preservado até hoje.


Acesse a BN Digital e observe as diferenças na ornamentação entre estes dois códices, pertencentes ao acervo da Divisão de Manuscritos.

O saltério e livro de horas tem capitais ornamentadas, duas das quais iluminadas e contendo imagens, mas quase todas as margens são deixadas em branco. Veja na página 349 uma anotação feita à margem, para corrigir um erro riscado em vermelho. O códice mantém a encadernação original, com vestígios de garras. Confeccionado entre os séculos XV-XVI, é escrito em latim, com letra gótica, a três cores; foi adquirido pela Biblioteca Nacional no século XIX.

http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_manuscritos/mss1212398/mss1212398.pdf

Este livro de horas produzido em Bruges por volta de 1460-1470, também escrito em letra gótica, é profusamente ornamentado. O calendário é ilustrado com cenas referentes às atividades de cada mês; há várias iluminuras, muitas de página inteira, capitulares e margens decoradas com predominância de flores e pássaros. Note-se a presença do pavão, símbolo da Vida Eterna para o Cristianismo. A obra pertenceu à Real Biblioteca e teve alguns elementos adicionados posteriormente: o brasão português na iluminura que mostra o martírio de S. Sebastião e o “colofão”, fórmula de fechamento da obra, que segundo pesquisadores foi escrito no século XVIII.

http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_manuscritos/mss1212389/mss1212389.pdf