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História do Livro | Primórdios da Imprensa

29 jun 2020

Artigo arquivado em História do Livro
e marcado com as tags Acervo precioso, Gutenberg, História do Livro, Incunábulos

O surgimento da imprensa de tipos móveis, na segunda metade do século XV,
marcou o início de uma verdadeira revolução cultural. Como todas as grandes
invenções, porém, não surgiu de repente, mas sim a partir de técnicas e conhecimentos
desenvolvidos ao longo de muitos anos.

O método que, finalmente, permitiria a multiplicação dos exemplares utilizava
técnicas de fundição, de cunhagem, de ourivesaria, de xilogravura. Esta, inventada pelos
chineses, já era utilizada na Europa; no final do século XIV havia uma grande
circulação de estampas e libretos xilográficos, frequentemente usados pelos clérigos
para transmitir os ensinamentos da Igreja às classes populares. A prensa de parafuso era
usada na agricultura desde os tempos da antiga Roma, e os próprios caracteres móveis já
eram conhecidos. Para usar as palavras do estudioso Wilson Martins, “a ideia da
tipografia já estava no ar” quando o alemão Johann Gensfleisch von Gutenberg (ca.
1396 – 1468) resolveu alguns problemas relativos à composição das páginas,
desenvolveu uma nova tinta à base de óleo, mais adequada para o novo processo, e
entrou para a História como o principal responsável pelo estabelecimento da imprensa.

A oficina de Gutemberg, onde, entre 1442 e 1455, imprimiu sua famosa Bíblia
de 42 linhas –não foi seu primeiro trabalho, mas é o mais significativo -- e a de seus
associados e mais tarde rivais, Peter Schöffer e Johann Fust, ficava em Mainz (em latim,
Mogúncia), uma cidade na região da Renânia. Dali, já a partir da década de 1460, as
oficinas de impressão começaram a se multiplicar; em 1480 eram mais de cem,
localizadas em toda a Europa Ocidental, mas principalmente na Alemanha e na Itália. O
comércio do livro impresso também cresceu, assim como a indústria papeleira, que
devia atender à demanda. Segundo os historiadores Febvre e Martin, no final do século
XV – cerca de cinco décadas após a inovação de Gutenberg – o número de edições
chegava a 35.000, representando 15 a 20 milhões de exemplares em circulação.

Os livros impressos até 1500 (o período se estende até 1550, para alguns
estudiosos) são conhecidos como “incunábulos”. A palavra vem do latim “in cuna”, que
significa “no berço”, pois tais livros representavam uma arte ainda nascente. E esses
primeiros descendentes guardavam muitos traços de seus “ancestrais”. Para começar,
boa parte deles foi impressa em pergaminho, ou teve parte da edição em pergaminho e
parte em papel; as iniciais seguiam sendo feitas à mão ou por meio de gravura, e os
artistas continuaram a dotá-las de arabescos e outras ornamentações; os tipos, fundidos
em chumbo, procuravam se assemelhar aos caracteres manuscritos, utilizando a escrita
gótica; a disposição do texto nas páginas permanecia a mesma. Em suma, os
incunábulos eram produzidos com o propósito de se assemelhar a manuscritos, a tal
ponto que, em muitos casos, torna-se difícil distinguir um livro impresso de um
inteiramente caligrafado.

Tal como se dera na substituição do rolo pelo códice, o surgimento da imprensa
não acabou com a produção dos livros manuscritos. No entanto, a revolução
proporcionada pelo novo artefato foi imensa, e o livro impresso se impôs como o
veículo por excelência da difusão do conhecimento, tanto na Europa quanto nas novas
terras que começavam a ser exploradas.

Entre os vários incunábulos pertencentes à Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional encontra-se esta versão em prosa livre da Eneida, de Virgílio. O colofão (nota final informativa, incluída em obras manuscritas e impressas nos primeiros séculos) afirma que o livro foi produzido em Vicenza, Itália, no ano 1476. Observe, já nas primeiras páginas, os espaços das iniciais, deixados em branco, onde as letras a serem inseridas pelo calígrafo ou por meio de xilogravura foram apenas indicadas a tinta.

http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_obrasraras/or814833/or814833.pdf


Conheça outros exemplares no Catálogo da Exposição de Incunábulos

http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon1285817/icon1285817.pdf