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História Geral | A Era de Elizabeth II

31 jul 2020

Artigo arquivado em História Geral
e marcado com as tags Elizabeth II, Inglaterra, Rainha Vitoria, Reino Unido

Símbolo de tradição e continuidade, o Reino Unido comemora a coroação da rainha Elizabeth II, ocorrida em 2 de junho de 1953, com festejos que duram a primeira semana desse mês. Ao nascer, durante o reinado de seu avô Jorge V, Elizabeth Alexandra Mary era apenas a terceira na linha de sucessão ao trono, depois de seu tio Eduardo VIII e de seu próprio pai, Jorge VI. Entretanto, com a abdicação sem herdeiros de Eduardo VIII, abriu-se caminho para que, a antes improvável subida ao trono de Elizabeth, acontecesse. Em 6 de fevereiro de 1952, com a morte de seu pai, ela ascendeu ao trono, tornando-se Elizabeth II.

A longevidade de seu reinado a permitiu acompanhar de perto os acontecimentos mais importantes do Reino Unido e do mundo na segunda metade do século XX. Símbolo da estabilidade da monarquia constitucional mais poderosa do mundo, o percurso do reinado elizabetano não esteve livre de contradições, e foi nos momentos comemorativos – como os jubileus de prata e ouro rememorados aqui através de relatos na imprensa brasileira – que as fraturas no interior da nação e do império britânicos se mostraram mais presentes.

A coroação em 1953 ficou marcada pela austeridade econômica ainda presente, oriunda do pós-II Guerra, ao mesmo tempo em que tentou exaltar os laços econômicos, políticos e culturais das antigas colônias com a metrópole, reunidas na Commonwealth – espécie de comunidade econômica informal que buscava manter os laços econômicos do antigo império no período de independências dos países africanos e asiáticos. No entanto, em um contexto em que EUA e URSS se firmavam como os dois principais polos da nova geopolítica do pós-1945, caracterizada pela onda de independências e pela garantia da autodeterminação dos povos contida na fundação da ONU, o esforço britânico em manter ativos os antigos laços imperiais sob uma nova roupagem soava anacrônico e deslocado da nova realidade.

O jubileu de prata, comemorado em 1977 em virtude dos 25 anos do reinado de Elizabeth II, se deu em um contexto de crise econômica na Grã-Bretanha. Às voltas com problemas sociais e episódios de violência racial, crescente desemprego, um recém pedido de empréstimo ao FMI – o maior da história britânica –, a comemoração esteve longe do glamour de outrora. Além disso, os anos 1960 e 1970 foram caracterizados por tensões no interior das próprias ilhas britânicas: movimentos nacionalistas na Escócia e no País de Gales ganharam força, e a guerra civil na Irlanda se acirrou com a repressão das forças militares britânicas em conluio com grupos paramilitares da Irlanda do Norte contra as forças republicanas da Irlanda, no que ficou conhecido como “The Troubles” (ou, “as turbulências”, em tradução livre). Até hoje, o conflito na Irlanda é o conflito que envolveu o maior número de soldados britânicos mortos desde a II Guerra Mundial. Em Londres, a banda punk Sex Pistols lançou seu mais recente single, “God Save the Queen” em um show ao vivo a bordo de um navio no rio Tâmisa no dia 7 de junho para coincidir com as comemorações do jubileu. A “festa” foi interrompida pela polícia, o que não impediu que o single alcançasse o segundo lugar nas paradas de sucesso do Reino Unido naquele ano e Johnny Rotten, vocalista da banda, pudesse homenagear livremente a soberana, captando o significado da coroa para muitos àquela altura: “Deus salve a rainha. Não há futuro e nem lugar para sonho na Inglaterra. Deus salve a rainha, porque turistas são dinheiro”.

Por fim, o jubileu de ouro, em 2002, marcou os 50 anos de reinado de Elizabeth II e início do século XXI para a nação britânica. As festas em comemoração, buscando marcar a entrada da realeza no novo século, tiveram shows de astros da música nos jardins do Palácio de Buckingham. A década anterior havia sido marcada por escândalos privados na família real, em especial a morte da popular princesa Diana, em 1997, àquela época divorciada após um casamento conturbado com o herdeiro do trono, o príncipe Charles. No mesmo ano, outro fato marcante foi a transferência da soberania de Hong King de volta para a China, com o fim do contrato de arrendamento dos territórios anexados no fim do século XIX, período do auge do império britânico. Para muitos, o fato marcou na prática o fim do império britânico, com a devolução do último território conquistado ainda no período vitoriano. Naquele contexto, a Inglaterra era governada pelo primeiro-ministro trabalhista Tony Blair e o seu “novo trabalhismo” procurou resgatar as heranças e tradições culturais britânicas, repaginando-as para a virada do século XXI através de artistas pop, no que ficou conhecido como “Cool Britannia”. O resgate do orgulho patriótico pela monarquia constitucional e sua chefe de Estado era parte central desse esforço.

Em 9 de setembro de 2015 a monarca superou a rainha Vitória (1837-1901) e o seu reinado se tornou o mais longevo da história do Reino Unido. A monarquia raramente tem sido um problema na política britânica. Certamente tem havido oposição a ela, embora ela tenha tendido a tomar a forma de crítica ao comportamento e aos assuntos financeiros da família real, em vez de um republicanismo ativo, proposta vista como traição à nação. Os partidos políticos britânicos mais importantes nunca propuseram de fato sua abolição. Se para nós brasileiros a existência da monarquia britânica ainda é motivo de fascínio e ao mesmo tempo incompreensão, a estabilidade, tradição e continuidade simbolizadas pelo trono britânico garantem à identidade nacional britânica um de seus principais pilares. E, como toda identidade nacional, traz uma leitura específica de fatos selecionados do passado, parte do esforço de todo Estado-nação em criar e recriar uma “comunidade imaginada” nacional.


http://memoria.bn.br/DocReader/004120/174592?pesq=%22jubileu%20de%20prata%20Elizabeth%20II%22

Outros links:
 
1 - notícia no Jornal do Brasil sobre as festas da coroação de Elizabeth II em 1953

2 - artigo no Jornal do Brasil sobre o jubileu de prata em 1977

3 - notícia no Jornal do Brasil sobre as comemorações do  jubileu de ouro em 2002