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Jornal do Commercio (Rio de Janeiro)

17 ago 2015

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Abolicionismo, Academia Brasileira de Letras, Aliança Liberal, Aliança Nacional Libertadora, anticomunismo, Assis Chateaubriand, Austregésilo de Athayde, Barão do Rio Branco, Campos Sales, Comércio, Conservadorismo, Crítica política, Deodoro da Fonseca, Departamento de Imprensa e Propaganda, Diários Associados, Ditadura civil-militar brasileira, Dom Pedro I, Dom Pedro II, Economia, Estado Novo, Estados Unidos, Euclides da Cunha, Félix Pacheco, Floriano Peixoto, Getúlio Vargas, Guerra de Canudos, Guerra do Paraguai, Imprensa Áulica, Joaquim Nabuco, José de Alencar, Liberalismo econômico, Lima Barreto, Literatura, Monarquismo, Nacionalismo, Período Regencial, Pierre Plancher, Primeira Guerra Mundial, Primeiro Reinado, Prudente de Morais, Questões trabalhistas, Quintino Bocaiúva, Reforma Passos, República Velha, Revolta do Vintém, Revolução Constitucionalista de 1932, Revolução de 1930, Rio de Janeiro, Rodrigues Alves, Rui Barbosa, Segunda Guerra Mundial, Segundo Reinado

Publicado desde 1º de outubro de 1827, o Jornal do Commercio é o segundo periódico diário mais antigo do Brasil ainda em circulação, bem como um dos mais antigos de toda a América Latina, perdendo apenas para o Diário de Pernambuco. Veio a lume pelo tipógrafo parisiense Pierre René François Plancher de La Noé, que, fugido de seu país por sua convicção bonapartista, já que a Restauração havia levado Luís XVIII ao trono francês, instalou-se na Corte brasileira em 1824, acompanhado por artesãos gráficos, prelos de ferro, caixas de tipos, livros e outros materiais raros ou inexistentes no Brasil. Após fundar sua própria oficina, a Imperial Typographia, no centro do Rio de Janeiro (RJ), o jornal que passou a produzir pretendia explorar o mercado até então monopolizado pelo Diário do Rio de Janeiro; tinha, portanto, caráter estritamente comercial, como seu próprio nome indica. Isso, além de sua tradicional linha conservadora, foi, possivelmente, um dos fatores que permitiram sua longevidade, ao contrário dos demais periódicos da época. Após viver do Primeiro Reinado à redemocratização brasileira com o fim da Era Vargas, o Jornal do Commercio passou a integrar, em 1959, a rede de comunicação Diários Associados, de Assis Chateaubriand, da qual faz parte até hoje. Em suas diversas fases, o jornal contou com o trabalho e a colaboração de nomes proeminentes da imprensa, da política e da cultura nacionais, como o visconde de Taunay e o barão do Rio Branco, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José de Alencar, Homem de Mello, Félix Pacheco, Alcindo Guanabara, Austregésilo de Athayde, entre outros.

Ao chegar ao Rio de Janeiro, Pierre Plancher teve que provar às autoridades brasileiras que não era um falsário, como a Legação da França o havia classificado previamente. Após conseguir a anulação de um decreto que o expulsaria do país, que já estava pronto antes de sua chegada, aproximou-se de Dom Pedro I, tornando-se amigo do imperador. Assim, o francês obtivera a permissão para estabelecer sua tipografia e para se identificar como Impressor Imperial, vindo a imprimir, inicialmente, folhetos, leis, livros e papéis avulsos, que eram vendidos em loja própria, primeiro no nº 60 da Rua dos Ourives e depois no nº 80 da Rua do Ouvidor, junto com livros trazidos da França. A 28 de junho de 1824, o tipógrafo lançou o primeiro periódico da Imperial Typographia, O Espectador Brasileiro, de linha absolutamente crente na monarquia constitucional, expressa nos textos do próprio impressor, que assinava como “Um francês brasileiro”. No entanto, isso não impediu a folha de deixar de circular em 23 de maio de 1827, por divulgar, em meio a uma polêmica, um texto de um colaborador considerado ofensivo à Assembleia Geral do Império por partir em defesa do brigadeiro João Vieira Carvalho, então conde de Lajes e ministro da Guerra. Quando voltou à iniciativa impressa diária, ao lançar o Jornal do Commercio em 1º de outubro, Plancher havia achado melhor voltar a nova folha a assuntos econômicos e comerciais, deixando temas políticos em segundo plano.

Ao lado do tipógrafo francês, o recém-fundado Jornal do Commercio, que apareceu em edições de quatro páginas de 30 x 21cm, tinha como redatores Émile-Seignot Plancher (filho do tipógrafo, então com apenas 16 anos, que tinha seu nome impresso na última página do jornal como demonstração de que o periódico era diferente d’O Espectador Brasileiro), João Francisco Sigaud, Francisco de Paula Brito, Júlio César Muzzi e Luís Sebastião Fabregas Surigué, além de colaboradores como José Clemente Pereira e Felisberto Caldeira Brant Pontes Oliveira e Horta, o marquês de Barbacena. Nelson Werneck Sodré, na “História da imprensa no Brasil”, esclarece um pouco do caráter político dos primeiros donos do Jornal do Commercio, de origem francesa, citando a prática de impressão de pasquins de crítica virulenta – tanto liberal quanto conservadora, ou seja, contra ou a favor de Dom Pedro I –, comum às tipografias que lançavam jornais “maiores” no cenário político entre o Primeiro Reinado e a Regência, e um dos principais defensores da ordem então estabelecida, Silva Lisboa. Segundo Sodré, os editores franceses
(...) eram figuras comuns no comércio fluminense, como então se dizia, inclusive no ramo, ainda pouco promissor, da tipografia. Preferiram alguns deles fazerem jornais governistas, oficiosos, áulicos, outros preferiram o inverso. A Imperial Tipografia, de Plancher, imprimiria, entre 8 de abril e 20 de agosto de 1828, o típico periódico de polêmica que foi a Honra do Brasil Desafrontada de Insultos da Astréia Espadachina, em trinta e um números, assinados por Escandalizado, que outro não era senão o indefectível Silva Lisboa. (p. 110)

Apesar de fazê-la com maestria, a equipe de redatores do Jornal do Commercio não se atinha à mera divulgação de notícias e efemérides relativas à realidade comercial da capital e do país – informações gerais sobre preços de produtos, movimento portuário, importação e exportação, bem como anúncios e noticiário geral nacional e internacional. Aos poucos, passaram a se preocupar também com os reflexos do plano político sobre questões econômicas. Assim, já em sua primeira fase, o jornal dava atenção aos principais percalços da política no Brasil, de forma neutra, para em seguida fixar suas teses e posicionamentos, sempre em viés conservador. O Jornal do Commercio foi, a princípio, um órgão da chamada imprensa áulica, simpático ao absolutismo de Dom Pedro I, tendo desempenhado importante papel nesse sentido, ao lado de folhas da mesma inclinação, como o Diário do Rio de Janeiro, a Gazeta do Brasil, o Diário Fluminense (que, assim como o jornal anterior, contava com escritos do próprio imperador), O Analista e o Courrier du Brésil. Na trincheira contrária, moderada mas ainda assim liberal, estavam a Aurora Fluminense e a Astréa.

Aos poucos, conforme a crise em torno de Dom Pedro I ao fim de seu reinado se mostrava mais severa, por volta de 1829 Pierre Plancher acabou se aproximando do debate político de forma mais explícita. Não era para menos: em 1830 o clima turbulento pioraria consideravelmente quando, em setembro, uma passeata de estudantes paulistas em comemoração à revolução que derrubou Carlos X do trono, na França, gerou forte repressão das forças públicas – afinal, os manifestantes indiretamente deixavam claras suas insatisfações com a Coroa brasileira. A Comissão de Justiça da Câmara se pronunciou considerando legítima a derrubada do governo francês, opondo-se à opinião do ministro do Império Silva Maia, deixando claro que o clima dentro do governo não era dos melhores. Após protestar em seu órgão, O Observador Constitucional, de inclinação liberal, Libero Badaró acabou sendo assassinado, a 20 de novembro, e a inquietação ganhou proporção extraordinária. Pierre Plancher, nesse processo, já tinha passado à oposição, argumentando que o imperador fazia concessões demais aos interesses portugueses; além do mais, era politicamente coerente o apoio do editor francês à Revolução de 1830. Meses antes, no dia 11 de agosto, o Jornal do Commercio havia deixado clara sua posição antilusitana ao defender uma política de colonização que favorecesse indivíduos de outros países europeus que não Portugal. A reação lusa na Corte forçou a retratação de Plancher, que foi ainda obrigado a mudar o nome de seu jornal já no dia seguinte: a partir do dia 12 de agosto o periódico passou a se chamar Diário Mercantil ou Novo Jornal do Commercio. Em verdade, a crise iniciada com as comemorações pela Revolução de 1830 e o assassinato de Badaró expunha o esgotamento do modelo despótico e culminaria na abdicação de Dom Pedro I em 7 de abril de 1831. No processo de derrocada do Primeiro Reinado, catalisando-a, a imprensa liberal teve papel de relevo – caso de O Repúblico, Nova Luz Brasileira e Tribuno do Povo, mais radicais, e os moderados Aurora Fluminense e Astréa. A esses jornais, e embora conservador, o Jornal do Commercio fez eco.

Com a nova conjuntura política da monarquia brasileira no início do Período Regencial, para o qual a folha de Plancher havia contribuído, tempos de calmaria se anunciavam: a 4 de abril de 1832, ocasião em que anunciava uma tentativa de golpe militar contra a Regência, o Jornal do Commercio voltou a ter o seu título original. Mas era a nova situação política na França, após a ascensão de Luís Felipe ao trono, que interessava a Plancher, que resolveu retornar ao seu país. No mesmo ano, o tipógrafo vendeu o periódico e suas oficinas a Junius Villeneuve e Reól Antoine de Mongenot. O primeiro, no entanto, aos 28 anos de idade, não se sentia apto a tocar o empreendimento por conta própria e pediu para que Plancher permanecesse ao menos até que a dupla tivesse condições de dirigir sozinha o negócio. O fundador do Jornal do Commercio permaneceu no Brasil, então, por mais dois anos, até que em 4 de fevereiro de 1834 a propriedade foi totalmente passada a Villeneuve e Mongenot. Villeneuve, um ano depois, comprou a parte de seu sócio, que desistira da sociedade pelas dificuldades de se manter uma tipografia, e impulsionou o jornal. Desde sua fundação o periódico levava dez horas para ter cada uma de suas edições impressas em dois prelos de ferro manuais, mas a partir de 7 de maio de 1836 a situação melhorou: a folha passou a ser tirada em prelo mecânico, o primeiro instalado na América do Sul, trazido da França, fazendo todo o trabalho de impressão diária em duas horas e permitindo que o Jornal do Commercio fosse entregue aos seus assinantes já às 6 horas da manhã. O crescimento da folha se acentuou mais ainda pouco depois, quando, em 1º de maio de 1837, Villeneuve estabeleceu grande parceria com Francisco Antônio Picot, austríaco de família francesa naturalizado brasileiro, dotado de grande cultura e senso prático. Logo em seguida, Picot tornara-se genro de Villeneuve.

O bom momento do Jornal do Commercio, então, se deu muito pelo distanciamento do fogo cruzado entre os partidos políticos Liberal e Conservador, durante a Regência. O periódico era mesmo criticado por não tomar posição, restringindo-se a assuntos de ordem econômica e à divulgação de atos oficiais. Sua linha, longe de polêmicas, refletia-se nos interesses de seus próprios donos: Villeneuve fazia parte do grupo de capitalistas que fundou a Associação dos Assinantes da Praça do Comércio, em 1834, que se transformaria numa instituição com a qual o Jornal do Commercio manteria estreitas ligações, ao longo do tempo: a Associação Comercial do Rio de Janeiro.

Junius Villeneuve partiu para a França em 1844, deixando o periódico do qual era dono totalmente nas mãos de Francisco Antônio Picot. Já depois da ascensão de Dom Pedro II ao trono, foi durante a gestão do novo dono que o Jornal do Commercio deixou de ser um veículo restrito a assuntos econômicos e comerciais para, em forma e conteúdo, se tornar um diário que atualmente seria reconhecido como “de grande formato”, ou seja, verdadeiramente influente junto à opinião pública. Tendo acompanhado os mandos do Poder Executivo e os debates parlamentares desde dois dias depois da coroação do jovem imperador, com publicação de atos e discursos na íntegra, nessa fase, a folha contou com redatores e colaboradores de vulto: ali, reuniram-se José Maria da Silva Paranhos – sua coluna “Cartas a um amigo ausente”, publicada a partir de 1851, daria ao autor a reputação de estudioso dos problemas nacionais, influindo para que mais tarde o mesmo obtivesse o título de visconde de Rio Branco –, Joaquim Manuel de Macedo, Joaquim Nabuco, Justiniano José da Rocha, José Joaquim Vieira Souto, Henrique Villeneuve, Jaime Seguier, Francisco Otaviano, Gonçalves Dias – não como poetas, mas como redator de discursos parlamentares –, Augusto de Castro, Leonardo Caetano de Araújo, Manuel Odorico Pinheiro Guimarães, Ferreira de Meneses, Xavier Pinheiro, João Francisco Lisboa, Sant’Ana Néri, entre outros, como o barão Homem de Mello. Seus escritos, ademais, vinham entre artigos de escritores portugueses como Guerra Junqueiro, Augusto de Castro, Gervásio Lobato, Pinheiro Chagas, Guilherme de Azevedo e Oliveira Martins.

A força e a influência que o Jornal do Commercio teve durante o Segundo Reinado, por meio de sua postura de neutralidade, foram destacadas em um depoimento de Alcindo Guanabara, citado por Nelson Werneck Sodré. Nele, o historiador comentava, sobretudo, o papel do periódico entre 1846 e 1856, período em que esteve em vigor a política de conciliação entre os partidos opositores da monarquia – algo que, para Werneck Sodré, pela miragem de uma tranquilidade política, escondia graves problemas. Assinalando a guinada do discurso jornalístico conservador na metade do século XIX e lembrando que, como o Jornal do Commercio, os jornais brasileiros mais longevos foram sempre conservadores, o autor expunha as palavras de Alcindo Guanabara:
O decênio da minoridade adianta-se para nós ululante e temeroso. O Jornal do Comércio percorreu-o todo, mantendo uma serenidade que seria talvez singular em tão agitada época: haveis de encontrarem suas páginas, todos os fatos, mas não percebeis nelas nenhum eco do muito que se dizia e que se transformava, nessa luta memorável, sob a influência da qual vacilou o Império. Esse alheiamento das paixões em convulsão, essa inalterável tranquilidade, num meio tão agitado, valeram ao Jornal do Comércio a força e o prestígio com que, no princípio do segundo reinado, ele agia e reagia sobre a sociedade, prestígio que cresceu e acentuou-se de tal arte que a expressão quarto poder lhe era aplicável com absoluta justiça. Nesse trecho da vida é com verdade que se pode dizer que a história do Jornal do Comércio se confunde com a do reinado. Evocá-la é evocar a série de vultos que brilham na nossa política, nas nossas letras, nas nossas artes, todos os quais ou de lá saíram, ou lhe deveram a consagração do triunfo. Os grandes nomes acotovelam-se. Justiniano José da Rocha, o maior dos jornalistas brasileiros; o visconde de Jequitinhonha, o visconde de Araguaia, Porto Alegre, Rio Branco, Otaviano – que eu sei – (...) desfilam diante de nossos olhos (...). A ação do Jornal do Comércio afirma-se então intensa e eficaz, no terreno político, como no literário e artístico. Como sempre, o Jornal do Comércio não é partidário, mas pesa deliberadamente na concha das instituições. É conservador, nesse sentido; é moderado, em todos os sentidos. (p. 189)

Seguindo o exemplo dos donos anteriores do Jornal do Commercio, Picot também resolveu retirar-se à França, em 15 de janeiro de 1852. No entanto, a brilhante equipe que havia colocado na redação do periódico o permitiu comandá-lo à distância, rotina que manteve por 38 anos. Assim, Picot conduzia sua folha em farta correspondência, orientando todos chefes de redação que o Jornal do Commercio tivera, naquele período: na sequência, Manuel Moreira de Castro, Carlos Emílio Adet, Luís Joaquim de Oliveira Castro e João Carlos de Sousa Ferreira.

O fato de ter sido dirigido à distância não significou queda de qualidade ao diário. Cerca de oito anos após a partida de Picot, o periódico se destacou pela introdução de novidades em seu corpo editorial, entre as quais a coluna “A pedidos”, uma coluna livre onde assuntos variados eram debatidos pelos próprios interessados, que seria – e muito – copiada pelo restante da imprensa nacional. Em verbete sobre o Jornal do Commercio no terceiro volume do “Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930”, Carlos Eduardo Leal e Cícero Sandroni expõem que ali, naquela coluna, a partir de 1860 iniciou-se grande luta pelo abolicionismo, que encontrou respaldo na própria direção do jornal. Embora tal postura progressista contrariasse os interesses das elites agrárias, das quais o diário era porta-voz, os autores clamam que “o jornal foi o ‘único dos jornais brasileiros que desde o seu distante nascimento jamais compactuaria com o tráfico negreiro e com o trabalho cativo’” (p. 2.876). Nas páginas do matutino, ademais, uma série de artigos de Perdigão Malheiros foi publicada a partir de 1866
(...) sugerindo uma solução para o problema da escravatura que não seria muito diferente da vitoriosa, com a Lei do Ventre Livre, proposta pelo visconde do Rio Branco e promulgada em 28 de setembro de 1871. No momento em que a lei completou seu sexto aniversário, o Jornal do Comércio fazia um balanço da situação, argumentando que ‘após a experiência adquirida nesse período que já não é demasiado curto, verifica-se que os terrores que essa lei produziu no decurso de sua gestação tinham mais fundamento nas sugestões do patriotismo que no sentimento da realidade’. Em seguida, acrescentava que ‘tínhamos uma individualidade política, mas o edifício social repousava sobre a mais funesta das instituições, funesta mais ainda aos senhores do que aos escravos, último elo que nos prendia a uma ordem de coisas que havíamos repudiado em 1822. (p. 2.877)

Mais ou menos no mesmo período em que o Jornal do Commercio colocava o problema da escravidão em pauta, mais precisamente a partir de 17 de fevereiro de 1865, ganhava destaque nas páginas da folha o noticiário sobre a Guerra do Paraguai, amplo e minucioso, com mapas revelando o teatro do conflito e coberturas de confrontos pontuais, feitos, sobretudo, por meio da correspondência expedida das frentes de combate.

De acordo com Nelson Werneck Sodré, a 1º de outubro de 1877, o Jornal do Commercio, já com redação instalada na Rua do Ouvidor, instituiu outra novidade que, em seguida, o restante da imprensa diária nacional passou a seguir: a publicação de uma página contendo noticiário internacional, com pequenas notícias transcritas a partir de telegramas. O diário, no caso, contava com o serviço da agência telegráfica Reuter-Havas, que, instalada no Rio de Janeiro desde 1º de agosto de 1874, serviria a imprensa brasileira por 71 anos, até o final da Segunda Guerra Mundial, quando passaria a se chamar France-Press.

No plano político, no ano de 1880, quando no jornal faziam sucesso a coluna “Microcosmo”, de Carlos de Laet, e os folhetins trazendo grandes romances de autores brasileiros e estrangeiros, a antiga folha dava novas mostras de governismo ao se posicionar contra a população insurgente na Revolta do Vintém, no Rio de Janeiro, buscando justificar a repressão violenta por parte do governo municipal – indo contra, portanto, a grande onda de protestos que ressoava em outros órgãos da imprensa. Por outro lado, apesar de posicionamentos assim, poucos anos mais tarde ainda era possível ler, no Jornal do Commercio, a defesa da causa abolicionista, muito pelos textos ali publicados pelo redator Gusmão Lobo.

Em 1889, o advento da República não abalou as estruturas conservadoras do Jornal do Commercio, sempre politicamente cauteloso. Ao menos era essa a direção que Francisco Antônio Picot dava a João Carlos de Sousa Ferreira, um dos últimos chefes de redação orientados à distância da gestão de Picot, tendo permanecido no cargo de maio de 1888 a 15 de outubro de 1889. De fato, o diário era uma das duas folhas mais importantes do jornalismo brasileiro de então, junto com a Gazeta de Notícias, também do Rio. Sendo descrito por Nelson Werneck Sodré como “uma espécie de Times sem virilidade”, um “Times sem os leading articles”, algo que não passasse de um “bom repertório de fatos, um conjunto útil de documentos” (p. 253), naquele momento, o Jornal do Commercio arrebanhava tantos anunciantes que dedicava um suplemento para a publicação de reclames. Em meio à bonança, no entanto, a República alterou a cúpula do periódico. Fortemente associados à monarquia, Francisco Picot e Júlio Constâncio de Villeneuve, filho de Junius Villeneuve, que além de diplomata e conde fiel a Dom Pedro II ainda detinha parte da propriedade do Jornal do Commercio, decidiram que era hora de abandonar o terreno jornalístico. Assim, em 15 de outubro de 1890 o prestígio adquirido por José Carlos Rodrigues o permitiu adquirir a folha à dupla.

Colaborador do Jornal do Commercio nos Estados Unidos a partir de 1868, para depois, no período entre 1882 e 1890, atuar em Londres, onde também colaborava com o Times e o Financial News, José Carlos Rodrigues tinha experiência no jornalismo e influência no campo político. Anos antes, na década de 1870, editara dois periódicos nos EUA, Novo Mundo e Revista Industrial, ambos em português, voltados a assuntos brasileiros. Suas reportagens criticando os planos de uma firma francesa para a construção de um canal ligando os oceanos Pacífico e Atlântico no Panamá, avaliando que somente o governo americano poderia realizar tal empreitada, impulsionaram a iniciativa ianque no empreendimento – rendendo uma carta de agradecimento ao jornalista assinada por Theodore Roosevelt. Segundo Eduardo Leal e Cícero Sandroni, em 1890 Rodrigues
(...) intermediou o primeiro empréstimo britânico à província de São Paulo e em outubro, por instância de seu amigo Eduardo Prado, coordenou o negócio da compra do Jornal do Comércio, de Júlio Constâncio Villeneuve e Francisco Picot. O contrato, no valor de 3.500 contos de réis, foi assinado em Paris, a 15 de outubro de 1890, sendo o capital dividido em cotas por 28 homens de negócios, reunidos, a pedido de Rodrigues, pelo conselheiro de Estado José da Silva Costa. Interessado à última hora em participar da compra ou adquirir sozinho o jornal, o político Rodolfo Dantas não encontrou quota disponível; desejoso de ter um jornal, fundou a 9 de abril de 1891 o Jornal do Brasil. (p. 2.877)

Como se sabe, os primeiros momentos da República não foram exatamente fáceis para a imprensa brasileira, em geral. Se sob a direção de José Carlos Rodrigues, como propriedade da firma Rodrigues & Cia., o Jornal do Commercio inicialmente apoiou o novo regime, logo em seguida deu-se um dos raros episódicos de seu posicionamento político contra o poder estabelecido; mais precisamente quando do empastelamento do jornal A Tribuna, em 29 de novembro de 1890, que acabou resultando na morte do revisor João Ferreira Romariz – esse jornal, propriedade de Antônio Medeiros, abrigava artigos furiosos de Eduardo Prado contra o marechal Deodoro da Fonseca e sua depredação gerou, a 2 de dezembro daquele ano, um pronunciamento de repúdio por parte do restante da imprensa carioca, devidamente encabeçado pelo Jornal do Commercio. Pouco depois, durante o mandato de Floriano Peixoto, o jornal passou a figurar na oposição.

Por certo período a partir de 1890, a folha dirigida por José Carlos Rodrigues manteve-se como a de maior expressão no mercado editorial jornalístico brasileiro, mesmo após a ascensão do Jornal do Brasil. Nesse período esteve em alta o repórter Ernesto Sena, verdadeira estrela do Jornal do Commercio, a quem os redatores do JB procuravam seguir, além de outros nomes de peso, como Jaime Séguier, João Luso, Constâncio Alves ou Carlos de Laet. Revelando boa saúde financeira, o preço pago pelo periódico de Rodrigues às colaborações enviadas pelos homens de letras era dos mais atraentes na imprensa: entre 30 e 60 mil réis. Desde que assumira, José Carlos Rodrigues não alterara o caráter circunspecto do jornal, que era, ademais, uma sólida empresa: o proprietário apenas acentuara o traço de apoio a todo e qualquer governo, tradicional na folha já septuagenária. Sisuda e conservadora como em seus primeiros anos, ela mantinha-se como a preferência de leitura dos homens negócios, políticos e funcionários graduados, a elite, enfim. Ademais, o Jornal do Commercio conservava o formato que usara nos tempos do Império: suas edições tinham então 73 x 54cm, contanto entre 10 e 12 páginas, com colunas de textos largas e matérias e artigos de grande extensão.

Durante sua fase de oposição a Floriano Peixoto, o Jornal do Commercio valia-se de editoriais escritos por Quintino Bocaiúva – ou, ao menos, inspirados em seu estilo e linha de raciocínio – pedindo a realização de eleições. Tais textos eram publicados sob o título “Várias”, seção que permaneceu assim chamada no periódico até 1997, quando foi substituída por “Opinião”; na época em que foi instituída significada uma abreviação de “Várias notícias do Jornal do Commercio”, algo que valeu a inclusão da palavra na lista de jargões jornalísticos como sinônimo de textos editoriais. Seguindo essa linha opositora, todavia, em 1892 a folha aplaudiu o almirante Eduardo Wandenkolk, um dos signatários do chamado “Manifesto dos 13 generais”, que contestava a legitimidade do governo, reproduzindo sua opinião no momento em que se preparava para atacar o porto do Rio Grande do Sul, convidando a Marinha a seguir seu exemplo. Nesse mesmo ano, em outro plano, o periódico destacava as “Cartas da Inglaterra”, assinadas por Rui Barbosa, a respeito do caso Dreyfus. Ao início do governo de Prudente de Morais, o Jornal do Commercio voltou a apoiar a situação, expressando o pensamento da corrente mandatária em suas “Várias”. Na coluna “Gazetilha”, em 1895, essa orientação política era mantida, mas abordando-se os acontecimentos no Congresso Nacional e no Conselho de Vereadores do Rio de Janeiro.

Época em que publicava grandes artigos de nomes, como Joaquim Nabuco e Rui Barbosa, a metade da década de 1890 foi marcada como um novo momento de expansão do Jornal do Commercio. Além de modernizar seu sistema de captação de anúncios, que passaram a cobrir uma área mais ampla na capital, o jornal tinha estrutura para permitir o deslocamento de repórteres para fora do Rio de Janeiro: foi o caso de Manuel Benício Fontenelle, enviado à Bahia em junho de 1897 como correspondente do conflito armado em Canudos, tendo enviado ao jornal, durante o mês de julho, relatos minuciosos. Tais reportagens, que foram anteriores às de Euclides da Cunha para O Estado de S. Paulo, seriam reunidas em 1899 no livro intitulado “O rei dos jagunços”.

Com a ascensão de Campos Sales à presidência da República, o Jornal do Commercio aumentou ainda mais sua influência – Tobias Monteiro, jornalista do diário, chegou a ser enviado para uma comitiva que acompanhava o presidente em uma viagem a Europa, para representar o jornal, e acabou se tornando secretário do chefe de Estado. Foi nesse período, mais precisamente em 1899, que José Félix Alves Pacheco integrou a redação do matutino, vindo, ali, a se destacar na esfera pública. No governo seguinte, de Rodrigues Alves, deu-se a grande reforma urbanística da capital, levada a cabo pelo prefeito Pereira Passos, que, com a abertura da Avenida Central em 1904, insistiu para que a folha de José Carlos Rodrigues abandonasse sua antiga redação na Rua do Ouvidor para instalar-se na nova artéria. Um terreno foi reservado na esquina da Ouvidor com a Avenida Central e, a partir de 1º de outubro de 1908, o Jornal do Commercio passou a ser redigido de um imponente prédio de seis andares. Já há cerca de um ano dessa data, durante o governo de Afonso Pena, Euclides da Cunha viria a colaborar com o jornal – ali, sua crônica “Última visita”, publicada a 29 de setembro de 1908, se tornara célebre ao destacar um jovem em prantos ao leito de morte do escritor Machado de Assis: Astrojildo Pereira.

Em 1909, quando da campanha civilista movida por Rui Barbosa, que tinha apoio de folhas como Correio da Manhã (o grande órgão de oposição da época), Diário de Notícias, O Século, A Notícia e a revista Careta, o Jornal do Commercio optou pelo posicionamento contrário, governista, a favor do marechal Hermes da Fonseca, assim como o Jornal do Brasil, O Paiz, A Tribuna e os semanários ilustrados O Malho e Revista da Semana. Nesse ano, a empresa editora do periódico veio a lançar o Jornal da Tarde, uma edição vespertina dirigida por Vítor Viana, que se notabilizou por publicar em folhetim, de 11 de agosto a 19 de outubro de 1911, “O triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto. No entanto, o projeto vespertino não durou, findando em 1º de abril de 1922 - ano em que também deixou de ser publicada a edição paulista do Jornal do Commercio, que havia sido lançada em 1917. Ainda no início da década de 1910, ademais, a firma capitaneada por José Carlos Rodrigues lançou o Jornal das Modas e o Arquivo Judiciário, este dirigido por Edgar Costa. Outro reflexo da boa fase da empresa se fez sentir no seu próprio periódico-chefe: entre 1911 e 1914, o Jornal do Commercio publicou um encarte moderno, impresso em Paris, chamado “Jornal Ilustrado”.

Se no plano político nacional a folha de Rodrigues optava pela sobriedade e pela neutralidade, a abordagem dispensada à cobertura da Primeira Guerra Mundial seguiria o exemplo. No ano em que o conflito iniciara, 1914, Valery Landesman foi a primeira mulher da redação do Jornal do Commercio, com a função de traduzir os telegramas enviados diretamente da Europa.

Já aos 71 anos, no ano de 1915 José Carlos Rodrigues passou sua parte na Rodrigues & Cia., majoritária, para Antônio Ferreira Botelho, antigo funcionário do jornal. Este, por sua vez, se manteve à frente do Jornal do Commercio até passar sua parte da propriedade a outra personalidade da casa, já conhecida na vida pública, que até então assinava como redator-chefe. A partir de 1923, então, o já senador pelo Piauí Félix Pacheco se encontrava na propriedade e na direção do Jornal do Commercio, com Tobias Monteiro sendo secretário de redação. Sendo Pacheco influente não só na política e no jornalismo, mas também na esfera literária, a partir de então seu jornal estreitou laços com a Academia Brasileira de Letras, da qual o diretor pertencia desde 1912. Em 1902, Pacheco já havia se destacado como responsável pela introdução da identificação datiloscópica no Brasil pela fundação do Gabinete de Identificação e Estatística da Polícia do Distrito Federal, que em 1941 seria rebatizado com o nome de Instituto Félix Pacheco.

Por um curto período, Félix Pacheco assumira como ministro das Relações Exteriores do governo de Arthur Bernardes, tendo, para tal, renunciado a seu mandato como senador e ao cargo de direção do Jornal do Commercio. Com a posse de Washington Luís em 16 de novembro de 1926, no entanto, o dono do jornal deixou seu cargo público, reassumindo a folha diária. Nas eleições de 1927, as tradicionais articulações da República Velha, oligárquica, se fariam sentir na carreira de Pacheco: determinações nascidas na política paulista frustraram-no de assumir novamente seu mandato de senador. O presidente da República decidira favorecer, no pleito, o marechal Pires Ferreira, que, embora fosse representante da oligarquia piauiense, era ligado a políticos paulistas. O episódio, afinal, se refletiria na tendência político-partidária que seria adotada pelo diário de Pacheco, logo em seguida. Mas, independentemente do que acontecia na política brasileira, 1927 foi o ano do centenário do Jornal do Commercio, comemorado em grande estilo: uma edição especial do diário, que reunia frutos de pesquisas realizadas sobre o mesmo e registrava a certidão de nascimento da folha. Já em 1917, antes de assumir a propriedade, Félix Pacheco dava sinais de carinho ao periódico, publicando um livro sobre Pierre Plancher e tendo se tornado, desde a ocasião, interessado no estudo sobre a história do periódico.

Quando políticos da situação de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba articularam a Aliança Liberal ao fim do governo Washington Luís, propondo a candidatura de Getúlio Vargas à presidência da República nas eleições de 1930, o Jornal do Commercio passou a dar sinais de que romperia mais uma vez com sua longa tradição governista, para seguir em apoio à oposição. Nesse ano o diário publicou uma entrevista com o ex-presidente Epitácio Pessoa, onde o mesmo sugeria que Júlio Prestes, o candidato apoiado pela situação, e Vargas se afastassem do pleito, para que um terceiro nome, escolhido em comum acordo pelas correntes antagônicas que disputavam o poder, pudesse se lançar, e, por fim, realizar um governo de conciliação nacional. Com a rejeição da proposta, Epitácio Pessoa passou a publicar artigos regularmente no Jornal do Commercio, atacando duramente o governo. Deixando enfim O Paiz praticamente isolado na defesa da situação, a atitude do periódico era suficiente para mostrar que o quadro político de então estava em situação delicada. Seguindo o rumo dos acontecimentos, a folha de Félix Pacheco deu todo apoio ao movimento revolucionário que depôs Washington Luís e frustrou a posse de Prestes, que tinha vencido nas urnas em meio a acusações de fraude, aplaudindo a reviravolta em sua edição de 25 de outubro de 1930.

O Jornal do Commercio deu suporte ao governo provisório instaurado após a Revolução de 1930, para em seguida apoiar o governo de Getúlio Vargas. No entanto, a folha viu legitimidade na Revolução Constitucionalista de 1932, ocorrida em São Paulo, conclamando o restabelecimento da ordem sem, no entanto, culpar a situação. Félix Pacheco mantinha o antigo matutino na sua postura de governismo apoiando Vargas mesmo em 1935, ocasião em que diversos jornais brasileiros protestaram contra o anteprojeto da Lei de Segurança Nacional, deixando de circular por 24 horas – o Jornal do Commercio, então, circulou normalmente, mostrando que não fazia oposição direta à medida.

A morte de Félix Pacheco ao fim de 1935 fez com que Dora Pacheco, esposa do falecido, entregasse a batuta da empresa ao redator-chefe do Jornal do Commercio, um jornalista que ali trabalhava desde 1909: Elmano Cardim. Cinco anos depois, tendo recebido da viúva metade das ações controladoras do empreendimento, Cardim passou a figurar como sócio da editora do matutino, encabeçando-a por sua participação majoritária na sociedade cotista. Antes disso, no plano político, o novo proprietário já tinha noção de que tempos turbulentos se aproximavam: poucos dias antes do golpe de novembro de 1937, as tradicionais seções “No Senado” e “Na Câmara” foram suspensas do jornal. O periódico passou a ter problemas com a censura do Estado Novo – a ponto de Cardim ser um dos signatários, entre outros donos de jornais cariocas, de um manifesto endereçado a Vargas, pedindo providências frente aos assédios, ameaças e violências. Paradoxalmente, o Jornal do Commercio não era exatamente um órgão de oposição. Segundo Nelson Werneck Sodré, valendo-se de um depoimento de Sobral Pinto, redatores defensores do governo criavam polêmicas com o restante da imprensa em escritos publicados no Jornal do Commercio para, em seguida, recorrerem ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgãos governamentais de censura e repressão política, para que silenciassem seus opositores (p. 385).

Dada a delicada situação em meio à ditadura imposta por Vargas, restava ao jornal de Cardim, assim como à boa parte da imprensa brasileira, a reprodução de pronunciamentos oficiais e a cobertura da Segunda Guerra Mundial. Quanto ao conflito, o antigo diário se opôs às potências do Eixo, aplaudindo o rompimento das relações diplomáticas do Brasil com a Alemanha em 28 de janeiro de 1942, depois do torpedeamento de navios mercantes brasileiros por submarinos do regime nazista. O noticiário internacional, então, tomou conta de tal forma do Jornal do Commercio – ao passo que a histórica cautela da folha mais uma vez se mostrava presente – que a notícia da queda de Getúlio Vargas foi publicada apenas na quarta página da edição de 30 de outubro de 1945, sem qualquer chamada de capa.

Em verdade, além de o Estado Novo ter enfraquecido o Jornal do Commercio, Elmano Cardim contribuiu para o declínio do matutino, à época, ao não modernizá-lo: insistia no grande formato e no estilo presentes ali desde a República Velha, com redatores escrevendo à mão e enviando longas tiras de papel às impressoras. Apesar de o periódico continuar no gosto do empresariado de então, seus concorrentes, no entanto, faziam o caminho inverso, conquistando leitores e, portanto, espaço no mercado editorial. Cardim estendeu a situação por mais de dez anos, minguando a circulação do jornal até vender, em 1957, o controle acionário da empresa ao político e jurista Francisco Clementino de San Tiago Dantas, então deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e presidente da Comissão Jurídica Internacional.

Apesar das preocupações de seu partido com as classes operárias, o novo dono julgava que, apesar do prestígio perdido, o Jornal do Commercio ainda atraía a atenção das elites, na sua opinião agentes desnorteados, carentes de explicações sobre os rumos brasileiros no pós-guerra. Com Otávio Tirso de Andrade assumindo como diretor-adjunto da empresa editora, Aluísio Sales como vice-presidente, Miguel Lins como tesoureiro e Felipe Quental como superintendente-adjunto, San Tiago Dantas colocou Luís Paulistano na chefia da redação do matutino – e máquinas de escrever foram enfim compradas. Everardo Guilhon, no cargo de secretário de redação, arrebanhou novos nomes para a lista de colaboradores, nesta nova fase do periódico: Sérgio Porto, Carlos Castelo Branco, Lúcio Rangel, Fernando Lara Resende, Heráclio Sales, Murilo Melo Filho, Nadir Pereira e Pedro Gomes. Nessa época, os editoriais, as “Várias” que davam o tom político da folha, eram normalmente de autoria de San Tiago Dantas, quando não redigidos por Caio de Freitas e Emanuel de Morais sob a orientação do proprietário, mas em certas ocasiões foram escritos por Roberto Campos.

Havia uma contradição no caráter político do Jornal do Commercio, nesse período. O compromisso de San Tiago Dantas com o trabalhismo petebista contrastava com o viés de liberalismo econômico do matutino, verdadeiro ícone capitalista no jornalismo brasileiro, visto por parte da esquerda como integrante da imprensa “entreguista”. Isso fez com que o jornal definisse uma linha política nacionalista, defendendo, por exemplo, o monopólio estatal do petróleo e a Petrobras, bem como o deslocamento da capital com a construção de Brasília. De qualquer forma, enfim o Jornal do Commercio se modernizara: havia fortalecido o que tinha de mais forte, seu noticiário econômico. Além disso, revitalizou suas manchetes, deu nova roupagem ao discurso da seção política, começou a publicar fotografias e passou a contar com um caderno esportivo, que tinha um suplemento semanal sobre turfe, e uma seção feminina. Um dos maiores esforços de Dantas nesse sentido foi a aquisição de um novo prédio para a instalação da redação e das novas impressoras rotativas do diário, importadas dos Estados Unidos. No entanto, a 1º de outubro de 1958, um incêndio destruiu parte das instalações e da nova sede do Jornal do Commercio, que teve que transferir redação e oficinas para o nº 106 da Rua do Livramento. O sinistro acabou fazendo com que o matutino, enfim, mudasse novamente de proprietário.

Na data de 2 de abril de 1959 o Jornal do Commercio foi vendido a alguém que desde a juventude queria possuí-lo: Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello. Nessa condição, o vetusto órgão passou a integrar os Diários Associados, a primeira rede de comunicação brasileira, que, em seu auge, contabilizaria 36 jornais, 18 revistas, 36 rádios e 18 emissoras de televisão, dentre as quais, a TV Tupi. Às portas da década de 1960 a rede estava longe de seu ápice, quando, sobretudo nas décadas de 1940 e 1950, influenciava a opinião pública nacional de acordo com as predileções políticas de seu proprietário. Até o término do governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira na República os Associados recebiam verbas públicas, algo que, a partir de então, não se repetiria. Meses depois da compra do Jornal do Commercio, ao final do mandato de JK, em 21 de setembro de 1959, Chateaubriand, pensando no futuro de sua cadeia, criou o Condomínio Acionário dos Diários Associados, modelo de gestão então inédito no Brasil, formado por 22 condôminos responsáveis pela perenidade dos órgãos da rede sem, no entanto, firmarem-se como donos. A medida veio a tempo: logo em 1960 Chateaubriand sofreu um derrame cerebral que o afastou definitivamente da direção de seus órgãos.

Integrado aos Associados sob a direção de Carlos Rizzini, então instalado no nº 103 da Rua Sacadura Cabral, o Jornal do Commercio, ao gosto das inclinações de seu novo dono, retornou à sua linha conservadora. A ênfase no noticiário econômico, voltada a captar leitores do empresariado carioca, foi mantida. No entanto, e ainda mais porque pertencesse então a Assis Chateaubriand, não se pode dizer que o diário tenha sido apolítico. Para o pleito à presidência de 1960 os Associados escolheram apoiar o marechal Henrique Teixeira Lott, mas, com a vitória de Jânio Quadros, o novo presidente eleito passou a sofrer a oposição de toda a cadeia de Chateaubriand, que, apesar de tetraplégico e de se comunicar com dificuldades, ainda dava o tom político de suas empresas de mídia. A combatividade a Quadros se deu de tal forma que, apesar do clima de anticomunismo típico do contexto de Guerra Fria, os Associados chegaram a aplaudir a posse de João Goulart à renúncia de Jânio, em agosto de 1961 – um apoio que, todavia, justamente pela proximidade de Jango com setores da esquerda, durou pouco. Durante o novo governo, todos os Associados foram órgãos de oposição, culminando no apoio que dariam ao golpe militar que depôs Goulart em 1º de abril de 1964.

No momento em que iniciara a ditadura militar o Jornal do Commercio estava sob a direção de Moacir Padilha, responsável por manter uma linha totalmente pró-governo. No entanto, os Associados não viviam bom momento. A influência de Chateaubriand na cúpula da política nacional decaía; embora pretendesse se beneficiar do governo militar, o espaço que ocupara se abria a seus concorrentes diretos, empresários de mídia em franca ascensão tanto no sentido financeiro como no de influência política junto ao regime, como Roberto Marinho. Quanto a isso, aliás, um episódio entre Chateaubriand e o presidente Humberto Castelo Branco não ajudou: o empresário havia idealizado e ordenado seus órgãos a promover uma campanha chamada “Dê ouro para o bem do Brasil”, visando sanar os problemas financeiros da nação. Como o valor angariado permanecera sob custódia do governo, em certo momento, Chateaubriand pedira ao presidente que lhe fosse entregue o montante, para que os Associados pudessem realizar uma “obra de interesse nacional”. Castelo Branco acabou recusando o pedido, fomentando certa antipatia por parte dos Associados.

A morte de Assis Chateaubriand em 4 de abril de 1968 aprofundou a crise sobre os Diários Associados. Até então, somente a revista O Cruzeiro, principal órgão dos Associados, acumulava anualmente um prejuízo de 340 milhões de cruzeiros. Por conta da situação, parte do patrimônio da rede teve que ser vendida, para tampar o rombo. Deu-se então a venda de uma das empresas mais lucrativas do grupo: o ramo brasileiro do laboratório farmacêutico alemão Schering, que acabou sendo comprado pela empresa congênere americana. A “torra” do laboratório em face às dívidas, que consumiram, na mesma ocasião, ainda outras propriedades de Chateaubriand, acabou gerando uma desavença no círculo diretor dos Associados. Em verdade, essa situação havia começado nove anos antes, quando da instituição do Condomínio Associado. Gilberto Chateaubriand, filho do criador da cadeia, que, como seus irmãos, nunca se dera bem com o pai, era contra a venda da Schering, acusando o presidente dos Diários Associados, João Calmon, figura de confiança do antigo dono da rede, de tirar proveito da transação.

Com a crise, a redação do Jornal do Commercio, então dirigida por Nélson Dimas Filho, teve que ser realocada para a sede de O Cruzeiro, o prédio de arquitetura moderna projetado por Oscar Niemeyer no nº 189 da Rua do Livramento. Ali, na verdade, tiveram que ser reunidos outros Associados cariocas, como o Diário Mercantil e a Rádio Tupi, e todas essas empresas continuaram ali após a extinção da revista pela rede, em 1975.

Depois de Nélson Dimas Filho, Álvaro Costa esteve na direção do Jornal do Commercio, no período entre 1970 e 1974. José Chamilete então assumiu por um curto período, até que em 1975 Ibanor Tartarotti, que já havia ocupado cargos de direção em diversos Diários Associados pelo país, na condição de antigo colaborador de Chateaubriand, passou a gerir a tradicional folha econômica como seu diretor-superintendente. Posteriormente, dirigiram Hideo Onaga e Aluísio Biondi. Ao adentrar a década de 1980, o Condomínio Associado colocou Austregésilo de Athayde na presidência do Jornal do Commercio, mantendo Tartarotti como diretor-superintendente. Na ocasião, Aziz Ahmed passou a ser o editor-geral, secretariado por Antônio Calegari.

Athayde morreu em 1993, deixando a presidência do matutino a Ibanor Tartarotti. Nesse ano, em 9 de fevereiro, o jornal havia lançado o caderno “Seu Dinheiro”, de destaque em sua linha editorial, voltado à publicação de reportagens e matérias da área de economia e finanças – no futuro, esse caderno seria fundido com outro, o “Indicadores”, que funcionava desde 1º de outubro de 1991 divulgando índices das economias nacional e internacionais, em 12 páginas. O Jornal do Commercio, bem ou mal, tinha então certa estabilidade: tanto que em 1995 tentou ampliar seu noticiário, buscando englobar pautas além da estritamente econômica, para conquistar novos leitores e tornar-se mais competitivo no Rio de Janeiro. O projeto, no entanto, não vingou, e em 1997, com nova identidade visual, e sob a direção de Antônio Calegari, o Jornal do Commercio mais uma vez se voltava ao seu público original: o empresariado e setores públicos voltados à economia, cobrindo os planos do comércio, da indústria e do mercado financeiro.

No final da década de 1990, Tartarotti ainda era o presidente do matutino, com Maurício Dinepi como vice. Enquanto Calegari mantinha-se na direção de redação, José Chamilete e Genilson Gonzaga eram, respectivamente, o diretor-responsável e o diretor-secretário. Mais de quinze anos depois, Dinepi ocupa a presidência, com Evaristo de Oliveira como vice-presidente executivo e Solon de Lucena como vice-presidente institucional.

O Jornal do Commercio atualmente tem sede nos números 114/120 da Rua Fonseca Teles, no bairro de São Cristóvão. Contando com colunistas como Marcia Peltier, Paulo Guimarães, Alon Feuerwerker, Luiz Carlos Azedo, Fernando Calmon, Sônia Moraes, Dad Squarisi e porta-vozes da Associação Brasileira de Agências de Publicidade (ABAP), entre colaboradores diversos, é dividido pelas editorias “Economia”, “Empresas”, “Seu Dinheiro”, “País”, “Direito & Justiça”, “Tecnologia”, “Mundo” e “Opinião”, além de apresentar indicadores de bolsas de valores e noticiários gerais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Fontes:

- Diários Associados. Jornal do Commercio (RJ). Disponível em: http://www.diariosassociados.com.br/home/veiculos.php?co_veiculo=35. Acesso em 16 jul. 2015.

- LEAL, Carlos Eduardo; SANDRONI, Cícero. Jornal do Comércio. In: ABREU, Alzira Alves et al. (Coord.) Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. Rio de Janeiro: Editora FGV; CPDOC, 2001. Vol. 3.

- MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

- SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.