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Literatura | A Escrita e a Reescrita de Balzac

29 nov 2020

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Enquanto, na Alemanha, o Romantismo dava seus primeiros passos através da revista Athenaeum (1798 – 1800), oferecendo um contraponto transcendente ao culto da Deusa Razão, a mesma França na qual se originara o Iluminismo via nascer aquele que seria um dos maiores escritores de todos os tempos: Honoré de Balzac.

Filho de um funcionário público, originalmente chamado Balssa – o pai trocara o sobrenome por outro mais “aristocrático” --, Balzac nasceu em Tours a 20 de maio de 1799. Com a queda de Napoleão, sua família se mudou para Paris, e em 1816 o jovem Honoré entrou para a Sorbonne.

Três anos mais tarde, começou a trabalhar no escritório de um advogado, ao mesmo tempo que produzia seus primeiros trabalhos literários: peças teatrais. Não teve sucesso, mas, enquanto procurava sobreviver com uma mesada minguada, começou a escrever romances destinados ao consumo popular – alguns históricos, outros humorísticos --, que eram publicados sob pseudônimo. Adquiriu, assim, a disciplina necessária para trabalhar sob pressão e produzir grandes quantidades de texto, o que lhe possibilitaria, anos depois, empreender a tarefa monumental que o imortalizou entre os grandes da Literatura.

Em meados da década de 1820, Balzac se aventurou num empreendimento editorial: tornou-se editor, impressor e proprietário de uma fábrica de tipos para impressão, comprada de Joseph-Gaspard Gillé em 1827. Foi um retumbante fracasso, que o deixou com uma dívida de aproximadamente 60.000 francos; pelo resto da vida ele estaria em apuros no que toca ao aspecto financeiro. A experiência, contudo, não se perdeu, pois foi registrada no romance “Ilusões Perdidas” (1837), um dos mais conhecidos de Balzac, no qual um dos protagonistas é um pequeno impressor no interior da França.

De volta à vida literária, Balzac publicou os primeiros romances que saíram com seu nome: as novelas “Les Chouans” e “Fisiologia do Casamento” (1829) e o romance “El Verdugo”, que apareceu na revista “La Mode” em 1930 e como livro no ano seguinte. No mesmo ano saiu a coletânea de contos longos “Cenas da Vida Privada”. Nessa época, Balzac se tornou muito afeito à vida da sociedade parisiense; frequentava festas e salões, teve casos amorosos e adotou para seu nome a partícula “de”, indicativo de nobreza. Ao mesmo tempo, trabalhava incessantemente em seus escritos: cerca de 14 a 16 horas por dia, segundo seus biógrafos, metido numa camisa de dormir e tomando xícara após xícara de café. Seu método era escrever um primeiro rascunho da obra que, depois, ia expandindo e ramificando com novas cenas e personagens; isso não seria um problema se fosse feito durante a fase dos manuscritos, mas Balzac reescrevia quando as obras já estavam prontas para a impressão, o que criava novos débitos com as oficinas.

Entre 1832 e 1835, Honoré de Balzac escreveu mais de vinte novelas, entre as quais as obras-primas “Eugênia Grandet” (1833) e “O Pai Goriot” (1834). Já tinha, então, o intuito de reuni-las num trabalho maior que, em princípio, dividiu em três categorias: “Estudos de maneiras”, “Estudos analíticos” e “Estudos filosóficos”. A ideia era fornecer, por meio da Literatura, um vasto panorama do que era a sociedade francesa, com seus costumes, sua mentalidade e mesmo as motivações por trás de seus atos. De fato o escritor se mostrou um excelente observador da natureza humana, que retratou com um espírito ao mesmo tempo científico e filosófico sem, contudo, deixar de lado a condição primordial que caracteriza as grandes obras literárias: contar uma boa história, que envolva seus leitores e deixe marcas em sua memória intelectual e afetiva.

O primeiro título atribuído por Balzac à sua obra foi “Estudos Sociais”. Consta que um admirador inglês, Henry Reeve, teria proposto chamá-la de “A Diabólica Comédia do Senhor de Balzac”, como contraponto à “Divina Comédia” de Dante; a ideia permaneceu até que o autor optasse por “A Comédia Humana”, sugestão de um amigo que regressara da Itália. Entre 1841 e 1848, suas obras completas, em 17 volumes, foram publicadas já com esse título, por quatro editores associados: Furne, Dubochet, Hetzel e Paulin. Balzac começou a preparar uma nova edição em 1845, com 26 volumes previstos, que incorporariam novas obras, mas não teve tempo de completá-la; muito doente, e menos de um ano após ter se casado com seu amor de quase duas décadas, a polonesa Ewelina Hanska, o escritor faleceu a 18 de agosto de 1850.

Em 1942, o escritor austríaco Stefan Zweig doou à Biblioteca Nacional uma carta original de Honoré de Balzac a um certo Sr. Casimir, na qual o escritor solicita as provas tipográficas de seu livro “Melmoth Apaziguado” (1835). O original está na Divisão de Manuscritos e foi digitalizado, podendo ser visto aqui.

A mesma doação incluiu um exemplo do que Balzac era capaz de fazer com uma prova tipográfica, praticamente reescrevendo todo aquele trecho.

A “Comédia Humana” reúne quase a totalidade da obra de Balzac: 95 trabalhos completos e mais de 40 inacabados, incluindo vários romances mundialmente conhecidos. Nesse conjunto extraordinário, o escritor dá vida e confere profundidade a mais de 2.000 personagens, que podem se entrecruzar ao longo de diferentes romances. Pelo retrato preciso que faz da sociedade e seus costumes, Honoré de Balzac é considerado o fundador do Realismo na França, além de ter contribuído para moldar as formas narrativas do romance como gênero literário.



Ilustração do conto “La Transaction”, de Balzac, publicado em fascículos em 1832 e republicado em 1844 com o título “O Coronel Chabert”. Litogravura pertencente à Divisão de Iconografia.