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Memória | O lugar da Biblioteca Nacional na vida intelectual brasileira

29 out 2020

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"A biblioteca é para o homem de letras o jardim de delícias"
(Ramiz Galvão)

"Descobri a Biblioteca Nacional, para onde muitas
vezes fui, cheio de fome, ler Maupassant e Daudet."
(Lima Barreto, Recordações do Escrivão Isaías Caminha)

29 de outubro de 1810. "Havendo criado por Decreto de 27 de junho do presente anno, que nas casas do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, situado à minha Real Capella, se collocassem a minha Real biblioteca e gabinete dos instrumentos de physica e mathematica, vindos ultimamente de Lisboa; constando-me pelas últimas averiguações a que mandei proceder, que o dito edifício não tem toda a luz necessária, nem offerece os commodos indispesaveis em hum estabelecimento desta natureza, e que no lugar que havia servido de catacumbas aos religiosos do Carmo se podia fazer uma mais propria e decente acommodação para a dita livraria, hei por bem, revogando o mencionado pelo Real Decreto de 27 de junho, determinar que nas ditas catacumbas se erija e accomode a minha Real bibliotheca e instrumentos de physica e mathematica, fasendo-se a custa da Real Fazenda toda a destreza conducente ao arranjamento e manutanção do referido estabelecimento." Assinado: Dom João VI. Estava criada a Biblioteca Nacional, futuro monumento da cultura brasileira e casa da inteligência nacional.

Sua origem, contudo, foi a Livraria que D. José, rei de Portugal, mandara organizar em substituição à Real Biblioteca da Ajuda, fundada no século XV e destruída a 1º de novembro de 1755, durante o terremoto de Lisboa. Esse primitivo acervo, ainda em Portugal, foi enriquecido com as preciosas peças de uma coleção de quase 6 mil volumes, doados ao rei pelo bibliófilo Diogo Barbosa Machado, e também pelas coleções do Colégio de Todos os Santos, da ilha de São Miguel dos Açores e grande parte da Biblioteca do Infantado. Foi em 1808 que D. João VI trouxe esse tesouro para o Brasil.

O valioso acervo trazido para o Brasil foi inicialmente acomodado numa das salas do Hospital do Convento da Ordem Terceira do Carmo, na Rua Direita, hoje Rua Primeiro de Março. Já o atual prédio sede da Biblioteca Nacional teve sua pedra fundamental lançada em 15 de agosto de 1905 e foi inaugurado cinco anos depois, em 29 de agosto de 1910. Lá, nesse prédio, Lima Barreto passava as tardes, dedicando-se à leitura dos grandes nomes da literatura mundial.

Guardiã da história bibliográfica do Brasil, a Biblioteca Nacional está aberta a todos os campos do conhecimento e culturas, constituindo-se em amplo teatro e testemunho do mundo. No salão principal de leitura, muitos escritores como Josué Montello e José Honório Rodrigues elaboraram muitas de suas obras. Carlos Drummond de Andrade era visto quase todas as tardes, lendo revistas antigas, para identificar pseudônimos literários. O ensaísta Brito Broca era um frequentador quase diário, do mesmo modo que Herman Lima, empenhado no levantamento da história da caricatura no Brasil (http://memoria.bn.br/docreader/004120/47956).

Em homenagem à Biblioteca Nacional, é celebrado inclusive o Dia Nacional do Livro em todo o Brasil, data consagrada pela Lei nº 5191, de 18 de dezembro de 1966. A iniciativa visa a formação de público leitor e incentiva a busca pelo conhecimento. Celebração muito acertada. Através do livro chegamos ao aprimoramento intelectual. É justo, pois, que comemoremos o aniversário da Biblioteca Nacional do Brasil e o Dia Nacional do Livro no mesmo dia.

“Mãe” natural das bibliotecas do Brasil, principal “casa” do livro, a Biblioteca Nacional também foi a sede do antigo Instituto Nacional do Livro (INL), criado em 1937. As ações perpetradas pelo Instituto sob responsabilidade do Ministério da Educação e Saúde Pública na administração de Gustavo Capanema, enfatizava os projetos formativos de Augusto Meyer, Mário de Andrade e de Sérgio Buarque de Holanda. A intelectualidade que girava em torno do INL estava dentro da Biblioteca.

Em 1987, foi instituída a Fundação Pró-Leitura no âmbito do Ministério da Cultura, reunindo o Instituto à Biblioteca Nacional, ambos sob a tutela da mesma Fundação. Nada foi alterado na Lei de 1937 que criou o INL. No ano de 1990, a Biblioteca Nacional do Brasil foi transformada em fundação de direito público. Passou a ser chamada oficialmente de Fundação Biblioteca Nacional e acabou se tornando herdeira do Instituto Nacional do Livro (INL), extinto no mesmo ano. Com o fim do INL, foi criado, em 1992, o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), para executar as políticas de leitura, difusão do livro e sistema de bibliotecas. O SNBP, bem como o Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER), e, desde 2012, a Diretoria do Livro, Leitura e Literatura e Bibliotecas (DLLLB), funcionavam dentro da Biblioteca Nacional até o ano de 2014.

É importante que os investigadores se deem conta do valor do acervo da Biblioteca Nacional, bem como das potencialidades que ele representa para a vida intelectual brasileira. Lugar da memória nacional, espaço de conservação do patrimônio intelectual, literário e artístico, a Biblioteca Nacional é também um lugar de diálogo com o passado, de criação e inovação. A conservação só tem sentido como fermento dos saberes e motor de novos conhecimentos, a serviço da coletividade inteira.


Sobre os 200 anos da Biblioteca Nacional

Confira, também, o estatuto da Real Biblioteca, publicado em 1821, que abrange as normas a serem seguidas na instituição, após sua transferência para o Rio de Janeiro

O que se deve saber sobre a Biblioteca Nacional