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O Conciliador do Reino Unido

16 Nov 2017

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e marcado com as tags Conservadorismo, Crítica política, Dom Pedro I, Imprensa Áulica, Imprensa Régia, José da Silva Lisboa, Primeiro Reinado

Lançado a 1º de março de 1821, no Rio de Janeiro (RJ), O Conciliador do Reino Unido foi um efêmero panfleto periódico conservador, voltado à questão da cisão entre o Brasil colonial e a metrópole portuguesa. Destacando a grandeza lusitana em versos de Camões, em epígrafe, seu redator era o baiano José da Silva Lisboa, futuro visconde de Cairú, que durante o Primeiro Reinado foi um dos mais destacados – se não o maior, certamente o mais prolífico – editores de pasquins efêmeros a favor do imperador, periódicos panfletários absolutistas que mantiveram, até o Período Regencial, certa continuidade tanto pelas ideias que pregavam quanto pela uniformidade no estilo de escrita. Tendo defendido a permanência do príncipe regente no Brasil, contra a recomendação de seu pai, Dom João VI, de que voltasse a Portugal, Silva Lisboa influiu no estabelecimento de Pedro de Alcântara como monarca e no próprio processo de Independência, apesar do tom “conciliador” de seu periódico. Isso se dava não só através das páginas d’O Conciliador do Reino Unido, mas também do folheto intitulado Despertador Brasiliense, que, editado por Silva Lisboa anonimamente, era mais explícito na defesa da permanência do príncipe no Brasil e instigador da desobediência às ordens das Cortes de Lisboa, acusando Portugal de alimentar a discórdia. O Conciliador, todavia, foi o órgão que inaugurou a carreira do Silva Lisboa publicista, feito que o tornou o primeiro brasileiro a redigir e publicar no Brasil um jornal privado, através da única tipografia existente no país, a Impressão Régia, onde era diretor – antes disso já havia sido o autor de Observações sobre o comércio franco no Brasil, o primeiro livro impresso no país. Como começou a ser editado quando a proibição de impressos fora da Impressão Régia ainda estava em vigor, O Conciliador saiu sob a marca da mesma, “Com licença”, sendo impresso ali até seu fim, na edição nº 7, de 21 de abril de 1821.

Silva Lisboa sempre teve grande prestígio frente ao trono, no que se tratava de sua oratória – a ponto de ter sido personagem decisivo na história brasileira. Inspirador da Carta Régia que permitiu a abertura dos portos de 1808 e figura-chave durante a Independência, repudiava o liberalismo quando, entre 1808 e 1821, apenas impressos da Impressão Régia tinham permissão de circular. Esta era, aliás, dirigida por uma junta composta por Silva Lisboa, José Bernardes de Castro (oficial da Secretaria de Estrangeiros e de Guerra) e Mariano José Pereira da Fonseca: o trio deveria se certificar de que nada atentando contra a religião, o governo ou os “bons costumes” fosse impresso. Para tanto, contavam com o exame prévio dos censores reais: o frei Antônio de Arrábida, o padre João Manzoni, Carvalho e Mello e o próprio Silva Lisboa.

N’O Conciliador do Reino Unido, com muita agressividade, Silva Lisboa polemizou com inúmeras figuras da imprensa de sua época, a maior parte de fé liberal: João Soares Lisboa, redator do Correio do Rio de Janeiro; Cipriano Barata, da Sentinella da Liberdade; Gonçalves Ledo, do Revérbero Constitucional Fluminense, e, naturalmente, José Bonifácio de Andrada. Defensor da censura à imprensa e da soberania imperial para remediar quaisquer desordens sociais, diversos foram os nomes que o apontaram como bajulador, adulador do poder. Isabel Lustosa, no entanto, em “Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (1821-1823)”, aponta que alguns dos artigos que Silva Lisboa publicava eram verdadeiros tratados voltados à instrução popular no tema da política (p. 25/26).

Após o Fico de Dom Pedro I, Silva Lisboa se embrenhou em sua defesa, especialmente através dos panfletos Reclamação do Brasil, AtalaiaTriumpho da Legalidade Contra Facção de Anarquistas e Honra do Brasil Desafrontada de Insultos da Astréa Espadaxina. Outro de seus periódicos, Heroicidade Brasileira, foi o primeiro periódico apreendido da história da imprensa brasileira: Dom Pedro havia julgado desnecessários os ataques a portugueses ali, quando Silva Lisboa, anonimamente, comentava a expulsão das tropas portuguesas do general Jorge de Avilez Zuzarte de Sousa Tavares da Bahia, em 1822. A medida, embora irônica, já que Silva Lisboa era ferrenho defensor da censura e tanto havia apoiado o monarca, recebeu a solidariedade de alguns dos liberais que se oponham ao publicista conservador, na imprensa.

Fontes:

– Acervo: edições do nº 1, de 1º de março de 1821, ao nº 7, de 21 de abril de 1821.

– LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (1821-1823). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

– MOLINA, Matías M. História dos jornais no Brasil: da era colonial à Regência (1500 – 1840) v. 1. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.