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O Noticiador – Jornal polit., litt., e merc.

29 Nov 2016

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Abolicionismo, Censura e repressão, Comércio, Crítica política, Liberalismo, Maçonaria, Monarquismo, Período Regencial, Revolução Farroupilha, Rio Grande do Sul

Fundado no município de Rio Grande (RS), quando ainda Vila do Rio Grande do Sul, O Noticiador veio a lume por iniciativa do farmacêutico maçom Francisco Xavier Ferreira, também conhecido como “Chico da Botica”, tendo iniciado sua circulação em 3 de janeiro de 1832. É a publicação pioneira no interior da Província de São Pedro, como se chamava, à época, o Rio Grande do Sul. Era impresso na tipografia que Chico da Botica possuía no Beco do Rasgado, mudando-se posteriormente para a Rua Direita. Com linha editorial crítica e opinativa, defensora e divulgadora da política liberal durante os primeiros momentos do Período Regencial, O Noticiador apontava com clareza os erros da Regência, denunciando a política “caramuru”, conforme eram reconhecidos os conservadores que pretendiam restaurar Dom Pedro I – e portanto o absolutismo – ao trono. Adepto da monarquia constitucional, Chico da Botica destacou-se através da maçonaria e das páginas de O Noticiador, em atuação política que lhe rendeu cargos como a o da presidência da Assembléia Provincial. O editor participou ainda dos movimentos que deram origem à Revolução Farroupilha e foi o responsável pela construção do primeiro hospital público da cidade de Rio Grande. Seu jornal figurou, afinal, como um dos cinco periódicos de maior influência na província, tendo sido ainda a primeira folha abolicionista da imprensa colonial gaúcha. Mas como boa parte da imprensa colonial, O Noticiador não teve vida longa: não passou de 5 anos, deixando de circular em sua 388ª edição, do dia 9 de fevereiro de 1836. Em seu último número, nada indicava o fim da publicação.

O primeiro redator de O Noticiador foi o médico Guilherme José Corrêa, que, por não cumprir satisfatoriamente com suas funções, acabou sendo afastado da redação em 13 de março de 1832 – o que interrompeu a circulação do periódico por 11 dias. O cargo foi então ocupado pelo próprio fundador do jornal a partir de sua 31ª edição, em 27 de abril de 1832. Também colaborou com a redação do jornal Bernardo José Veigas, até o seu assassinato, em 3 de outubro de 1833.

O Noticiador possuía o formato padrão da imprensa da época, de aproximadamente 29,3 x 19,3 cm. Com apenas quatro páginas e periodicidade bissemanal, o periódico circulava às terças e às quintas-feiras (mas depois do número 50 veio a circular às segundas e quintas-feiras). Eventualmente lançava edições especiais. Na sua 1ª página trazia cabeçalho, expediente, epígrafe, entre outras notas; nas páginas centrais, 2ª e 3ª, publicava textos sobre política, legislação, ofícios, decretos, ciência, justiça, comentários gerais, debates e transcrições de outros jornais. Nas suas últimas páginas, fixava informações cambiais, variedades, preços, anúncios e prestações de serviços. Custava oitenta réis o exemplar avulso e quatro mil réis a assinatura trimestral.

Na sua edição de número 215, de 8 de março de 1834, O Noticiador mudou seu cabeçalho, suprimindo o subtítulo. Depois do número 332, de 25 de maio de 1835, a numeração sofreu uma mudança, possivelmente um erro, marcando a edição seguinte, já de 1º de junho, como 233. Esse erro perdurou até a edição de 20 de julho daquele ano, que está numerada como 244, no que deveria ser 344; a edição seguinte, todavia, já aparece como 345.

A publicação de O Noticiador foi suspensa momentaneamente em 17 de novembro de 1835, na sua 376ª edição, pela ida de Chico da Botica a Porto Alegre, para cumprir funções na Assembléia Legislativa Provincial – na época, era comum a ascensão dos homens da imprensa a cargos públicos, via eleição ou não, isso quando eles já não provinham da administração pública. A publicação do jornal, afinal, também acabou sendo suspensa entre 5 e 27 de outubro de 1835, por uma imposição do Presidente da Província Antônio Rodrigues Fernandes Braga, voltando a circular com a fuga do governante.

É possível que a interrupção definitiva da publicação de O Noticiador tenha ocorrido pelo sombrio clima político da época, no que tange à eclosão da Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul. Em janeiro do ano em que foi extinto, 1836, O Noticiador já mostrava sinais de cansaço: diminuíra sua periodicidade para semanal, saindo todas as terças-feiras. A prisão e de seu fundador e diretor, com a invasão das tropas legalistas à Província de São Pedro, em 15 de junho de 1836, ocorrera pouco tempo depois do fim do jornal.

Fontes:

– Coleção Recuperação e Memória da Imprensa no Rio Grande do Sul, Volume 1 – O Noticiador. Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.

– O Noticiador: primeiro jornal da Vila do Rio Grande. Jornal Agora – O jornal do Sul. Disponível em: http://edicoesanteriores.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=46&noticia=41673. Acesso em: 3 ago. 2016.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.