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O Patriota – Jornal litterario, político, mercantil, &c. do Rio de Janeiro

04 fev 2019

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Agricultura, Arte e cultura, Ciências naturais, Ciências sociais, Desenvolvimento rural, Dom João VI, Economia, Filosofia, História, Imprensa Áulica, Imprensa Régia, José Bonifácio, Literatura, Questões morais, Rio de Janeiro

Entre 1808 e 1821, quando a Corte portuguesa esteve refugiada no Brasil, a circulação de impressos que não fossem da Impressão Régia, na colônia, era proibida. Um dos poucos periódicos editados nesse momento foi O Patriota, lançado em janeiro de 1813 no Rio de Janeiro (RJ). Fundado por figuras pertencentes ao círculo intelectual de Domingos de Sousa Coutinho, o conde de Linhares, falecido um ano antes, era redigido e dirigido pelo coronel Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, considerado o primeiro jornalista brasileiro, conhecido por sua colaboração na Gazeta do Rio de Janeiro e por ter comandado, posteriormente, O Espelho e o Diário do Governo. Além de ter sido o segundo periódico literário da história da imprensa brasileira, lançado depois de As Variedades ou Ensaios de Litteratura, impresso na tipografia de Silva Serva, na Bahia, cerca de um ano antes, O Patriota é visto pela historiografia como uma publicação cultural de alto nível dentre as edições da Impressão Régia – sendo considerado por Carlos Rizzini, em “O livro, o jornal e a tipografia no Brasil”, simplesmente “a melhor publicação literária não apenas da Colônia, mas do Reino e da Regência” (p. 336/337). Além disso, o jornal foi o primeiro periódico brasileiro a contar com ilustrações. Apesar de sua ligação com a monarquia – Nelson Werneck Sodré o inclui na categoria de “imprensa áulica”, embora tenha sido mais que isso –, O Patriota acabou tendo vida curta, sendo extinto em dezembro de 1814, após lançar 18 edições. Sua periodicidade foi mensal em 1813 e bimestral em 1814, com edições contando entre 110 e 130 páginas, vendidas primeiro a 800 réis (posteriormente 1.200), na loja de Paulo Martins Filho, na Rua da Quitanda.

Publicando textos inéditos de intelectuais de sua época, O Patriota contava com colaborações de eminentes de Portugal e das colônias lusitanas na África e na Ásia, bem como de José Bonifácio de Andrada, do inconfidente Manuel Ignácio da Silva Alvarenga, de Silvestre Pinheiro Ferreira, de Borges de Barros (futuro visconde da Pedra Branca), de Mariano José Pereira da Fonseca (que viria a ser o marquês de Maricá), entre outros. Configura, portanto, importante registro das manifestações dos centros pensantes de então, além de um reflexo da remodelação sócio-política ocasionada no Brasil com a instalação da sede da monarquia no Rio de Janeiro. Todavia, O Patriota não era só literário: também tinha um lado científico. Nesse sentido, foi também uma espécie de pioneiro entre as publicações científicas brasileiras, estampando grande variedade temática em seus artigos: tratou de literatura e arte (publicando resumos comentados de obras editadas pela Impressão Régia), diplomacia, economia, história, medicina, botânica, zoologia, etc., fora seus relatos de viagens. Segundo Gondin da Fonseca, na “Biografia do jornalismo carioca (1808 – 1908)” (p. 32), temas agrícolas também foram tratados em suas páginas, e de forma magistral, já que o aprimoramento da agricultura com vistas ao desenvolvimento nacional merecia grande preocupação, à época.

Matías M. Molina, em “História dos jornais no Brasil: da era colonial à Regência (1500 – 1840)”, comenta, quanto a’O Patriota, que

Hipólito José da Costa, ao saudar seu aparecimento, comentou que dez anos antes, estando a Corte em Lisboa, ninguém se atreveria, como fez a nova folha, a dar a um jornal o nome de O Patriota nem a publicar a Henriada de Voltaire, um “dos livros que se não podiam ler sem correr o risco de passar por ateu, pelo menos por jacobino”. Acrescentou que “temos agora que em tão curto espaço já se assenta que o povo do Brasil pode ler a Henriada e pode ter um jornal com o título de Patriota, termo que estava proscrito como um dos que tinham cunho revolucionário (...) nós julgamos isto matéria de importância”. Era um indício, em sua opinião, de que já não se olhava para as ideias de melhoramento das instituições públicas como tendentes à anarquia, em vez de servir à grandeza do governo. (p. 171)


Fontes:
- Acervo: edições do nº 1, de 1º de outubro de 1821, ao nº 168, de 27 de junho de 1823.
- MOLINA, Matías M. História dos jornais no Brasil: da era colonial à Regência (1500 – 1840) v. 1. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
- SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.