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O Spectador Brasileiro

14 Nov 2017

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e marcado com as tags Arte e cultura, Comportamento, Conservadorismo, Crítica política, Dom Pedro I, Imigração, Imprensa Áulica, Imprensa imigrante, Imprensa oficial, Moda, Pierre Plancher, Primeiro Reinado

Surgido a 28 de junho de 1824, O Spectador Brasileiro foi o primeiro jornal publicado no Brasil pelo livreiro e tipógrafo francês Pierre René François Plancher de La Noé. Tendo circulado no Rio de Janeiro (RJ), foi um órgão panfletário, polêmico, nacionalista, conservador e, sobretudo, defensor de Dom Pedro I, recém-aclamado imperador brasileiro. Tendo participado de inúmeros debates na imprensa, de acordo com as principais polêmicas nacionais do momento, posicionava-se ao lado do oficial Diario Fluminense, combatendo folhas liberais em geral, rivalizando especialmente com a Astrea. Teve como derradeira a sua edição de 23 de maio de 1827, quando, apesar de sua postura indiscutivelmente dócil à monarquia, publicou uma carta de um colaborador que foi considerada insultuosa aos integrantes da Assembleia Geral do Império ao defender, numa polêmica pontual, a figura do brigadeiro João Vieira Carvalho, então conde de Lajes e ministro da Guerra. No mesmo ano da extinção da folha, no entanto, Plancher já havia lançado, em abril, L’Independant, o primeiro jornal francófono brasileiro; a partir de outubro, ademais, o tipógrafo se engajaria na impressão do longevo Jornal do Commercio, onde deixaria de lado questões estritamente políticas para se dedicar ao tema da economia.

Fugidos de crises políticas (como a do 18 de brumário) e econômicas que assolavam a Europa e sinalizavam a América como um lugar melhor para se viver, muitos dos europeus que aportaram no Brasil tinham inclinações políticas liberais, e quase todos eram trabalhadores manuais – a exemplo de artistas e artesãos de lojas e oficinas, como Pierre Plancher. Durante o século XIX, os imigrantes franceses, particularmente, bem como os ingleses, tinham certas vantagens ao optar pela Corte brasileira: os produtos de sua nacionalidade estavam em voga; vestir-se à moda parisiense ou londrina simbolizava não apenas luxo e sofisticação, mas identificava cidadãos pertencentes a uma nova era. A expressividade que adquiriram então livrarias, lojas de roupas, restaurantes, salões de modistas, oficinas, livrarias, cabeleireiros e galerias administradas por franceses – vendendo na maior parte das vezes produtos também franceses –, como não poderia deixar de ser, se refletiu num fortalecimento do grupo imigrantes desta nacionalidade no comércio carioca. Trazendo ao Rio de Janeiro seu meio de vida, uma oficina tipográfica completa, Plancher havia começado a fase brasileira de sua carreira, segundo Nelson Werneck Sodré, “imprimindo folhinhas, leis, papeis avulsos, e vendendo na (sua) loja também livros e calendários” (p. 109). Instalado na Rua do Ouvidor, Plancher logo sentiu, no entanto, a “coceira jornalística”, vindo a publicar O Spectador Brasileiro, redigido pelo próprio tipógrafo, que assinava com a pseudônimo de Hum francês brasileiro.

No prospecto de lançamento do Spectador, intitulado “Clamor nacional dirigido aos illustres e nobres brasileiros”, onde o autor depositava toda a sua fé na monarquia constitucional, Plancher se apresentava com o sugestivo título de “impressor-livreiro de Sua Magestade Imperial”. Pouco interessado em provocar o poder local, muito pelo contrário, o editor defendeu Dom Pedro I e o processo de Independência n’O Spectador, exercendo sempre linha áulica – ao ponto de publicar diversos atos oficiais em suas páginas – ao lado de seções mais amenas, de “modes françaises”. A tendência governista (mesmo aquela menos explicitamente política, mais preocupada com assuntos comerciais) de Plancher, que se refletiria em L’Independant e no próprio Jornal do Commercio, fez ainda com que, entre 8 de abril e 20 de agosto de 1828, sua tipografia imprimisse mesmo o pasquim de polêmica política Honra do Brasil Desafrontada de Insultos da Astréa Espadaxina, assinado pelo conservador (na verdade absolutista) baiano José da Silva Lisboa, em ataque escandaloso e pontual à folha liberal de oposição Astrea.

Evaristo da Veiga, antes de fundar sua Aurora Fluminense, em 1827, apesar de liberal, chegou a escrever para o Spectador. No entanto, tal colaboração não durou muito tempo: o jornalista e futuro político distanciou-se logo do jornal, pelo caráter crescentemente governista de sua linha. À época, a folha de Plancher era apelidada da “corcunda”, gíria que se empregava aos defensores dos portugueses, normalmente apoiadores de Dom Pedro I, contra os nativistas brasileiros. Outra curiosidade a respeito d’O Spectador Brasileiro é que teria sido em suas páginas que a crítica musical teria nascido no Brasil: conforme Luís Antônio Giron, de junho de 1826 em diante, o jornal abordaria espetáculos de ópera e música lírica, em cena principalmente no Imperial Theatro de São Pedro d’Alcantara – a crítica debutante, de autor leigo em música, teve o título “Representação d’Adelina”.

Matías Martínez Molina, no livro “História dos jornais no Brasil”, destaca um feito curioso de Pierra Plancher. Segundo o autor, o editor francês tinha “uma extraordinária noção de marketing” (p. 177), lançando várias loterias para promover seu jornal. Em sua quarta edição, de 5 de julho de 1824, publicou um anúncio falso, intitulado “Casamento por huma rifa”, que dizia:

Hum mancebo de bom caracter, bonito garbo, tendo todas as perfeiçoens phisicas que podem agradar, que quer, mais não pode procurar huma mulher, sem ter adquirido huma fortuna, que o ponha em estado de tratar sua consorte com todo o melindre de que as Senhoras são merecedoras, propoem o meio seguinte para obter o objecto de seus dezejos. Elle offerece por dote o producto de huma Loteria a todas as Viúvas, e Donzellas que tenhão menos de trinta e dois anos. O preço de cada bilhete he de vinte mil reis, sendo por todos seiscentos, a feliz proprietária do numero terá direito a sua pessoa e aos doze contos de reis. Os bilhetes estão á venda na caza de Pedro Plancher, rua do Ouvidor n. 80.

Nas palavras de Martínez Molina,

O número seis do Spectador informava que era tal a corrida compradora que por exigência do público excluía da loteria as mulheres de cor e que havia muitos pedidos para ver o Formoso Estrangeiro (curiosidade natural ao sexo, sobretudo em tal circunstância), antes de comprar o bilhete, mas que as donzelas ficariam satisfeitas com um retrato “do herói da rifa”. O Spectador disse que, no dia da rifa, “o feliz estrangeiro estará presente”, mas até lá encomendara um retrato para expor às interessadas o objeto de seus desejos. Para manter o suspense, a edição seguinte dizia que os bilhetes estavam acabando. A demanda foi tão grande que um concorrente, o Diario do Rio de Janeiro, teve que informar que não vendia “os tristes bilhetes” e pedir que as pessoas não fossem até o jornal para comprá-los. Finalmente, o Spectador informou na edição de número treze que “uma linda senhora, nascida na Europa, gozando de boa fortuna” e de apenas 22 anos, “oferece seus bens e seu coração ao belo estrangeiro”. A loteria, portanto, era anulada e pedia às pessoas que tinham comprado os bilhetes que fossem à livraria para serem reembolsadas. A promoção certamente tornou o jornal mais conhecido, mas não se sabe se conseguiu um grande aumento no número de assinaturas entre o público feminino do Rio. (p. 178)

Conforme já ressaltado, O Spectador Brasileiro fechou após a publicação, em maio de 1827, de uma carta considerada ofensiva à Assembleia Geral do Império, numa questão que defendia o brigadeiro João Vieira Carvalho. Na ocasião, a polêmica tomou grandes proporções ao passar a envolver mesmo o imperador, que aproveitou a oportunidade para atacar a Assembleia na Gazeta do Brasil, jornal financiado pela coroa. Em seguida, o periódico de Plancher foi hostilizado por ter publicado a carta a favor de Carvalho, redigida por um colaborador. O editor francês, afinal, já havia percebido que a defesa pública de um monarca cada vez mais impopular ocasionava desgastes para sua casa comercial; planejava publicar outra folha, menos polêmica, voltada aos informes comerciais (no caso, o Jornal do Commercio). Plancher, enfim, aproveitou a situação para extinguir o Spectador, afirmando que não era responsável pelas opiniões emitidas nas cartas que o mesmo publicava, e que sequer havia participado diretamente da polêmica. O pretexto usado para o fechamento do jornal, segundo Martínez Molina, que não detalha o assunto, havia sido “um artigo publicado na Astrea” (p. 178).

Ainda segundo Martínez Molina, existe a informação de que o editor republicano português radicado no Brasil João Soares Lisboa, reconhecido por manter na corte a folha liberal Correio do Rio de Janeiro, teria sido, se não o real fundador, um importante colaborador na fundação d’O Spectador Brasileiro. No entanto, essa hipótese é pouco provável, tendo-se em vista que Soares Lisboa havia recebido um indulto, com a condição de sair do Brasil, em 1823, o que faria com que o liberal lusitano, em seguida, se engajasse na Confederação do Equador. Recorrendo-se novamente às palavras do autor:

Gondin da Fonseca transcreve e endossa a informação de Vale Cabral de que Soares Lisboa foi o fundador e ajudou, em 1824, Pierre Plancher a publicar o jornal O Spectador Brasileiro, o que é improvável. A Biblioteca Nacional repete a informação de que o jornal foi fundado por Soares Lisboa. Na verdade, o navio em que Soares Lisboa deixava o Brasil fez escala em Recife no momento em que ocorria a revolta da Confederação do Equador. Ele desembarcou e participou do movimento, tornando-se seu “partidário mais leal”, segundo Alfredo de Carvalho. Publicou quatro números de um novo jornal, o Dezengano aos Brazileiros, defendendo os ideais republicanos, e participou dos combates contra as tropas imperiais. Morreu numa emboscada em Couro d’Anta, Pernambuco, no último dia do mês de novembro de 1824. (p. 203)

Fontes:

– Acervo: edições nº 1, de 28 de junho de 1824, ao nº 266, de 28 de abril de 1826.

– LEAL, Carlos Eduardo; SANDRONI, Cícero. Jornal do Comércio. In: ABREU, Alzira Alves et al. (Coord.) Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. Rio de Janeiro: Editora FGV; CPDOC, 2001. Vol. 3.

– MOLINA, Matías Martínez. História dos jornais no Brasil: da era colonial à Regência (1500-1840) v. 1. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.