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O Ypiranga (São Paulo)

19 Nov 2015

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e marcado com as tags Imprensa oficial, José Bonifácio, Liberalismo, São Paulo, Segundo Reinado

Vindo a lume como propriedade do brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, O Ypiranga foi um periódico político editado a partir de 1849 em São Paulo (SP). Bissemanário, era então o único órgão de imprensa de inclinação política liberal na província, ao menos até o lançamento do Correio Paulistano, cerca de cinco anos depois de sua fundação. Aguiar, a rigor, era uma liderança do segmento paulista do Partido Liberal, tendo sido o responsável por capitanear dali uma revolta em 1842, momento em que o restante da política nacional era comandado pelo Partido Conservador: por ocasião do Dia do Fico, usou de sua fortuna para armar e equipar uma tropa composta por cem homens, enviada, em seguida, ao Rio de Janeiro, para combater as forças portuguesas. Durante o episódio o líder chegou a ser declarado presidente de São Paulo pelos revoltosos, mas a insurreição não durou muito tempo: com o tempo, Tobias de Aguiar se viu isolado em Sorocaba, até ser expulso de lá pelo barão (depois duque) de Caxias – em plena retirada, todavia, encontrou tempo e meios de se casar com Domitila de Castro Canto Melo, a marquesa de Santos, de quem Dom Pedro I fora amante. Depois de anistiado junto com o restante dos insurgentes, em 1844, decidiu lançar O Ypiranga para voltar à pregação liberal, inspirado pelos órgãos liberais que circulavam na província antes da revolta, como O Publícola, O Solitário, O Paulista e O Tibiriçá, sendo que, neste último, já havia sido redator.

Quando lançado, O Ypiranga era redigido pelos acadêmicos João da Silva Carrão, Antônio Ferreira Vianna e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, que anos depois conquistariam prestígio junto à classe política. O trio encarava então um momento nacional singular: vigorava uma política nacional de entendimento e equilíbrio de disputas entre os partidos Liberal e Conservador, colocada em prática a partir da instituição do Ministério da Conciliação em 1846. Tendo durado por dez anos, o gabinete teve seu auge em 1853 e somente no ano de 1869 ocorreu o rompimento definitivo entre liberais e conservadores. Bem ou mal, o jornal de Tobias de Aguiar cobriria esse período, deixando de ser publicado exatamente no final de 1869.

Em 1º de agosto de 1867 O Ypiranga voltou a ser editado, com nova numeração e publicando informes oficiais do governo da província, apesar de jurar independência política da situação de então. Então propriedade de Cândido José de Andrade e Ferreira de Menezes, mas sem revelar o nome de seus donos e/ou de seus redatores, na ocasião, o jornal se relançava com o seguinte programa:

O título desta folha memora uma gloria nacional e a tradição talvez a mais brilhante do jornalismo paulistano. Esse nome tão patriótico e liberal diz, por si só, o programma da nossa folha. Os tempos são tristíssimos; a grita dos interesses aturde a todos os ouvidos: os ódios e os rancores políticos têm deixado de lado o desenlace das difficuldades do paiz a a solução dos seus mais palpitantes problemas. (…) E no entanto, se do norte ao sul do Império uma província existe, allumiada de aurora esplendida, promettedora de dias da maior fartura e dos mais próximos e mais reaes progressos é esta, tão grande em seu passado e tão famosa! (…) O fim de nosso jornal é simples e positivo: queremos de preferência a tudo, os melhoramentos materiaes desta província. O jornalismo da corte segue hoje uma proveitosa trilha que é a da imprensa americana e ingleza. O nosso modelo é o Diario do Rio de Janeiro a quem pedimos troca das sympathias que lhe votamos. Mas somos também jornal político, da política, única que aceitamos, da que no litígio de idéas e de pessoas abandona estas para seguir áquellas. Fallando assim, somos ou não o verdadeiro e legitimo órgão da província e da idéa liberal de todo o Império? Cremos que sim. Uma declaração mais. O Ypiranga não é folha official; por contrato obrigou-se a publicar os actos do governo e os debates da Assembléa provincial, mas apoiar situação e governo depende isso do seu arbítrio, das suas convicções e dos interesses da província.

Nessa fase, após o nome de Salvador de Mendonça se juntar à dupla diretora com apenas dois meses de circulação, O Ypiranga conseguiu manter publicação diária, dando vazão a escritos de redatores que futuramente se tornariam famosos: José Bonifácio e Luís Gonzaga Pinto da Gama – este, antes de dirigir o Diabo Coxo com Angelo Agostini e integrar a redação do Radical Paulistano com Rui Barbosa, havia começado sua carreira como revisor n’O Ypiranga, em 1849. Sempre mantendo a verve liberal, o periódico foi, então, mantido regularmente até sua edição nº 296, de 30 de julho de 1868. Nesta, entretanto, informava-se que a folha, daquele momento em diante, seria propriedade de Salvador de Mendonça, que a redigiria junto com Ferreira de Menezes, para que Cândido José de Andrade passasse a se dedicar a seu outro jornal, O Imparcial, de onde publicaria a matéria oficial que antes, por contrato, aparecia n’O Ypiranga. A edição seguinte, de 1º de agosto, viria com nova numeração, e, em seguida, o periódico passaria a ter como subtítulo “Orgam do Partido Liberal em S. Paulo”.

Sob a batuta de Mendonça e Menezes o periódico não durou muito: após ser renumerado novamente um ano depois, teria sua derradeira edição no nº 62 desta última fase, datado de 12 de dezembro de 1869. O texto de despedida publicado nesta, assinado por Salvador de Mendonça, faz um balanço, revelando não só simpatias com os presidentes provinciais liberais Saldanha Marinho e Tavares Bastos quanto aos governos conservadores que vieram em seguida, sob os nomes de José Manuel da Silva (o barão do Tietê), José Elias Pacheco Jordão e Cândido Borges Monteiro (o visconde de Itaúna, aparentemente, a quem o texto se refere negativamente):

O Ypiranga foi governista e folha de opposição. Durante as administrações dos srs. Saldanha Marinho e Tavares Bastos, exerceu, como lhe cumpria, livre exame de todos os actos do governo a que prestava apoio sem subserviência, mantendo completa e inteira a independência de sua acção e palavra. Alistado nas fileiras opposicionistas do golpe de Estado de julho, profligou sem tréguas nem quartel ao abjecto alcaiote de S. Christovam a quem a presente situação incumbiu a tarefa de quebrar os brios a esta heroica província, e tem-se mantido no seu posto de honra, de observação ás interinidades presidenciaes e á actual administração, que até agora se tem mostrado impotente para o bem tanto como para o mal.

Fontes:

– Acervo: edições do nº 1, ano 1, de 1º de agosto de 1867, ao nº 62, ano 3, de 12 de dezembro de 1869.

– PILAGALLO, Oscar. História da imprensa paulista – jornalismo e poder de D. Pedro I a Dilma. São Paulo: Três Estrelas, 2012.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.