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Sabbatina Familiar de Amigos do Bem-Commum

21 Nov 2017

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Conservadorismo, Crítica política, Dom Pedro I, Imprensa Áulica, José da Silva Lisboa, Primeiro Reinado

Impresso pela Imprensa Nacional, o pasquim Sabbatina Familiar de Amigos do Bem-Commum circulou em apenas cinco edições, tiradas entre 8 de dezembro de 1821 e 5 de janeiro de 1822. Era redigido pelo baiano José da Silva Lisboa, futuro visconde de Cairú, o maior e mais prolífico editor de pasquins áulicos, conservadores e efêmeros durante o Primeiro Reinado. A Sabbatina Familiar, afinal, foi apenas um entre vários.

Apesar de ligado à velha política de Dom João VI, Silva Lisboa, quando era de seu interesse, se posicionava em defesa de Pedro de Alcântara, o príncipe regente, às vésperas da Independência – com verdadeira predileção às inclinações absolutistas do segundo, quando aclamado imperador. Sua influência política, afinal, era forte: o publicista havia sido o inspirador da Carta Régia que permitiu a abertura dos portos de 1808. Estritamente ligado à coroa, com a fuga da família real portuguesa para o Brasil Silva Lisboa se estabeleceu como um dos componentes da junta que administrou a Impressão Régia colonial, ao lado de José Bernardes de Castro e Mariano José Pereira da Fonseca, lançando, nesse contexto, já em 1808, seu livro “Observações sobre o comércio franco do Brasil”, o primeiro impresso no país. Além disso, era também censor real, ao lado do frei Antônio de Arrábida, do padre João Manzoni e de Carvalho e Melo. Atuando nesse grupo, Silva Lisboa era ferrenho contra panfletos e livros que atentassem contra a religião, o governo e os “bons costumes”.

Atacando sempre com virulência as maiores folhas liberais de oposição à coroa – como a Astréa, o Universal, o Astro de Minas, o Novo Censor, o Farol Paulistano e a Aurora Fluminense –, Silva Lisboa lançou seu primeiro periódico a 1º de março de 1821, na Corte: O Conciliador do Reino Unido, panfleto conservador, voltado à questão da cisão entre o Brasil colonial e a metrópole portuguesa, onde defendia a permanência do príncipe regente no Brasil, contra a recomendação de seu pai, Dom João VI, apesar do tom “conciliador” de seu periódico. Na mesma época, o conservador defendia seu ponto de vista também anonimamente, no folheto intitulado Despertador Brasiliense, que era mais explícito na desobediência às ordens das Cortes de Lisboa. A brevíssima Sabbatina Familiar de Amigos do Bem-Commum, lançada ao fim de 1821, foi o terceiro periódico de Silva Lisboa, que, em 1822, voltaria à carga com a Reclamação do Brasil, onde achincalhava a Assembleia Geral Constituinte e Legislativa convocada para a redação da primeira Constituição brasileira – que ficaria pronta apenas em 1824, depois de muitos percalços, dentre os quais ter o próprio Silva Lisboa como deputado constituinte, como suplente, em substituição de ninguém menos que o liberal Cipriano Barata, sua perfeita antítese política.

A partir de 1822, Silva Lisboa ainda seria responsável pela tiragem dos pasquins Heroicidade Brasileira, A Causa do Brasil no Juízo dos Governos e Estadistas da Europa, O Império do Equador na Terra de Santa Cruz, Roteiro Brasílico ou Coleção dos Princípios e Documentos do Direito Político em Série de Números, Triumpho da Legitimidade Contra Facção de Anarquistas, e, por fim, Honra do Brasil Desafrontada de Insultos da Astréa Espadaxina. A maior parte deles não chegou à vigésima edição. Mesmo ao fim do último periódico do qual fora redator, o conservador se manteve na imprensa por mais algum tempo, durante o Período Regencial: sua participação no debate quanto aos rumos da nação permanecia na ativa através de colaborações em diversas folhas diferentes, a exemplo de seus artigos no Diário do Rio de Janeiro, onde clamava pela restauração de Dom Pedro I ao trono, atacando, sobremaneira, a figura de Evaristo da Veiga.

Fontes:

– Acervo: edições nº 1, 8 de dezembro de 1821, ao nº 5, de 5 de janeiro de 1822.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.