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Triumpho da Legitimidade Contra Facção de Anarquistas

16 Nov 2017

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Conservadorismo, Crítica política, Dom Pedro I, Imprensa Áulica, José da Silva Lisboa, Primeiro Reinado

Lançado em 9 de dezembro de 1825 por José da Silva Lisboa, o Triumpho da Legitimidade Contra Facção de Anarquistas foi um pasquim áulico de curta duração voltado à questão da província Cisplatina, sem deixar de lado questões internas do conturbado processo da Independência do Brasil, que envolvia a adesão por vezes forçada de províncias ao Império e a neutralização de revoltas. Editado sempre, naturalmente, sob a ótica absolutista de Dom Pedro I, era impresso na Typographia Nacional, sendo extinto a 28 de janeiro de 1826, totalizando 14 edições.

José da Silva Lisboa, visconde de Cairú, durante o Primeiro Reinado, foi um dos mais destacados – se não o maior – editores de pasquins panfletários efêmeros a favor do imperador. Sua importância para a coroa era notória. Quando, entre 1808 e 1821, apenas impressos da Impressão Régia tinham permissão de circular, esta era dirigida por uma junta composta por Silva Lisboa, José Bernardes de Castro (oficial da Secretaria de Estrangeiros e de Guerra) e Mariano José Pereira da Fonseca; o trio deveria se certificar de que nada atentando contra a religião, o governo ou os “bons costumes” fosse impresso. Para tanto, contavam com o exame prévio dos censores reais: o frei Antônio de Arrábida, o padre João Manzoni, Carvalho e Mello e o próprio Silva Lisboa. Com o processo de Independência do Brasil, que se estendeu de 1821 a 1825, e a turbulência política durante todo o Primeiro Reinado, o visconde de Cairú manteve-se ao lado de Dom Pedro I, ajudando-o através da redação e da impressão de inúmeros periódicos de apoio ao monarca e, sobretudo, de revide a seus opositores liberais. Foi o caso do Conciliador do Reino Unido, do Atalaia, da Sabbatina Familiar de Amigos do Bem-Commum e da Honra do Brasil Desafrontada de Insultos da Astréa Espadaxina.

Dado o início da Guerra Cisplatina em 1825, quando o recém-nascido Império do Brasil disputaria com as Províncias Unidas do Rio da Prata a posse da Província Cisplatina, a região da atual República Oriental do Uruguai, o Triumpho da Legitimidade Contra Facção de Anarquistas foi lançado para fazer propaganda da campanha brasileira junto à opinião pública. Em sua edição nº 5, de 21 de dezembro de 1825, Silva Lisboa comemorava a repressão à Confederação do Equador, no Nordeste, a título de exemplo ao que deveria acontecer com a Cisplatina, região que, fundada por portugueses em 1680 e passando a domínio espanhol em 1777, tinha sido reincorporada à força por Dom João VI quando da transferência da Corte portuguesa para o Brasil.

Por terem costumes e idiomas diferentes, os habitantes da Cisplatina não aceitavam pertencer ao Império do Brasil. Surgido um movimento de libertação da província, liderado por João Antonio Lavalleja, os revoltosos contaram com o apoio da Argentina (que pretendia anexar a Cisplatina), tanto no sentido político quanto no logístico, com fornecimento de armas e alimentação. A declaração de guerra do Império brasileiro à Argentina e aos colonos insurgentes, na verdade, mostrou-se medida impopular no Brasil, pois implicava altos gastos de dinheiro público – gerando, naturalmente, um aumento nos impostos. Nesse sentido, cabia à propaganda de Silva Lisboa, no Triumpho da Legitimidade Contra Facção de Anarquistas, persuadir a sociedade brasileira.

O montante gasto no conflito, junto com todo o valor despendido em todo o processo militar da Independência, afinal, contribuiu para desequilibrar a economia brasileira. A Inglaterra, que atuou como mediadora na guerra, já que tinha interesses na região, em 1828 forçou um acordo que estabelecia a independência da Cisplatina, algo altamente desfavorável ao Império brasileiro – desgastado, Dom Pedro I via-se em meio a uma crise política que só aumentava, acabando por renunciar em 1831.

Nelson Werneck Sodré, no livro “História da Imprensa no Brasil”, reserva as seguintes palavras a Silva Lisboa, referindo-se ao visconde no contexto pós-Independência. Naquele momento,

Esse áulico empedernido continuaria a desovar impressos. É discutível incluí-los na categoria de imprensa, mas são característicos e por isso devem ser mencionados. Mal se findara o seu sexto periódico, a Causa do Brasil, a 20 de março de 1823, engendrou o Atalaia, de que apareceram 14 números pelo menos. Retornaria em 1825, com o periódico Triunfo da Legitimidade contra Facção de Anarquistas, assinado pelo adequadíssimo pseudônimo de “Imperialista Firme”, circulando entre 9 de dezembro de 1825 e 28 de janeiro de 1826. (…) Silva Lisboa e suas publicações, de distante parentesco com a imprensa, mostra o grau de decadência a que ela chegara em 1825: era o mais fundo o abatimento a que o absolutismo conduzira o país. Em 1825, por outro lado, encerravam-se, com os acordos presididos pelo representante inglês Stuart, as negociações para o reconhecimento da Independência, cujos termos revoltaram os espíritos. Ia começar, desse fundo de poço, a arrancada liberal, em que a imprensa desempenharia papel relevante. (p. 97)

Fontes:

– Acervo: edições do nº 1, de 9 de dezembro de 1825, ao nº 14, de 28 de janeiro de 1826.

– DUARTE, Lidiane. Guerra da Cisplatina. In: Info Escola. Disponível em: http://www.infoescola.com/historia/guerra-da-cisplatina/. Acesso em: 15 fev. 2016.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.