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AO ENCONTRO DA COR

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Jogos de tabuleiro, bonecas de papel, teatrinhos de montar

Um dos primeiros jogos de tabuleiro impressos foi o Jogo do Ganso, na Itália Renascentista, no qual os jogadores avançavam por meio dos lances de dados por uma estrada em espiral, dividida em quadrantes. O jogo de tabuleiro moderno, impresso em litografia colorida, costuma ser associado ao impressor norte-americano Milton Bradley (1836-1911). Este fez fortuna com jogos de tabuleiro impressos a partir do Jogo de Xadrez da Vida, introduzido em 1860. Bradley foi também precursor na introdução da pedagogia no movimento alemão Kindergarten, de Friedrich Fröebel (1782-1852), nos Estados Unidos, incentivando que as crianças aprendessem através de jogos e atividades lúdicas. Sua empresa tornou-se referência mundial em jogos e brinquedos impressos de papel. Os jogos de tabuleiro modernos compartilham das mesmas estruturas visuais, regras e funções lúdicas de seus predecessores. Os jogos têm influência sobre o imaginário das narrativas de sucesso, fortuna, moralidade, vícios e virtudes, crenças e preconceitos das sociedades onde se inserem, influenciando os jogadores por meio de suas regras e de como articulam modelos de papéis sociais e progressão econômica.

As bonecas de papel são desenhos de bonecas e roupas bidimensionais impressos em papel ou cartão para serem recortados. Prendem-se as roupas à boneca através de abas. Os personagens podem ter a forma de uma pessoa, um animal ou um objeto. As primeiras bonecas de papel apareceram na França no século XVIII, começaram a ser fabricadas nos Estados Unidos em 1812 e tornaram-se extremamente populares entre as décadas de 1930 e 1950, consideradas a “era de ouro das bonecas de papel”. Assim como nos jogos, as tendências da moda refletem a cultura, as normas, as expectativas e os valores da sociedade. As bonecas de papel ilustram expectativas sociais femininas em diferentes épocas. Seus guarda-roupas comunicam informações sobre personagens sociais intencionalmente idealizados no passado.

Os teatrinhos de brinquedo foram passatempos populares na Inglaterra, na Áustria, na Alemanha e na Dinamarca ao longo do século XIX. As versões mais baratas eram vendidas como folhas impressas em preto e branco, para serem coloridas manualmente, incluindo o proscênio, as peças para a montagem do cenário, os acessórios e os personagens. As versões mais luxuosas eram produzidas em cromolitografia. As folhas eram coladas em cartão, cortadas e depois montadas em várias camadas, com a finalidade de encenar uma peça, ou apenas para fins decorativos.

Como exemplo de jogos de tabuleiro impressos e bonecas de papel nacionais, destacamos Bonecos, Revista do Brinquedo, edição quinzenal da Imprensa Moderna, com o nº 1, publicado em 1933. A peça está presente no acervo do setor de iconografia da Biblioteca Nacional.

Fazem parte da publicação uma revista de capa colorida e o miolo impresso em preto, com passatempos diversos como caça-palavras. Era comercializada ao preço de 3$000 (capital) ou 3$500 (estados) em um envelope impresso em cor que continha: “1 revista; 2 cadernos para colorir; 4 páginas de armar em cores; 3 postaes; 2 jogos completos, 1 copo de dados e fixas” (Figura 5).


Fig. 5 - Edição do nº1 da Bonecos, revista do Brinquedo, Imprensa Moderna, 1933.


A publicação oferece o conjunto completo para o entretenimento infantil. Era uma revista para as crianças. A novidade, porém, não reside propriamente na publicação, mas, sim, no que a acompanha. “BONECOS será para as crianças a surpresa que tanto lhes agrada, o imprevisto, o saquinho mysterioso de onde surgem maravilhas. [...] Reparem que os brinquedos BONECOS são ao mesmo tempo instructivos. São brinquedos que ensinam.”

Para a prática dos jogos de tabuleiro (apresentados em cartelas dobradas), os dados e até o copinho para sacudi-los eram fornecidos impressos, para serem montados. A revista demonstra-se destinada a ambos os gêneros. O jogo de tabuleiro Raid Aéreo designa as aventuras de um avião monomotor por paisagens selvagens. Se o jogo e um dos cadernos de colorir parecem mais voltados ao universo masculino, o outro caderno tem a capa com bonecas. O encarte designado como “4 páginas de armar em cores” é uma boneca de papel com roupas e acessórios para trocar, chamada de “o bebê transformista”.

A boneca oferece várias fantasias, refletindo atividades e anseios de crianças abastadas, que provavelmente gozavam de férias na Europa. Há o traje característico da moda dos anos 1920, de explorador; um para esqui na neve; o para a prática da esgrima; a roupa de banho; um traje rococó com peruca e uma fantasia de colombina para o Carnaval.

Diferenciando-se das convencionais bonecas impressas que apresentam apenas a frente e roupinhas com abas, nesse caso tanto a boneca quanto as fantasias são todas de frente e verso, possibilitando uma montagem tridimensional pouco comum (Figura 6).


Fig. 6 - Encarte da revista Brinquedo, O Bebê transformista replicado digitalmente para demonstração da montagem tridimensional com fantasias frente e verso.

Os teatrinhos de montar da Weiszflog Irmãos/Edições Melhoramentos apresentam cenas cívicas brasileiras, publicadas entre 1937 e 1938, com quatro a cinco pranchas, e outras de caráter mais universal, publicadas em oito pranchas, como Branca de Neve (1944) e O Aquário (s/d). As pranchas cartonadas avulsas, sem quase nenhuma instrução de montagem fornecem-nos poucas pistas de como seria o brinquedo montado, para que público se destinava e qual seria a complexidade da atividade (Figura 7).

Fig. 7 - As oito pranchas d’O Aquario, Edições Melhoramentos, sem data.

Como experimento, selecionou-se o teatrinho de maior complexidade visual, O Aquário, com suas pranchas digitalizadas sendo impressas para que se pudesse processar uma réplica de sua montagem.

O recorte com tesoura e estilete e a estruturação com cola duraram cerca de 9h de trabalho, indicando uma atividade de alta complexidade e controle fino da coordenação motora, certamente não voltada para crianças. Mais provavelmente, seria recomendada como um hobby para jovens e adultos. A peça montada é exuberante e detalhada, podendo ser utilizada para fins decorativos.

Fig. 8 - Réplica recortada e montada, O Aquário, Edições Melhoramentos, s/ data.



O Teatro – Branca de Neve – 8 pranchas de montar

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