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Biblioteca Virtual da Cartografia Histórica: do século XVI ao XVIII

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A planta de Guimarães no atlas factício de Diogo Barbosa Machado *

A planta da cidade portuguesa de Guimarães, que integra o atlas factício Mappas do Reino de Portugal e suas conquistas collegidos por Diogo Barbosa Machado, é o documento em tela nesta seção sobre as preciosidades do acervo da Biblioteca Nacional.

Diogo Barbosa Machado, o compilador do atlas, nasceu em Lisboa, em 1682, e estudou com os padres da Congregação do Oratório, tendo ingressado, em 1708, na Faculdade de Direito Canônico, que não concluiu devido a uma doença grave. Em 1724, foi ordenado presbítero e, mais tarde, nomeado abade da igreja de Santo Adrião de Sever.

Escritor e bibliófilo especializado em assuntos portugueses, Barbosa Machado foi autor da Bibliotheca lusitana, impressa entre 1741 e 1759 e considerada o primeiro grande catálogo de obras e autores portugueses, o que a torna importante fonte biográfica e bibliográfica sobre Portugal nas épocas medieval e moderna. Também coletou várias obras raras e folhetos encadernados, num total de 100 volumes, compilou um volume de retratos de fidalgos portugueses renomados, além do tomo de documentos cartográficos do qual faz parte a planta de Guimarães.

Depois de sua morte, em 1772, sua biblioteca foi doada à Real Bibliotheca portuguesa organizada por d. José I para substituir a antiga Real Livraria, que havia sido destruída pelo terremoto e incêndio ocorridos em Lisboa em 1755. Quando a corte portuguesa veio para o Brasil, em 1808, trouxe a Real Bibliotheca, que se tornaria a Biblioteca Nacional do Brasil.

Mappas do Reino de Portugal e suas conquistas foi compilado de diversos atlas, livros e mapas elaborados entre os séculos XVI e XVIII. Atlas factício, isto é, constituído com documentos de origens diversas, ele possui 137 folhas, que incluem uma página de título, 183 mapas e quatro atlas, alguns dos quais manuscritos e gravados.

A obra está organizada em seqüência geográfica, iniciando-se com mapas e vistas de Portugal, suas regiões e cidades, seguidos de mapas e atlas sobre a América do Sul, especialmente o Brasil; inclui também documentos sobre algumas cidades, regiões e ilhas na África e termina com plantas e mapas de fortalezas, cidades e regiões conquistadas na Ásia.

Alguns desses documentos são bem conhecidos como o Atlas do Brasil (ca.1666) de João Teixeira Albernaz II , os mapas de Linschonten, as cartas de Antonio Horacio Andréas publicadas na obra Istoria delle guerre del regno del Brasile, do frei José Maria de Santa Teresa e outros menos conhecidos.

A cidade de Guimarães é considerada berço da nacionalidade portuguesa, pois foi o local da batalha de São Mamede, em que d. Afonso Henriques, no dia 14 de junho de 1128, venceu as tropas fiéis a sua mãe, Teresa ou Tareja, que desejava aproximação com o reino de Castela. A planta, de autor desconhecido e datada de cerca de 1570, é manuscrita a tinta e aquarelada, medindo 83,4 por 154 cm. No recto (frente) está apenas o mapa, sem qualquer outra inscrição. O título, De Guimarães, está escrito no verso. O mapa contém uma rosa-dos-ventos aquarelada nas cores azul, amarelo e vermelho e a escala calculada, ca.1:1.100. Possui também uma marca d’água representada em forma de roda.

Situada entre os rios Ave e Vizela, Guimarães pertence hoje ao distrito de Braga, na sub-região do Ave, no Norte. A área da cidade representada no mapa é porém a que está entre os rios Suyo e Couros.

O mapa mostra a cidade protegida por uma muralha e suas portas, que não mais existem, e edifícios e lugares, muitos dos quais permanecem nos nossos dias:

a) Castelo de Guimarães – construído no final do século X pela condessa de Mumadona Dias para defender a cidade das invasões. Foi residência de d.Henrique e d. Teresa e local de nascimento de Afonso Henriques. Na entrada do castelo representada no mapa, foi colada uma tira de papel com desenhos em ambos os lados. Num lado, mostra a planta do castelo, no outro, três torres com as seguintes descrições: na primeira “6º”, na segunda “II S.P” e na terceira “42”.

b) Capela de Santa Margarida – faz sudeste com outro prédio de nome Epistal, fazendo parte do quarteirão da rua do Castelo.

c) Paço dos Duques de Bragança – construído por d. Afonso, o duque de Barcelos, filho bastardo do rei d. João I, na época do seu segundo casamento, no século XV. Foi abandonado no século XVI e restaurado no século XX. Está situado próximo ao Castelo de Guimarães, cujo desenho tem também uma tira colada, com desenhos em ambos os lados. Num lado está a planta do paço, no outro a fachada, com influência arquitetural normanda. Contém a seguinte legenda escrita em português arcaico: “Esta chão mai alto q˘ o toural 140 pe.”

d) Convento de Santa Clara – construído na metade do século XVI, pertenceu à Irmandade das Clarissas. Atualmente é a Câmara Municipal. Esta ordem criou os famosos doces portugueses, como o ‘toucinho do céu” e a “torta de Guimarães”, que continuam muito apreciados.

e) Rua Santa Maria – rua antiga que era a continuação da rua Infesta, desaparecida em decorrência de novas construções.

f ) Igreja Nossa Senhora da Oliveira – reconstruída no final do século XV por d. João I, como promessa da vitória na batalha de Aljubarrota. O templo possui uma torre construída em 1513. A igreja foi também o local onde, no século X, a condessa de Mumadona mandou elevar um mosteiro. Está localizada no centro histórico da cidade.

g) Padrão do Salado – monumento construído por d. Afonso IV, no século XIV, para comemorar a vitória da batalha do Salado. Está localizado no largo da Oliveira.

h) Cruzeiro – localizado em frente ao Padrão do Salado.

i) Igreja de São Francisco – de arquitetura gótica e barroca, originalmente construída em 1400. Na parte dos fundos, aparece o rio Couros, onde existia uma zona de curtume, desconhecida pela maior parte do povo de Guimarães ou vimarenses.

j) Campo da Feira – local onde, em 1517, realizavam-se as feiras, concedidas por d. Afonso V, em comemoração a São Gualter, entre os dias 7 e 17 de agosto.

k) Toural – tem origem na época das festas de Nossa Senhora de Oliveira, quando povo colocava os touros para correr, na praça da Oliveira. Entre os séculos XVI e XVIII, o povo assistia à tourada nos muros que cercavam a praça. Está escrito no mapa, em português arcaico: “Esta este chão mais baixo q ho estabolro dos paços 140 p. / Q mais alto ho de s. Lazaro 140p.” No final do século XVIII, o muro foi destruído, e a tourada transferida para o terreiro da Misericórdia, construído entre o final do século XVII e o início do século XVIII, hoje denominado praça João Franco.

l) Igreja de São Domingos – de arquitetura gótica, foi construída no início do século XIV para servir de convento aos frades dominicanos. Hoje é parte do Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento.

A planta de Guimarães foi objeto de um estudo que apresentei no XXII Congresso Internacional sobre a História da Cartografia, realizado em Budapeste em 2005. Foi considerada inédita na cartografia histórica de Portugal: segundo os geógrafos portugueses presentes no Congresso, é a planta conhecida mais antiga de Guimarães e, como tal, importante fonte para a história da formação da cidade. É também mais uma demonstração do alto valor documental do atlas compilado de Diogo Barbosa Machado, o abade de Santo Adrião de Sever.



Bibliografia

CALDAS, A. J. F. Guimarães, apontamentos para a sua história, Porto, 1881.

GALVÃO, BENJAMIN FRANKLIN RAMIZ, BARÃO DE RAMIZ. Diogo Barbosa machado. In: Annaes da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1876, vols. I, II, III, VIII.

BIBLIOTECA NACIONAL (BRASIL). Exposição coleção Barbosa Machado. Rio de Janeiro: A Biblioteca, 1967. 60p. : il.

GUIMARÃIS : Publicações commemorativas das festas centenárias da fundação de Portugal...--[Guimarães, Portugal] : Câmara municipal de Guimarãis, 1940 (Porto : Litografia Nacional). 7 f. p., 85 [24] p., 2 f. : il. (algumas col.), rets.

Honrando a sua palavra. http://www.calendario.cnt.br/honrandosuapalavra.htm


* Maria Dulce de Faria é bibliotecária. Chefe da Divisão de Cartografia

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