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Biblioteca Virtual da Cartografia Histórica: do século XVI ao XVIII

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MAPA DA COSTA DO BRAZIL: DES-DO ACARACÚ ATHÉ A ILHA DE S. JOÃO

O mapa com o título “Mapa da Costa do Brazil: des-do Acaracú athé a Ilha de S. João”, é de autor desconhecido e foi feito no século XVIII.

O mapa, abrange a região nordeste do Brasil, de Acaracú [Acaraú] no Ceará até a Ilha de São João no Maranhão, indicando também topônimos no Piauí. Estes topônimos que indicam rios, lagos, baias, cidades e vilas são: “Acaracú [Acaraú], Castelhanos, Jericoacoara, Rº Camacim [Baia de Camacim], Rº Timonia [Ponta do Timonha], Rº Camoropim [Rio Igaraçu], Parnaíba, Barra do Meio, Barra das Canárias, Barra do Caju [Ilha do Caju], Barra da Tutoia [Baia da Tutoia], Lago, Rº das Preguiças, Lençoes Grandes, Mangues secos e verdes [Ponta dos Mangues Secos], Rº Mirim, Rº Priá [Rio Piriá], Rº do Alegre, Maconamduba, B. de Mamuna, Anajatuba, Ponta Tacaroça, Rº Mom [Rio Munim], Rº Itapicorú [Rio Itapecuru], Rº do Mosquito, Rº Miarim [Rio Mearim], Cajapió, Villa d ...., ..apitapera, Bª do Cuma [Baia do Cumã], Villa d’Guimaraez [Guimarães], Sufsuita, Coatitihua, Bª de Cabo da Velha [Baia Cabelo da Velha], Rº Cororupú, Cassapueira, Carrapatutiva, Icuaraú, Bª de Turim e Ilha de São João”. Também são apresentados os mangues e corais da costa.

No canto superior direito contém uma legenda explicativa de como navegar nas águas mostradas no mapa: “Notta. Navegando-se próximo aesta [a esta] costa, se deve determinar o rumo ao Navio segundo o Estado da maré, para que se navegue paralelamente com a referida costa; e não se aproximara as bocas dos Rios, Anciadas, ou Bahias, se não por nessecidade [necessidade] e com muita cautela; porque as marés e as grandes correntezas farão variar o rumo, atrazar, ou adientar adistancia [adiantar a distância]. Em tempos de ventanias 2 leg. ao N. de S. Anna he avolucidade d’Agoa [e a velocidade da água] na enchente 2’ cada ora [hora], estando a lua nas ecígias, e 1’ quando esta nas quadraturas. Estando próximo ao pontal do N. da Coroa grande em tempo de inverno nas conjunçoens já dittas [conjunções já ditas], correm as agoas [águas] com aprezo das domonte ao N.E. e E 1’ 3º por ora [hora]”.

Segundo Ronaldo Vainfas, após o descobrimento do Brasil, em 1500, a coroa portuguesa enviou durante três décadas, várias expedições encarregadas de reconhecer o litoral brasílico. Tais viagens ficaram conhecidas ora como expedições de reconhecimento, ora de exploração e, ainda, como expedições guarda-costas. Na verdade, a maioria dessas expedições fez um pouco de cada coisa: identificação da geografia para fins cartográficos e de navegação, escambo de pau-brasil com os índios, fundação de feitorias e defesa da costa contra a crescente presença dos entrelopos franceses, rivais no escambo do pau-brasil.

Ainda de acordo com Vainfas, a construção do território do que se poderia chamar de América Portuguesa foi tecida ao longo de três séculos e com flagrantes descontinuidades. A maior delas, sem dúvida, foi a iniciada com a União Ibérica, que unificou as duas Coroas ibéricas e seus territórios coloniais, entre 1580 e 1640. E foi durante o período da dominação filipina que o Brasil teve boa parte de seu território conquistado, a exemplo da expansão ao norte e ao sul, com a ocupação efetiva do Maranhão, de parte da Amazônia e do extremo sul.

Foram os espanhóis os primeiros europeus a chegarem, em 1500, à região onde hoje se encontra o Estado do Maranhão. Em 1535, no entanto, verificou-se por parte dos portugueses, uma primeira tentativa fracassada de ocupação do território.

Em 1608, a divisão entre dois Estados esboçou-se, mantendo-se o Governo-geral na Bahia, Salvador (as “capitanias de cima”) e instituindo-se a Repartição sul, com sede no Rio de Janeiro, que também incluía o Espírito Santo e São Vicente (as “capitanias de baixo”), sistema vigente até 1612.

Foram os franceses que realizaram a ocupação efetiva do Maranhão iniciada em 1612, quando muitos deles chegaram em três navios e fundaram a França Equinocial. Seguiram-se lutas e tréguas entre portugueses e franceses até 1615, quando os portugueses retomaram definitivamente a colônia, com grandes mudanças, inclusive com a criação, em 1618, do Estado do Maranhão, que se consolidou em 1621 com a divisão do Brasil em dois Estados independentes: o Estado do Brasil, com capital em Salvador, que compreendia as capitanias ao sul do Rio Grande do Norte, e o Estado do Maranhão que abarcava a Amazônia, com capital em São Luiz.

Em 1641, os holandeses invadiram a região e ocuparam a ilha de São Luiz, nomeando o povoado em homenagem ao rei Luiz XIII. Três anos depois, foram expulsos pelos portugueses, que em 1652, transformaram o Estado do Maranhão em Estado do Maranhão e Grão-Pará, com o objetivo de melhorar a defesa da costa e os contatos com a metrópole, uma vez que as relações com a capital da colônia, Salvador, localizada na costa leste do oceano Atlântico eram dificultadas, devido às correntes marítimas.

A separação do Maranhão e Pará veio a ocorrer em 1774, após a consolidação do domínio português na região. A forte influência portuguesa no Maranhão fez com que o Estado só aceitasse em 1823, após intervenção armada, a independência do Brasil de Portugal, ocorrida em 7 de setembro de 1822.


REFERÊNCIAS

CORTESÃO, Jaime. História da expansão portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional : Casa da Moeda, 1993.
PRADO, J. F .A. “O regime das capitanias”. In: HOLANDA, S. B. (org). História Geral da Civilização Brasileira. 5.ed. São Paulo: Difel, 1976. v.1, p.96-107.
SALDANHA, A. V. de. As capitanias: o regime senhorial na expansão ultramarina portuguesa. Coimbra, Centro de Estudos do Atlântico, 1991.
VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

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