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Biblioteca Virtual da Cartografia Histórica: do século XVI ao XVIII

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PLANO DA FORTALEZA [DE SÃO JOSÉ] DA ILHA DAS COBRAS

O mapa com o título “Plano da fortaleza [de São José] da Ilha das Cobras destinada a incomodar os navios que fundiarem no ancoradouro: como também para defender o desembarque que se intentar na praia da cidade, desde a ponta do Trem athe o morro de São Bento em que se mostrão os calibres dos differentes canhoens que a guarnessem, como também dos que lhe faltão proporcionados aos fins para que devem laborar nos lados em que vão determinados. Huã linha de pontinhos tirada do centro das canhoneiras com o numero arithmetico no extremo significa o calibre da peça que ali deve haver”, foi feito por José Correia Rangel de Bulhões por volta de 1789, como destacou Isa Adonias em Imagens da Formação Territorial Brasileira, p. 250.

Ele descreve a baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, destacando a fortaleza de São José na Ilha das Cobras. Esta fortaleza foi construída por Duguay-Trauin em 1711. Remodelada e ampliada em 1736, durante a gestão de Gomes Freire de Andrada. Desarmada passou à Prisão Civil em 1831. Faz parte da série de planos de fortificações remetida para o Reino em 1789 pelo Vice-Rei Luís de Vasconcelos e Sousa.

No que tange à contextualização histórica, devemos salientar que Nicolau Durand de Villegagnon (1510-1572) recebeu de Henrique II o título de vice-almirante da Bretanha. Em 1550, ele traçou planos para estabelecer uma colônia na baía de Guanabara, contando com o apoio do almirante Coligny, chefe do partido protestante, inspirou a política colonial da França e defendeu a idéia de um estabelecimento permanente e fortificado e permanente na América do Sul, além disso, vislumbrava um lugar onde os huguenotes viveriam livres da perseguição religiosa. De acordo com a historiadora Armelle Enders a baía do Rio de Janeiro prestava-se a este projeto, pois ficava situada na rota do estuário do rio da Prata e, conseqüentemente, do Alto Peru e de Potosí, cujas minas eram exploradas pelos espanhóis desde 1545.

Houve contribuição de Henrique II que incentivou a conquista, segundo Sérgio Buarque de Holanda, o rei cedeu a Villegagnon recursos financeiros, duas naus bem artilhadas, além de abundante artilharia, pólvora e tudo quanto fosse preciso para a construção e defesa de um forte. Os franceses tiveram o apoio dos índios Tupinambás que, junto com outras nações indígenas, guerrearam contra os portugueses. A união das tribos indígenas contra os portugueses ficou conhecida como a Confederação dos Tamoios.

Em 1555 fundou-se a França Antártica. A partir desta data, Villegagnon ganhou o título de vice-rei do Brasil, e ordenou a construção do forte de Coligny. A França Antártica viveu dilacerada pelas disputas teológicas em torno da eucaristia. Os católicos defendiam a eucaristia como real transubstanciação do corpo de Cristo, e os huguenotes consideravam-na apenas o seu valor simbólico. Segundo Ronaldo Vainfas, as querelas finalizaram com a perseguição do credo reformado e a morte dos dissidentes.

Os escritos protestantes consideravam a tolerância religiosa inicial como meio de reunir capitais e ludibriar os calvinistas, os católicos, em contrapartida, acreditavam na sinceridade e na tolerância de Villegagnon. Ele regressou à França para explicar os acontecimentos, permanecendo seu sobrinho, Bois-le-Comte, no comendo da França Antártica.

É importante destacar que Mem de Sá, o terceiro Governador Geral, veio para o Brasil com três metas bem definidas: pacificar a administração, atenuando os conflitos entre indígenas e colonos; restabelecer as relações com o Bispado, estremecidas durante o governo anterior e expulsar os franceses do Rio de Janeiro. Em um breve espaço de tempo atingiu as duas primeiras metas. A expulsão dos franceses só se efetivou em 1567.

A primeira expedição organizada por Mem de Sá contra os franceses ocorreu em 1560, com a destruição do forte de Coligny, eles foram expulsos temporariamente da baía de Guanabara. Em 1563 a Metrópole enviou reforços consubstanciados na expedição de Estácio de Sá. Em 1º de março de 1565, Estácio de Sá fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que serviria inicialmente de base na luta contra os franceses e seus aliados indígenas.

A luta com os franceses prosseguiu até 1567, quando Estácio de Sá recebeu reforços militares e ajuda de índios, chefiados por Araribóia, adversário dos tamoios e aliado dos portugueses. Por seu lado, os jesuítas, liderados por Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, pacificaram os índios tamoios de São Vicente, fazendo com que retirassem seu apoio aos franceses, em troca da promessa de não serem mais atacados e nem escravizados. Sem esse apoio, os franceses diminuíram a sua resistência, sendo definitivamente expulsos do Rio de Janeiro.

Em 1572, após a morte de Mem de Sá, o governo português dividiu o Governo Geral do Brasil em dois: o do norte, com sede em Salvador, e o do sul, com sede no Rio de Janeiro. Pretendia, com essa medida, organizar melhor a administração da Colônia, fortalecer a ocupação do Rio de Janeiro e de São Vicente, sempre ameaçadas pelos franceses e espanhóis, e estimular a penetração para o sul e o interior. Sem ter atingido plenamente seus objetivos, a Coroa portuguesa resolveu, em 1578, unificar, novamente, a administração da Colônia.

Após a morte do fundador, o novo capitão e governador da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi outro parente de Mem de Sá, cuja família – Correia de Sá – dominou o Rio de 1565 aos anos 1660.

Com o fim das ameaças e o crescimento da população, São Sebastião se estendeu pouco a pouco. Surgiram casas nos morros vizinhos de São Bento, Santo Antônio, da Conceição.

No século XVII, diluiu-se a oposição entre a cidade alta e a cidade baixa, típicas de outras fundações portuguesas. As primeiras ruas ligavam um morro a outro, desenhando um quadrilátero do qual a cidade levaria muito tempo para escapar. Dessa forma, se esboçou a rua Direita (atual Primeiro de Março), entre o pé do Castelo e o de São Bento, onde em 1628, os beneditinos erigiram um convento. Em 1641, a parte urbanizada se estendeu até a rua da Vala (atual Uruguaiana). Durante muito tempo, esta última não passava de um fosso concebido para drenar o pântano estagnado ao pé do morro de Santo Antônio, assim como imundícies da povoação.

Ao longo do século XVIII, o centro de gravidade da América portuguesa desviou-se do Nordeste para o Sudeste, e o Rio de Janeiro se impõe pela vontade real, como a principal cidade brasileira. Cabe ressaltar que seu progresso aconteceu em virtude de sua função militar, uma vez que a partir do Rio de Janeiro que os portugueses colonizaram o sul do Brasil e dirigiram as hostilidades contra os espanhóis do rio da Prata. A cidade também repousa sobre a descoberta do ouro de Minas Gerais, como rota obrigatória.

Com a elevação do Rio de Janeiro à dignidade de capital, o coração da cidade se fixou duradouramente ao redor do largo da residência dos vice-reis, desembocando na rua Direita.

Na segunda metade do XVIII, o Rio de Janeiro ultrapassou o recinto imaginário formado por seus quatro morros originais. As transformações da cidade eram também de ordem intelectual. Após alguns anos do aparecimento de sociedades eruditas em Lisboa , mentes ilustradas do Rio de Janeiro abriram na cidade Academias mais ou menos efêmeras.


REFERÊNCIAS

ADONIAS, Isa. Mapa: imagens da formação territorial brasileira. Rio de Janeiro: Odebrecht, 1993.
BRASIL, Assis. Villegagnon, paixão e guerra na Guanabara: da França Antártica à fundação do Rio de Janeiro. 2.ed. Rio de Janeiro: Imago, 1999.
ENDERS, Armelle. História do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Gryphus, 2002.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. “Franceses, holandeses e ingleses no Brasil quinhentista” In: HGCB. 7.ed. São Paulo: Difel, 1985. t.1, v.1, pp. 147-167.
MARIZ, Vasco. Villegagnon e a França Antártica: uma reavaliação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira : Biblioteca do Exército Editora, 2000.
SILVA, Cyro. Franca Antártica. Rio de Janeiro: s.n, 1980.
VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

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