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A França no Brasil | La France au Brésil

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Alexandre Rodrigues Ferreira e a Odisseia “Filosófica”

A « Viagem filosófica », conduzida por Alexandre Rodrigues Ferreira (1756, Bahia – 1815, Lisboa), comprova os paradoxos, acasos e imprevistos da dominação colonial do Brasil sob o reino de Dona Maria I. Inscrita em um esforço de domínio e de exploração de um território que, um pouco mais um pouco menos, suplantava a metrópole em termos de produção de riquezas, a missão padeceu de um espírito de sistema debilitado sob vários aspectos, os espécimes recolhidos, as centenas de lâminas e os escritos, fragmentados em dezenas de correspondências, relatórios e dissertações, tendo ficado durante muito tempo inexplorados ou inéditos. Além disso, em 1808, quando da invasão de Portugal pelas tropas de Junot, este tesouro foi parcialmente transferido a Paris por Étienne Geoffroy Saint-Hilaire — certas peças fazendo parte ainda hoje dos fundos do Muséum National d’Histoire Naturelle.

Aos 14 anos Alexandre Rodrigues Ferreira fora enviado a Coimbra por seu pai, um próspero comerciante de Salvador. O ensino da universidade tinha se transformado profundamente sob a impulsão das reformas e dos ideais enciclopédicos do futuro Marquês de Pombal. Foi em Coimbra que Alexandre R. Ferreira recebeu oficialmente seu título de Doutor em Filosofia Natural, em janeiro de 1779. Alguns meses antes, ele havia sido escolhido por seu antigo professor, o naturalista italiano Domenico (ou Domingos) Vandelli, para chefiar uma das expedições científicas encarregadas de esquadrinhar os domínios ultramarinos. Ele cobriria as capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, enquanto que João da Silva Feijó era enviado ao Cabo Verde, Manoel Galvão da Silva a Goa e a Moçambique, e Joaquim José da Silva a Angola.

Auxiliado por um jardineiro-botânico, Agostinho Joaquim do Cabo, e por desenhistas (riscadores), Joaquim José Codina e José Joaquim Freire, ele chegou a Belém em outubro de 1783. Agrimensou os arredores até a ilha de Marajó (ou Joanes), e subiu o baixo Tocantins. Um ano mais tarde, ele tomou o caminho do rio Negro, chegando a Barcelos em março de 1785. Após ter cruzado o norte da Amazônia, os rios Negro, Branco, e seus afluentes — a parte mais embasada da viagem —, e apesar de seu desejo de voltar a Lisboa, ele foi convidado pelo ministro da Marinha e do Ultramar, Martinho de Mello e Castro, a continuar na margem direita do Amazonas. Subindo o rio Madeira ele atingiu Vila Bela em outubro de 1789, após treze meses de peregrinações. Foi aí, na capital do Mato Grosso, que Agostinho do Cabo sucumbiu a uma forte febre.

Joaquim José Codina, por sua vez, morreu em 1791 durante incursões na direção de Cuiabá e do alto Paraguai. O que restava do grupo voltou finalmente a Belém em 12 de janeiro de 1792, antes de regressar a Lisboa no ano seguinte. Alexandre Rodrigues Ferreira seguiu sua carreira ocupando uma série de cargos administrativos cada vez mais importantes, até chegar ao posto de vice-diretor do Real Gabinete de História Natural. Mas pouco a pouco ele foi se afundando na melancolia, sem jamais retomar seus materiais que foram parcialmente exumados apenas a partir da segunda metade do século XIX.

Estes quase dez anos de périplos deveram, em condições de precariedade extenuantes, conciliar exigências ao mesmo tempo científicas, estratégicas e socio-econômicas : constituir uma rica coleção de amostras das três ordens naturais para o Real Museu de Lisboa, perfazer e estruturar os conhecimentos sobre a fauna, a flora e a etnografia da Amazônia e do Centro-Oeste; recensear os recursos hidrográficos e minerais, montar um inventário topográfico, demográfico e militar, com os trabalhos de demarcação das fronteiras sul-americanas após o Tratado de Madrid (1750) como pano de fundo; fornecer os elementos de um melhor enquadramento das populações locais, para, a certo prazo, pacificar a região e promover sua economia, isto é, a agricultura “intensiva” mais do que as “drogas do sertão”...

Na linha dos fisiocratas e servidor dos interesses da coroa, Alexandre Rodrigues Ferreira acreditava de fato em uma clara distribuição dos papéis entre a colônia, fornecedora de matérias primas, e a metrópole dispondo do capital técnico capaz de as manufaturar. Na realidade a região se transformava sob o efeito de um novo olhar, para o qual o saber não se abstraía jamais de objetivos práticos e utilitaristas. Do mesmo modo, a observação dos ameríndios não se separou muito da ambição, com frequência dissuadida pelas deserções e as rebeliões, de fazer deles “cidadãos úteis”.

A expedição filosófica se distingue das outras explorações que lhe são contemporâneas por sua amplitude e sua duração. Alimentados pelos ensaios de Linné, dos predecessores (Margrave e Pison para a época holandesa, o padre Samuel Fritz, La Condamine...), assim como dos relatos à época recentemente redigidos pelos agentes da monarquia lusitana (Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Manoel Gama Lobo d’Almada, Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, José Monteiro de Noronha, Antonio José Landi…), os escritos de Alexandre Rodrigues Ferreira serviram de base aos relatos de Joaquim Nabuco no que concerne o litígio entre o Brasil e a Guiana Inglesa (1903). Mas hoje nós apenas começamos a mesurar a riqueza documental destes testemunhos, ainda mais preciosos na medida em que permanecem, por assim dizer, em estado bruto, sobre uma realidade cujos rastos se apagaram.

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