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História da Ciência no Brasil

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Bento Sanches Dorta – Um astrônomo português no Rio de Janeiro do século XVIII

por Rundsthen Vasques de Nader/UFRJ

rvnader@astro.ufrj.br


Pode-se dizer que os trabalhos astronômicos sistemáticos, baseados em uma metodologia científica, foram inaugurados no Brasil pelos portugueses por intermédio de Bento Sanches Dorta, que residiu e fez, entre anos de 1781 a 1788, no Rio de Janeiro, além de numerosas observações meteorológicas, muitas observações de alturas do Sol e de eclipses dos satélites de Júpiter com o fim de determinar as coordenadas geográficas da cidade. Efetuou, posteriormente, observações também em São Paulo, com a mesma finalidade.

As observações de Dorta no Rio de Janeiro, feitas no Morro do Castelo, local em que, segundo o padre Serafim Leite (1890-1969) – padre da Companhia de Jesus que dedicou boa parte de sua vida à pesquisa da história dos jesuítas no Brasil – os jesuítas já haviam instalado um observatório em 1730, foram, por assim dizer, o prelúdio da cultura astronômica no país. Em 1827, seria criado por d. Pedro I o Observatório astronômico, que só começaria efetivamente a funcionar em 1846, com o nome de Imperial Observatório do Rio de Janeiro.



FIGURA 7: Vista do Morro do Castelo a partir do Morro do Santo Antônio - RIBEIRO, A. Bahia do Rio de Janeiro, Brazil: [vista panorâmica]. Rio de Janeiro, RJ: [s.n.], [entre 1910 e 1915]. Biblioteca Nacional

Bento Sanches Dorta (1739-1794), foi um astrônomo e geógrafo português, nascido em Coimbra e formado em Matemática e Filosofia pela Universidade de Coimbra que, ao terminar os estudos, solicitou sua admissão no Real Corpo de Engenheiros, que era uma parte do exército português especializada em Engenharia Militar. Sua formação no período pós-Reforma Pombalina e os princípios do Iluminismo vigentes à época despertaram seu interesse pela física experimental e pela matemática.



FIGURA 8: Imperial Observatório no Rio de Janeiro. MALTA, Augusto. [Morro do Castelo]: [edifícios]. Rio de Janeiro, RJ: [s.n.], 02 Set. 1912. Biblioteca Nacional.

Em 11 de junho de 1781, aportava na cidade do Rio de Janeiro a fragata São João Batista, trazendo a bordo Sanches Dorta, enviado ao Brasil acompanhado de outro astrônomo, Francisco de Oliveira Barbosa, com o objetivo inicial de demarcar as fronteiras entre as possessões portuguesas e espanholas na América do Sul, estabelecidas em 1777 pelo Tratado de Santo Idelfonso. Entretanto, em virtude de dificuldades diplomáticas, Dorta não seguiu para a fronteira, permanecendo sete anos no Rio de Janeiro, aguardando ordens definitivas para a execução do serviço que lhe fora confiado.

Não se resignando a ficar sem nada fazer, aproveitou esse tempo para realizar uma série de observações astronômicas, meteorológicas e magnéticas, consideradas as mais completas de que temos notícia até aquela época na Colônia.

Essas observações e análise dos valores obtidos foram publicados postumamente pela Academia de Ciências de Lisboa. Em suas Observações Astronômicas feitas 1781-83) junto ao Castello da Cidade Rio de Janeiro para determinar a Latitude e a Longitude da dita Cidade, Dorta descreve as determinações que fez da latitude e longitude do Rio de Janeiro. Os aparelhos utilizados e o modo de corrigir as observações são dados no início de seu trabalho:
Estas observações forão feitas nos annos de 1781, em 1782 com excellentes instrumentos.  As alturas meridianas do Sol, e Estrellas forão tomadas com hum Quadrante Astronômico de hum pé de raio [= 30,48 cm], construído por Mr. Sisson, artista de Londres, no anno de 1779: Os Eclipses dos Satellites de Jupiter forão observados com occulos achromaticos de Dollon, tendo hum foco de 3 ½ pés, e outro 17 polegadas [ 1 pol. = 2,54 cm].  O tempo verdadeiro foi determinado por huma exellente Pendula de segundos, regulada por muitas alturas correspondentes do Sol, tomadas antes, e depois das observações.”

“Todos estes instrumentos são parte de huma colleção que sua Magestade nos mandou entregar, quando sahimos de Lisboa para a diligencia da Demarcação d’America Meridional, entre Portugal e Espanha.” (DORTA, 1797, p. 325)

De acordo com relatos feitos por Dorta, as medições astronômicas realizadas no Morro do Castelo foram feitas com instrumentos fabricados na Inglaterra, tais como termômetros, barômetros, lunetas e por um quarto de círculo construído por Jeremiah Sisson no ano de 1779. Nessa época os instrumentos de medições estavam sendo construídos com crescente refinamento, o que melhorou qualitativamente a precisão dos valores das medidas obtidas.



FIGURA 9: Quarto de círculo de Sisson - MAST

Na imagem abaixo, vemos a reprodução do original da página 325 das Memórias da Academia Real de Sciencias de Lisboa, de onde o texto acima foi retirado. Nele é descrito todo o procedimento para a determinação da latitude e da longitude do Rio de Janeiro, feita em 22 de setembro de 1781. Para a determinação da latitude do Castelo, ele se valeu de medidas das distâncias zenitais (ângulo medido desde o zênite, ponto mais alto no céu, até o astro) de várias estrelas, encontrando o valor de 22o 54’ 13”, uma precisão impressionante se comparada com o valor atual de 22o 54’ 23”.



FIGURA 10: Primeira página do trabalho de Dorta, publicado nas Memórias da Academia Real de Sciencias de Lisboa, sobre a determinação da latitude e longitude da cidade do Rio de Janeiro.

Dorta realizou, durante 8 anos no Rio de Janeiro, uma enorme quantidade de observações meteorológicas, de declinação geomagnética, que é a diferença entre o norte ou sul geográfico, e aquele indicado por uma bússola, que é o norte ou sul magnético (cerca de 20.000), e astronômicas, numa época em que inexistiam dados sistemáticos para o Hemisfério Sul. Chegou a observar um eclipse lunar em 1783 com sua luneta acromática de Dollon, chegando a longitude que considerou definitiva para o Castelo, 03h 02m 32s a oeste de Paris. Entre 1788 e 1789 esteve em São Paulo, realizando observações astronômicas a fim de determinar as coordenadas geográficas da cidade.

As únicas fontes utilizadas até agora foram seus artigos publicados nas Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa em 1787, três anos após sua morte. Contudo, um manuscrito original inédito de Dorta, com o título Observações físicas meteorológicas feitas na cidade do Rio de Janeiro no anno de 1787, pode ser encontrado no Acervo da Biblioteca Nacional do Brasil, disponível na Biblioteca Nacional Digital, e abre uma nova oportunidade de utilização desses dados para novas análises. Na figura abaixo vemos a primeira página desse documento.



FIGURA 11: Primeira página do manuscrito Observações físicas meteorológicas feitas na cidade do Rio de Janeiro no anno de 1787, de Bento Sanches Dorta. Biblioteca Nacional

Talvez o fato mais interessante destas observações seja o possível registro, pela 1ª vez no hemisfério sul, do impacto da erupção do vulcão Laki ocorrido em 1783/1784 na Islândia, e que teve efeitos climáticos devastadores nos países do norte da Europa. Isto pode ser percebido pela análise de diminuição dos valores médios de temperaturas máxima e mínima observadas por Dorta nesses dois anos.

O que foi dito aqui é apenas uma parte do impressionante trabalho que Sanches Dorta desenvolveu no Brasil. A enorme quantidade de observações meteorológicas (precipitação, temperatura, pressão, nebulosidade, umidade), magnéticas e astronômicas  registradas por Dorta estão começando a ser analisadas por pesquisadores das diversas áreas que abrangem as suas observações como, por exemplo, José Vaquero, que estudou tempestades solares  baseado nos dados obtidos por Dorta, e Ricardo Trigo, que fez uma publicação utilizando os Dados de Dorta para associar variações de temperatura no hemisfério sul com a erupção do Vulcão Laki. Muito desse material permanece quase inexplorado, esperando alguém que aplique novas técnicas e modelos matemáticos para extrair informações de dados únicos do século XVIII, que raramente estão disponíveis, com tal volume e qualidade.

 

Fontes:

DORTA, Bento Sanches. Observações Astronômicas feitas (1781-83) junto ao Castello da Cidade Rio de Janeiro para determinar a Latitude e a Longitude da dita Cidade. In: Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Tomo I, desde 1780 até 1788. Lisboa: Na Typographia da Academia, 1797, p. 325 – 378. Disponível em: https://play.google.com/books/reader?id=peQAAAAAYAAJ&pg=GBS.PA325&hl=pt

DORTA, Bento Sanches. Observações físicas meteorológicas feitas na cidade do Rio de Janeiro no anno de 1787. Rio de Janeiro, RJ: [s.n.], 1787. 36p. 1 gráfico. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1408463/mss1408463.pdf

 

Para saber mais:

FARRONA, Ana María Marín. Bento Sanches Dorta - Representante Portugués del Progreso Científico de la Ilustración. 2011. Dissertação de Mestrado - Universidade de Lisboa, Lisboa. 243 p. Disponível em: https://repositorio.ul.pt/handle/10451/9032?locale=en

GESTEIRA, Heloísa Meireles; REIS, Alexander. Circulação de ideias, instrumentos e práticas científicas no Rio de Janeiro: as observações de Bento Sanches Dorta". Anais eletrônicos do 14° Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia. Disponível em: http://www.14snhct.sbhc.org.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=800

GESTEIRA, Heloísa Meireles. Observações astronômicas e físicas no Rio de Janeiro setecentista (1781-1787). Boletim Eletrônico da Sociedade Brasileira de História da Ciência. Número 5 - Junho de 2015. Disponível em: https://www.sbhc.org.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=827

MATSUURA, Óscar T. (org). História da Astronomia no Brasil. – Recife: Cepe, 2014. Disponível em: http://site.mast.br/HAB2013/index.html

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