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História da Ciência no Brasil

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Biblioteca Fluminense: um espaço de leitura do século XIX

por Matheus Freire/UFF-MAST

matheusfreire729@gmail.com


Para os estudos da história da ciência é vital a atenção para os ambientes de circulação de ideias. Um dos obstáculos para a compreensão das atividades científicas no Brasil era a visão de que sua vida intelectual era praticamente inexistente no século XIX. Os homens e mulheres de letras estariam fadados à cópia e à reprodução de ideias de outros centros e que sua população vivia distante dos livros e da prática da leitura.

Na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império, existiam algumas bibliotecas. Além da Biblioteca Nacional, criada ainda por D. João VI, havia outras com o perfil profissional, como a da Marinha, da Escola Central e da Faculdade de Medicina. Assim, a Biblioteca Fluminense nos chamou muita atenção, pois era uma instituição privada que atendia ao público em geral.

É importante lembrar que os espaços de leitura sofreram grandes alterações ao longo do século XIX. Uma dessas alterações foi a ressignificação das bibliotecas. Ao longo do século, a sociedade ocidental europeia passou a enxergá-las como marco civilizatório. Sendo desta maneira espaços obrigatórios para qualquer sociedade que aspirava ser vista como erudita, evoluída, ou simplesmente civilizada. Esses espaços deveriam se tornar ambientes voltados para o desenvolvimento humano e refinamento da sociedade como um todo. Esta visão foi adotada no nosso país e, portanto, o século XIX foi um período de expansão do número de bibliotecas e sociedades literárias (DENIPOTI, 2007).

Cada um desses espaços de leitura coletiva tinha visões particulares de leitores ideais, assim como objetivos próprios a se concretizar. Algumas das estratégias utilizadas para implementá-los, pelo menos em seu corpo de usuários, foi a restrição de acesso para nacionalidades, gêneros e ofícios específicos. Outros lançaram mão da implementação de taxas e mensalidades.

A Biblioteca Fluminense, um espaço de leitura privado, foi fundada no dia 11 de abril de 1847. Através de uma propaganda de 1849, publicada no Almanak administrativo, mercantil e industrial do Rio de Janeiro, descobrimos o seu endereço inicial, o número 87 da rua dos Ourives (ALMANAK…, 1849, p.243), no centro do Rio de Janeiro. Através das publicações anuais desse Almanak, ficamos a par do acervo, endereços e membros diretores da sua fundação em meados do século XIX.  Sabemos que o acervo de 1849 era de 5.000 volumes de assuntos variados como ciências, literatura, medicina e jornais diversos, e era ofertada ao público em geral a assinatura do serviço por 12 Réis anuais (ALMANAK…, 1849, p.243). Na mesma publicação, se encontra o horário de funcionamento da Biblioteca: em dias úteis estava aberta de 8 até 14 horas e depois reabria das 16 até as 20 horas. Nos feriados, funcionava das 8 horas ao meio dia.

Por se tratar de um espaço privado, a Biblioteca Fluminense restringia automaticamente o seu público aos que detinham renda suficiente para assinar seus serviços. Entretanto, sua existência demonstra que a ideia do historiador José Murilo de Carvalho (1996, p. 55), de que “a elite era uma ilha de letrados num mar de analfabetos” pode ser relativizada. Uma vez que havia leitores em vários estratos da sociedade, é interessante notar que as mulheres eram permitidas como usuárias, mas não como sócias. A expansão do acervo da biblioteca foi rápida e constante. Em 10 anos, cresceu 420%, atingindo a marca de 26 mil volumes em 1859. A instituição passou por diversos endereços ao longo da sua história. Em 1851, apenas quatro anos após a sua fundação, ela já detinha um novo endereço, a rua da Quitanda n°143, onde permaneceu somente um ano, quando seus membros optaram por construir uma sede para a Biblioteca, no número 45 da hoje extinta Rua do Sabão, que se localizava paralela à Igreja da Candelária, atual Avenida Presidente Vargas.

A nova sede foi construída mediante um acordo de locação do terreno com a Irmandade de N. S. Mãe dos Homens, por arrendamento de 21 anos. Após o término do contrato, a Biblioteca retornou às mudanças constantes, em 1873 seu endereço era o nº 45 da General Câmara e, em 1875, ocupou o nº 37 da mesma rua.



FIGURA 28: Aquarela de José dos Reis Carvalho nomeada A iluminação de azeite de peixe de 1851, ilustrando a esquina de uma das ruas que foram endereço da Biblioteca Fluminense, a Rua do Sabão.

Foi na rua do Ouvidor, que a associação construiu uma nova sede, mais moderna, espaçosa e condizente com a visão dos seus diretores. O dinheiro para a construção do novo prédio veio, em grande parte, das 40 loterias concedidas pelo Estado no Decreto de Nº 2350, de 27 de agosto de 1873 (BRASIL, 1879). Foi na nova sede que a Biblioteca Fluminense atingiu o ápice de seu acervo, contabilizando 90 mil volumes em 1899 (ALMANAK…, 1899, p.795).

Como um centro cultural de grande relevância à época, chegou a sediar a Academia Brasileira de Letras por um breve período. (ACADEMIA…, 1923). Em um de seus salões ocorreu a proclamação da fundação do Partido Moderado, por Paulino José Soares de Sousa, em 1891 (CONSELHEIRO..., 1919). A matéria de 24 de maio de 1891, do Jornal do Commercio, dá um vislumbre da opinião da sociedade sobre a instituição: “a Biblioteca é uma das mais ricas em coleções nacionais, sendo até considerada por alguns entendidos de opinião, que a respeito de opúsculos históricos e jornais políticos, é mais rica do que a Nacional” (BIBLIOTHECA..., 1891).

O primeiro artigo do estatuto de 1864 da instituição define que “a associação denominada Bibliotheca Fluminense, tem por fim estabelecer na cidade do Rio de Janeiro uma bibliotheca que sirva para a leitura e instrução dos seus membros” (BIBLIOTECA, 1866, p.309). Esta visão conflui com a ideia, à época, das bibliotecas como marco civilizatório. Para além disso, o artigo restringe a esfera de atuação da associação ao seu seleto grupo de membros. Conforme mencionado anteriormente, a Biblioteca Fluminense oferecia serviços de assinatura ao público em geral, entretanto, o corpo de membros da instituição não era composto somente por assinantes, mas também por acionistas e beneméritos. O que separava essas categorias era o fato de que somente os acionistas detinham agência política na instituição, exercida nas eleições anuais e nas assembleias da Biblioteca.



FIGURA 29: Capa do Catálogo da Biblioteca Fluminense,  livro que continha a listagem de obras na biblioteca, assim como os seus estatutos que nos detalham o seu funcionamento e objetivos enquanto associação. 1866.

As eleições escolhiam a mesa diretora da associação, que tinha como função administrar a biblioteca e garantir o seu funcionamento. Apesar dos pleitos recorrentes, era comum na biblioteca longos períodos com pouca ou nenhuma mudança em sua diretoria, tendo como maior exemplo a longa permanência da família Soares de Sousa na presidência. Paulino José Soares de Sousa, o Visconde de Uruguai e o seu filho Paulino José Soares de Sousa exerceram o cargo de presidente por 44 dos 69 anos de funcionamento da Biblioteca Fluminense.



FIGURA 30: Visconde de Uruguai, presidente da Biblioteca Fluminense por um extenso período. 1843.

A Biblioteca Fluminense foi um centro cultural relevante na sociedade fluminense por décadas. Dirigida por figuras célebres como o Visconde de Uruguai, sediou exposições, foi lar da Academia Brasileira de Letras por um breve período e era assunto recorrente nas colunas dos jornais. Um espaço que permitia a seus associados levar obras para casa, contava com eleições anuais para determinar seus diretores e buscou de maneira sucessiva a expansão do seu acervo. Entretanto, nem todos esses fatores impediram a sua falência. A Biblioteca Fluminense fechou as suas portas em 1916, seu acervo foi doado à Biblioteca Nacional e hoje compõe uma das suas centenas de coleções.

 

 Para Saber mais:

 DENIPOTI, Cláudio. Decência imperial, silêncio republicano: normas e gestualidades da leitura em regimentos e estatutos de bibliotecas (1821-1918). Varia hist. [online]. vol. 23, n.38, 2007. Disponível em:  <https://doi.org/10.1590/S0104-87752007000200020>

BESSONE, Tania Maria. Palácios de Destinos Cruzados: Bibliotecas, Homens e Livros no Rio de Janeiro, 1870-1920. São Paulo. Editora EDUSP. 2015.

 

Fontes:

ACADEMIA Brasileira a sua próxima mudança. Jornal do Commercio. 1923. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=364568_11&pesq=%22Bibliotheca%20fluminense%22>  Acesso em: 15 dez. 2021.

ALMANAK ADMINISTRATIVO, MERCANTIL E INDUSTRIAL DO RJ. Rio de Janeiro. 1849. Disponível em:  <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=313394x&pesq=> Acesso em: 15 dez. 2021.

ALMANAK LAEMMERT ADMINISTRATIVO, MERCANTIL E INDUSTRIAL DO RJ. Rio de Janeiro. 1899. Disponível em:   <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=313394&pesq=> Acesso em: 15 dez. 2021.

BIBLIOTECA FLUMINENSE. Catálogo dos livros da Bibliotheca Fluminense. Rio de Janeiro. 1866. Disponível em: <http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_obrasraras/or1292572/or1292572.pdf > Acesso em: 15 dez. 2021.

BIBLIOTHECA Fluminense. Jornal do Commercio. 1891. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=364568_08&pesq=%22Bibliotheca%20fluminense%22>.  Acesso em: 04 mar. 2020.

BRASIL. Decreto Nº 7.122A, de 4 de janeiro de 1879. Designa a ordem em que devem ser extraídas as loterias no anno de 1879. Diário Oficial do Império do Brasil, 1879. Disponível em:  <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/historicos/dim/DIM7122A.htm>.

CARVALHO, José dos Reis. A iluminação de azeite de peixe. [S.l.: s.n.], [1851]. 1 desenho, aquarela, col, 17,2 x 18,5cm colado em f. 22,8 x 32,3cm. Disponível em: http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.asp?codigo_sophia=2343. Acesso em: 15 dez. 2021.

CONSELHEIRO Paulino José Soares de Souza. Jornal do Commercio. 1919. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=364568_10&pesq=%22Bibliotheca%20fluminense%22>.

 

Referências Bibliográficas:

CARVALHO, José Murilo de. A Construção da ordem: a elite política imperial; Teatro de Sombras: a política imperial/ José Murilo de Carvalho. 2.ed.rev. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, Relume-Dumará, 1996.

DENIPOTI, Cláudio. Decência imperial, silêncio republicano: normas e gestualidades da leitura em regimentos e estatutos de bibliotecas (1821-1918). Varia hist. [online]. vol. 23, n.38, 2007. Disponível em:

<https://doi.org/10.1590/S0104-87752007000200020> Acesso em: 15 dez. 2021

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