BNDigital

História da Ciência no Brasil

< Voltar para Dossiês

“Cartas a uma senhora”: mulheres e ciência no século XIX

por Moema Vergara/ MAST

moema@mast.br


Uma das preocupações atuais da História da Ciência é dar mais visibilidade para as mulheres na prática científica. Isso não é fácil, uma vez que as fontes nem sempre nos ajudam. Assim, o/a historiador/a sai em busca de indícios deste binômio mulheres e ciência. Um exemplo deste esforço pode ser visto nos artigos intitulados “cartas a uma senhora” escritas por Rangel S. Paio e publicadas n’O Vulgarizador na década de 1870 no Rio de Janeiro. Nesses textos podemos ver o papel das mulheres enquanto público-alvo para compreender uma nova ideia que estava circulando na sociedade brasileira: o darwinismo.



FIGURA 31: [TRÊS mulheres de vestidos longos: Modelo de traje feminino do séc. XIX]. Rio de Janeiro, RJ: A Estação, 1880]. Biblioteca Nacional.

Durante aquele momento do Segundo Reinado havia diferentes formas de apresentação pública da ciência, fazendo desta um espetáculo. Portanto, na cidade do Rio de Janeiro já havia um público para os assuntos de ciência que assistia às conferências populares da Glória, visitava o Museu Nacional, ia às Exposições Nacionais e lia jornais e revistas para se manter informado das conquistas de instituições científicas tanto nacionais quanto estrangeiras. E o público feminino fazia parte deste movimento.

Vários foram os periódicos dessa época que entraram em circulação e que não estavam ligados às instituições científicas. Eram iniciativas de homens de letras que tinham o projeto de divulgar o conhecimento científico no meio intelectual brasileiro, como uma maneira de combater o que eles qualificavam como um ‘ambiente repleto de atraso e superstições’. Um exemplo dessas iniciativas que pode ser considerado é O Vulgarizador: jornal dos conhecimentos úteis (1877–1880), que pretendia ser uma publicação semanal, mas não conseguiu manter a periodicidade, editando 40 números durante os quatro anos de existência.

N’O Vulgarizador, há uma série de cinco artigos sob o título “O darwinismo: cartas a uma senhora”, que se estenderam de 1877 a 1878, todos assinados por João Zeferino Rangel de S. Paio (1838–1893), nascido no Rio de Janeiro, proveniente de família sem muitos recursos e que encontrou nas letras uma forma de projeção social, chegando a ocupar o cargo de chefe de seção da Alfândega na Capital Federal. Rangel S. Paio era um dos muitos homens de letras que no Brasil desempenharam o papel de ‘vulgarizadores da ciência’, expressão bastante utilizada na época para designar a atividade de tradução do conhecimento científico em termos leigos, tornando-o ‘acessível a todas as inteligências’, sem necessariamente desenvolver uma atividade profissional no campo científico.

Nas cartas publicadas n’O Vulgarizador, a senhora para quem Rangel S. Paio se dirigiu chamava-se D. Julia. Dela sabe-se quase nada, nem sequer seu sobrenome; contudo, o autor a apresenta como uma “diletante de bom gosto”. Há a hipótese de que essa senhora seria uma construção de Rangel S. Paio, talvez até decalcada das mulheres da Corte que frequentavam os cursos públicos do Museu Nacional ou as Conferências da Glória. N’O Vulgarizador não há registro das possíveis respostas de D. Julia: esta se faz presente através do texto de Rangel S. Paio, por meio de perguntas que o autor supõe que ela gostaria de fazer, dando a sensação de que o leitor está assistindo a uma conversa imaginada pelo autor. Essa é a primeira tensão entre o masculino e o feminino apresentada no texto, ou seja, ao público é apresentada uma imagem de mulher formulada pelo autor.

De acordo com Rangel S. Paio, o que o motivou a escrever aquelas cartas teria sido uma suposta conversa com D. Julia após uma conferência sobre as plantas do deserto, proferida por Saldanha da Gama. As conferências públicas sobre o darwinismo arrastavam uma audiência cada vez mais numerosa na cidade do Rio de Janeiro, incluindo a participação assídua dos jovens, do Imperador e mesmo do ‘belo sexo’. Rangel S. Paio relatou que ficou surpreso com as posições contrárias ao darwinismo de sua amiga, reforçando alguns dos estereótipos de gênero de então:
doeu-me profundamente vê-la, minha senhora, V. Ex., que é tão generosa, cujo coração é aberto a todas as harmonias e grandezas naturais, V. Ex. que sempre tem um aplauso para todos os grandes cometimentos do homem, um lugar em todos os festins da inteligência, uma simpatia para todo o esforço nobre; doeu-me vê-la enfileirada entre os inimigos de Carlos Darwin. (Rangel S. Paio, 1877, p. 111).

A presença de D. Julia em conferências públicas também deve ser interpretada como um indício do processo de modernização e de urbanização pelo qual a sociedade do Segundo Império estava passando. Se a mulher do período colonial, proveniente da família patriarcal brasileira, comandada pelo pai detentor de enorme poder sobre seus dependentes, agregados e escravos, não podia ir muito além da casa-grande, a mulher da segunda metade do século XIX já estava ganhando as ruas. Importante lembrar que as ruas da cidade do Rio de Janeiro no século XVIII eram insalubres e sua ocupação não possuía regras definidas. No século seguinte, observamos a implementação de políticas públicas baseadas em medidas higiênicas, fazendo com que as ruas da cidade pudessem ser mais facilmente percorridas pelas senhoras da Corte.



FIGURA 32: Interior de uma habitação de ciganos no Rio de Janeiro. THIERRY FRÈRES. Intérieur d'une habitation de cigannos. Paris [França]: Firmin Didot Frères, 1835. Biblioteca Nacional.

Também é preciso fazer a ressalva de que esse conjunto de cartas não se endereçava a todas as mulheres, mas ao segmento da sociedade que usualmente se designa por elite. Na gravura de Debret acima, podemos observar que as mulheres brancas do século XIX conviviam no mesmo espaço com as mulheres escravizadas responsáveis pelo trabalho e cuidado de seus filhos, como o caso das amas de leite.

O final desta história fica em aberto, pois não se sabe se D. Julia terminou por enfileirar-se aos ‘amigos de Carlos Darwin’, ou se ficou menos apavorada nas conferências seguintes a que assistiu. Para nós, em todo caso, a série de “cartas a uma senhora” contribuiu para se ter uma ideia mais precisa dos processos de divulgação científica do século XIX e da imagem feminina que neles foi projetada.

 

Fontes

O Vulgarizador: jornal dos conhecimentos úteis. 1877. Rio de Janeiro. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReaderMobile.aspx?bib=778010&pasta=ano%20187&pesq=

 

Referências:

RANGEL S. PAIO, J. Z. O Darwinismo: cartas a uma senhora. O Vulgarizador, 1877.

 

Para Saber Mais:

VERGARA, Moema de Rezende. As Imagens Femininas n`O Vulgarizador: público de ciência e mulheres no século XIX. História, Ciências, Saúde-Manguinhos (Impresso). , v.15, p.191-208, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/hcsm/a/rNSKkdxvRRx7nYPD8nNcnSN/?lang=pt

VERGARA, Moema de Rezende. Cartas a uma senhora. ESTUDOS FEMINISTAS. , v.15, p.383-398, 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/HGjGBmzRvF8W4qSMBJySVPv/abstract/?lang=pt

VERGARA, Moema de Rezende. Mapas de Processos de Formação de Identidade de Gênero no século XIX: o caso de Flora Tristan. História Social (Campinas)., v.8/9, p.175 - 210, 2002.

Parceiros