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Histórias da Nova Holanda

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Um duelo fatal em Sirinhaém

por Mark Ponte
Os arquivos notariais de Amsterdã estão cheios de histórias, grandes e pequenas, sobre soldados e outros que passaram pelo Brasil Holandês. Histórias que revelam um pouco do cotidiano da colônia holandesa no Brasil. Nos últimos anos, milhares destes relatos foram indexados e podem ser encontrados no índice digital das atas notariais do Arquivo da Cidade de Amsterdã.

Em 3 de novembro de 1651, dois veteranos do Brasil — Jan Daniels, de Liège, e Frans Elias, de Leuvenstein — fizeram uma declaração ao notário a pedido da Companhia das Índias Ocidentais. Os dois tinham partido para o Brasil 17 anos antes em um barco denominado De Overijssel, da Companhia. Jan foi como sargento e Frans como soldado, e na ocasião já haviam retornado há mais de 10 anos para Amsterdã, onde residiam naquele momento. No Brasil, serviram junto com Pieter Locht, de Duisburg, sobre quem Jan e Frans prestam a referida declaração.


Guerra dos Oitenta Anos

Frans Elias já conhecia Pieter Locht antes daquela época porque atuaram juntos em um importante cerco do exército holandês durante a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), feito em 's-Hertogenbosch no ano de 1629. Pieter Locht saiu dali vivo por pouco. Havia matado — provavelmente por acidente — um moleiro de 's-Hertogenbosch, crime pelo qual foi condenado à morte. Elias tinha inclusive visto "o caixão que fora feito para seu funeral" quando foi "perdoado" pelo oficial Joan Wolfert van Brederode, por ser um “bom soldado e de grande mérito”.


O cerco de 's-Hertogenbosch por Frederik Hendrik, 1629, Pieter de Neyn (atribuído a), c. 1629 - 1639 (Rijksmuseum)


Duelo fatal

Em 1634, Elias e Locht partiram para o Brasil, onde ficaram estacionados em Sirinhaém, no sul de Pernambuco. Muitos soldados encontraram a morte na colônia, seja por violência, fome ou doença, incluindo Pieter Locht. Num dia de maio de 1640, ele estava bebendo com dois colegas quando, por motivos pouco claros, teve uma discussão com Dirck Cornelisz, de Vleuten. A briga terminou em um duelo no qual Dirck esfaqueou Pieter no estômago e ele morreu no local.


Vista do Sirinhaém (Arquivo Nacional da Holanda)

O agressor fogiu para a mata de Sirinhaém, nas proximidades de Ipojuca, onde ficou escondido por algum tempo. Recebia, contudo, ajuda de Frans Elias, que lhe dava comida. Não se sabe o que comoveu Frans, mas ele chegou a convocar o clero católico de Ipojuca para enviar uma carta ao governador Maurício de Nassau pedindo perdão para Dirck, o que de fato aconteceu. Logo Dirck voltou a reunir-se com seus colegas.


Fontes

Declaração de Jan Daniels van Luijck e Frans Elias van Leuvestein, 3 de novembro de 1651Verklaring Jan Daniels van Luijck en Frans Elias Van Leuvestein, 3 november 1651.


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