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Histórias da Nova Holanda

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Vendedores de Alma

por Bruno Miranda
A atuação de recrutadores para a Companhia das Índias Ocidentais (1)

Atrair homens para lutar em conflitos que castigaram a Europa, suas colônias e entrepostos comerciais nos séculos XVII e XVIII não era tarefa simples. Por isso, durante os anos de ocupação dos holandeses no Nordeste do Brasil, entre 1624 e 1654, os recrutadores tiveram papel fundamental no alistamento de soldados. A fim de conseguir contingente suficiente para guarnecer navios e fortificações, alguns deles lançavam mão de armadilhas, prometendo mundos e fundos aos recrutados.

Este tipo de recrutamento era comum na República das Províncias Unidas e ajudava a atender às demandas da Companhia das Índias Ocidentais, assim como outras companhias de comércio e até mesmo o exército da República. Um exemplo desta prática está no livro História das Últimas Lutas no Brasil entre Holandeses e Portugueses (1651), de Pierre Moreau (?-1660), que conta como seis jovens viajantes franceses foram abordados por dois homens em Midelburgo, capital da Província da Zelândia. Os aliciadores tentaram convencê-los a seguir viagem para o Nordeste do Brasil por volta de 1645 – a região estava parcialmente ocupada desde 1630. Esses recrutadores prometiam benefícios, como a possibilidade de enriquecimento por meio da pilhagem de portugueses. Mas um dos jovens, recém-chegado do Brasil, advertiu os demais: disse que as promessas eram falsas, livrando todos da cilada.

Os aliciadores circulavam pelos portos, perto de bares, bordéis e alojamentos, abordando viajantes recém-chegados às Províncias Unidas dos Países Baixos. Nestes ambientes, os donos de estabelecimentos reuniam possíveis soldados para as companhias comerciais holandesas. Os alvos prioritários eram homens desempregados e pobres, sobretudo estrangeiros que viajavam para as cidades da República procurando trabalho.


Nieuwe-Zyds Heeren Logement, 1663. Tot 1647 hoofdkantoor van de WIC in Amsterdam.

Moreau descreveu os recrutadores como donos de alojamentos, que mantinham os clientes hospedados até gastarem todo o dinheiro e passarem a consumir a descoberto, criando uma linha de crédito. Impossibilitados de saldar os débitos, os hóspedes eram obrigados a entrar no serviço de umas das companhias para saldar suas dívidas. Cada recrutado receberia da Companhia das Índias Ocidentais dois meses de salário adiantado. Aos recrutados como soldados, a Companhia das Índias Ocidentais oferecia um pagamento de oito florins mensais acrescidos de cinco florins de ajuda de custo. Os recrutados também receberiam comida, cujo valor era deduzido da conta-salário.

Esses comerciantes temiam que seus recrutados fugissem antes de firmar compromisso com alguma companhia de comércio para escapar das dívidas contraídas. Alguns dos aliciados poderiam ficar presos ou sob vigilância até pagarem suas dívidas, embora a relação com o recrutador pudesse também ser amistosa. Era quase certo, contudo, que se as contas fossem tão elevadas que os clientes não pudessem pagar com o dinheiro recebido pelo recrutamento, eles podiam ser impelidos a assinar uma cédula de transporte. O documento permitia que o aliciador sacasse o dinheiro da conta do recrutado no fim do tempo de serviço ou em períodos determinados, de forma que a dívida com hospedagem, comida e equipamento de viagem fosse amortizada.

Essa espécie de nota promissória normalmente era revendida a terceiros ou a credores do dono do alojamento, que a compravam por valor inferior ao débito. A palavra cédula, em holandês ceel, foi substituída, no jargão popular, por ziel, que significa alma, dando origem às expressões “vendedor de alma” e “comprador de alma”.


West-Indisch Huis aan de Haarlemmerstraat, deatil op de kaart van Balthasar Florisz van Berckenrode, 1625.

Alguns relatos de viajantes que vieram para o Brasil e outras paragens das Índias chegaram a narrar um pouco da experiência vivida nesses alojamentos. O dinamarquês Peter Hansen (1624-1672) e um amigo estiveram, em 1644, num desses locais, em Amsterdã, antes de assinarem contrato com a Companhia das Índias Ocidentais. Peter contou que a dona da casa os levou a um jardim, onde uma prostituta serviu vinho e ofereceu serviços sexuais. Ao ser assediado, ele escapou do alojamento, indo se hospedar em outra estalagem, provavelmente relacionada ao sistema de recrutamento. Já o alemão Stephan Carl Behaim (1612-1638), antes de embarcar para o Brasil, em 1636, também foi parar numa dessas hospedarias. Ameaçado, não teve como pagar a dívida, e se viu obrigado a prestar serviço à Companhia.

As dívidas eram altas, como mostram os relatos de alguns soldados recrutados nesse esquema. Cinco pessoas que navegaram para Guiné, em 1625, atestaram em cartório deverem somas por dívidas com alimentos e empréstimos a Bartel Jansen e que ele ou os portadores da obrigação poderiam requerer, dos salários a vencer, as quantias devidas aos administradores da Companhia das Índias Ocidentais em Amsterdã. Já o cadete naval Anthoni Tournemine, de Paris, partiu para os Novos Países Baixos – a colônia da Companhia na América do Norte – autorizando o dono da hospedaria Os Três Mercadores, Michiel Chauvyen, no dia 20 de janeiro de 1637, a receber 135 florins pelos 18 meses de confinamento, quantia elevadíssima para quem recebia cerca de 10 florins por mês. O marujo Jan Jansz, após voltar do Brasil, para onde partira em 1639, seguiu novamente em 1645, deixando uma declaração no notário de Amsterdã, datada de 6 de maio, que autorizava o dono de estalagem, Andries Claesz, a receber todos seus salários atrasados no Brasil.

Nem todos os recrutados foram enganados por aliciadores e donos de estalagem. Alguns do recrutados, enquanto buscavam trabalho, dirigiram-se aos estabelecimentos dos vendedores e compradores de alma pela simples falta de condições financeiras, pela dificuldade de encontrar alojamento nos Países Baixos ou por insuficiência de fundos para obter equipamentos para a viagem em uma das frotas que partiam para as Índias. Nesse sentido, a ação dos “vendedores de alma” não era necessariamente negativa. Alguns recrutados podiam até mesmo estabelecer algum vínculo com seus hospedeiros. Talvez tenha sido o caso de Jacobs Bes, de Gdańsk. Antes de partir para a Guiné a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, ele deixou – sob a possibilidade de vir a falecer – seus salários ganhos e a vencer em testamento para sua “slaapvrouw” Suijtgen Claes, seu marido Bartelt Marckensen e filhos. Não foi alegada uma dívida, como normalmente era feito nesses tipos de registros.

Por segurança, muitos donos de hospedaria repassavam as promissórias como garantia de pagamento da dívida. Essas notas registravam elevadas somas de dinheiro que só podiam ser sacadas em um escritório de pagamento nos Países Baixos. Eles esperavam meses, e às vezes anos, para reaver o dinheiro investido, o que significava que obtinham lucros menores que o esperado. Caso o recrutado morresse ou desertasse, o portador da promissória não poderia sacar o dinheiro. Como muitos mantenedores não eram ricos e precisavam pagar pela comida, bebida e equipamentos comprados a crédito, a saída era repassar a cédula por valor mais baixo, mas em espécie.

Os donos de alojamento também se empenhavam em arregimentar ex-empregados das companhias, principalmente quando eles voltavam para a Europa. Muitos desses homens desembarcavam dos navios, sacavam o dinheiro de suas contas e em seguida se instalavam em hospedarias e bordéis, onde passavam algumas semanas vivendo luxuosamente. Essa estada faustosa lhes rendeu o apelido de “nobres das seis semanas”, referência ao tempo médio em que torravam todo o dinheiro acumulado em anos de trabalho nas Índias.

Vendedores e compradores de cédulas lucravam com o recrutamento, mas quem usualmente pagava a conta eram os contratados das companhias. Apesar das desvantagens, o sistema não era totalmente desaprovado e funcionou sem maiores problemas até 1740, quando a má fama dos aliciadores passou a interferir no negócio. O fato de o sistema oficioso ter sido utilizado para contratar homens para os exércitos gerou vantagens: milhares foram enviados para as Índias Ocidentais e Orientais. A fama conquistada pelas companhias comerciais holandesas, fruto do comércio lucrativo, existe até hoje. Mas contrasta com o esquecimento a que foram condenados alguns dos protagonistas do sistema, os compradores e vendedores de almas.


Fontes utilizadas no texto:

TEENSMA, B. N.; MIRANDA, Bruno; XAVIER, Lucia. (Org.). Peter Hansen Hajstrup. Viagem ao Brasil (1644-1654). Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 2016.

MOREAU, Pierre. História das últimas lutas no Brasil entre holandeses e portugueses. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1979.

OZMENT, Steven. Three Behaim Boys. Growing Up in Early Modern Germany. New Haven/London: Yale University Press, 1990.

Stadsarchief Amsterdam, Notarieel Archief, 751/1st akte van 1637, 20-01-1637.
Stadsarchief Amsterdam, Notarieel Archief, 834/38, 14-04-1627.
Stadsarchief Amsterdam, Notarieel Archief, 834/38, 14-04-1627.
Stadsarchief Amsterdam, Notarieel Archief, 1291/69v, 06-05-1645.
Stadsarchief Amsterdam, Notarieel Archief, 485/map 4/61, 16-08-1625.
Stadsarchief Amsterdam, Notarieel Archief, 485/map 4/62, 16-08-1625.
Stadsarchief Amsterdam, Notarieel Archief, 485/map 4/63, 16-08-1625.
Stadsarchief Amsterdam, Notarieel Archief, 485/map 4/64, 16-08-1625.
Stadsarchief Amsterdam, Notarieel Archief, 485/map 4/65, 16-08-1625.


Saiba Mais:

ALPHEN, Marc van. ‘Handel en wandel van de transportkoper. Opkopers van VOC-transportbrieven in Enkhuizen (1700-1725)’. Amsterdam: Doctoraal scriptie, Universiteit van Amsterdam, 1988.

GELDER, Roelof van. Het Oost-Indisch avontuur. Duitsers in dienst van de VOC. Nijmegen: Uijtgeverij SUN, 1997.

KETTING, Herman. Leven, werk en rebellie aan boord van Oost-Indiëvaarders (1595-1650). Amsterdam: Het Spinhuis, 2005.

MIRANDA, Bruno Romero Ferreira. Gente de Guerra: Origem, Cotidiano e Resistência dos Soldados do Exército da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil (1630-1654). Recife: Editora da Universidade Federal de Pernambuco, 2014.

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(1) Esse texto foi originalmente publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro, n. 77, 2012). A presente versão foi revista e ampliada para o Projeto Histórias da Nova Holanda.

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