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O BRASIL ENCONTRA O EXTREMO ORIENTE: A MISSÃO CHINESA (1880)

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A crítica ao ópio

Numa luta consciente contra os preconceitos e estereótipos, Henrique Lisboa dedicou um espaço de seu trabalho para criticar as fantasias negativas sobre os chineses. Contra a acusação muito propagandeada pelos adversários da imigração chinesa – de que os chineses seriam viciados em ópio – ele mostrou que:

Muito se tem exagerado sobre o uso do ópio na China. Pode-se comparar o seu abuso ao vício da embriaguez entre os ocidentais; geralmente reprovado, apenas afeta esse vício uma parte relativamente diminuta da população. O ópio ainda está menos generalizado na China do que as bebidas alcoólicas no ocidente, e os ébrios inveterados são, entre algumas raças europeias, muito mais numerosos do que os que chegam, na China, ao estado de bestialidade a que conduz o abuso daquela droga. Para demonstrar tal asserção, basta notar que a introdução anual do ópio na China é de 4½ milhões de quilogramas, o que, sendo o consumo médio de um fumador ordinário de 10 gramas diários, faz apenas subir o número de consumidores a 1.260.000, sem levar-se em conta a redução que deve sofrer esse número pela exageração do vício entre os que duplicam ou mesmo triplicam aquela ração diária. Essa cifra está para a população de 400 milhões da China na razão aproximada de 3 por 1.000. Felizes os países ocidentais se o uso e abuso das bebidas alcoólicas alcançassem neles tão reduzida proporção!



Fig. 39 - ‘O fumador de ópio’, do livro A China e os chins. [1888, p.67]. Imagem capturada na Biblioteca Nacional de Portugal.
Fonte: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional

Lisboa também comparou o costume de enfaixamento dos pés com o do espartilho, mostrando como ambas eram formas aviltantes de estética – essa consideração é bastante reveladora, já que mostra que o autor foi capaz de superar as crenças orientalistas vulgares.

»Veja mais: Luiza Lopes da Silva discute a questão das drogas ao longo da história e seu papel nas relações internacionais.


 

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