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O BRASIL ENCONTRA O EXTREMO ORIENTE: A MISSÃO CHINESA (1880)

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Contar a história da China

A primeira coisa que Henrique Lisboa faz em seu livro é contar um pouco sobre a história da China. Ele comenta sobre o ambiente desconfortável causado pela presença europeia no país, os tratados desiguais e o tenso relacionamento entre ocidentais e chineses. Era um choque de realidade, que contrastava com os relatos anteriores sobre o país. Até então, quase tudo o que se sabia sobre a China vinha pelas mãos dos missionários cristãos, mais interessados em como converter o povo. Foi no século 19 que uma Sinologia acadêmica surgiu, propondo uma visão alternativa sobre essa civilização – mas grande parte dos pesquisadores servia a agenda política de suas nações e, por isso, seus trabalhos também cumpriam funções específicas.

Fig. 29 - Mapa da China, no livro 'A China e os chins' [Lisboa, 1888]. Imagem capturada na Biblioteca Nacional de Portugal.
Fonte: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional.

Lisboa estava absolutamente consciente dessas dificuldades, tentando mostrar ao leitor que as visões sobre a China estavam contaminadas indissociavelmente de propósitos religiosos e coloniais:

Aos primeiros passos que fez na China a propaganda cristã, convenceu-se de que já não ia haver-se com povos selvagens de fácil conversão. Ali encontraram os primeiros missionários uma nação solidamente organizada e em um estado de civilização moral e material em que nem sonhavam então os povos europeus. O monoteísmo puro, desprendido de misticismo supersticioso e os dogmas que fundam na razão e na prática do bem a missão da humanidade, na sua transitória existência terrestre, formavam desde tempos imemoriais a base do culto religioso desse povo inteligente e pensador. A generosa despreocupação com que os espíritos superiores encaram geralmente os erros alheios, permitiu que, sob o regímen ao mesmo tempo patriarcal e liberal que imperava na China nos primeiros tempos de cristianismo, se introduzissem aí o judaísmo, alguns cultos idólatras e, posteriormente, o maometismo. Essas crenças, toleradas pelas dinastias anteriores, tiveram, porém, desenvolvimento mais sensível depois da invasão dos tártaros ocorrida em 1640. Esses conquistadores perceberam depressa que as dissensões religiosas lhes forneceriam um poderoso auxílio para a consolidação do seu domínio e desde então aqueles diversos credos e o cristianismo, que já se havia também timidamente introduzido, receberam uma proteção interessada. Essas facilidades não produziram, contudo, os resultados que delas esperavam os missionários cristãos. Os princípios filosóficos profundamente arraigados na população não permitiram que, mesmo ao amparo oficial, conseguisse a propaganda aumentar de modo sensível o número dos prosélitos. Nada adiantando pela discussão com entendimentos claros, inimigos do sofisma, e que nenhuma vantagem encontravam em trocar um culto velho de quarenta séculos e fundado numa moral sã, por outro em que os ritos externos tanto se assemelhavam às detestadas práticas idólatras; não podendo tampouco apelar aí à força persuasiva da inquisição com suas intrigas desorganizadoras e seus autos de fé, procuraram os missionários outros meios de ação, limitando as suas diligências à conversão das classes mais ignorantes e miseráveis daquela sociedade. Apercebidos de algumas vantagens já então alcançadas pelo sistema de assimilação às superstições e aos costumes chineses adotados pela propaganda budista, resolveram os padres jesuítas imitá-lo, iniciando desde então as práticas que fazem ainda hoje desconhecer a sua religião aos viajantes católicos na China. Uma fantástica ornamentação de igrejas, vestimentas aparatosas e o rabicho usado pelos próprios padres europeus, a admissão do culto dos antepassados com suas supersticiosas cerimônias, e outras concessões desse gênero, pouco adiantaram, entretanto, os difíceis passos da propaganda cristã, produzindo, ao contrário, um pernicioso cisma entre os missionários.


Por essa razão, Lisboa tenta dar outra versão das coisas. Sua postura contra o tráfico de ópio, causador de duas guerras que humilharam a China, e dos acordos atrozes impostos pelas nações europeias faziam o leitor se perguntar: afinal, quem era o selvagem?

 

»Veja mais em Caminhos para uma Sinologia Brasileira e Sinologia e Orientalismo no Brasil de André Bueno.


 

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