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O BRASIL ENCONTRA O EXTREMO ORIENTE: A MISSÃO CHINESA (1880)

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O parecer sobre a emigração

A construção dessa análise sobre a China se encaminha na última parte do livro de Lisboa, no qual se alinha todo o conhecimento produzido em função do ponto crucial da missão: deveríamos apoiar a emigração dos chineses para o Brasil? Seu parecer foi amplamente favorável, após a experiência de visitar o país. Tentando combater as críticas da intelectualidade brasileira, seu trabalho buscava responder aos principais pontos levantados contra a vinda desses migrantes, identificando seus aspectos positivos na composição da força de trabalho brasileira.

Estabelecendo um amplo diálogo com o trabalho de Salvador Mendonça, Lisboa atravessa os impositivos das questões estatísticas, os problemas da racialidade e compara as experiências da Califórnia para sugerir, ao fim, que:

Não creio, porém, que haja no Brasil quem sacrifique as conveniências da pátria, o seu rápido e certo progresso material e a resolução das dificuldades que oferece a substituição do trabalho escravo, ao interesse individual de uma determinada raça europeia; nem existe tampouco entre nós fração alguma de estrangeiros à qual possa fazer sombra a vinda dos chins. Infelizmente, ainda sobra no imenso império bastante espaço para que as duas raças possam concorrer independentes para o aumento da produção, para a exploração das suas enormes riquezas naturais. Lá onde o europeu não medra nem poderá medrar, que venha o chin emprestar a força da sua inteligência, da sua atividade e das demais qualidades econômicas que, na frase do sr. de Varigny, o tornam um trabalhador incomparável.
Notável que, embora suas opiniões fossem favoráveis aos chineses, suas considerações sobre os trabalhadores afro-brasileiros mantinham-se aferradas a alguns preconceitos próprios da época. Seu relatório foi extensamente debatido nos meios políticos. Lisboa chegou mesmo a escrever para o grande adversário da imigração, Joaquim Nabuco sobre as vantagens da vinda dos chineses. Nove anos depois da viagem, em 1888, ele publicou a versão em livro, que circulou em meio ao debate ainda aceso. Em 1883, Tang Jingxing (1832-1898) viera ao Brasil, sendo recebido na corte, a fim de entabular uma nova tentativa de envio de chins para o Brasil. Embora ele não tenha sido bem sucedido, o assunto despertara mesmo o interesse dos chineses: o erudito Kang Youwei (1858-1927) escreveu um projeto de emigração em massa para o Brasil, e Fu Yunlong (1840-1900), um dos mais importantes políticos do império e defensor da vinda dos chineses para o nosso país, visitou a corte imperial em 1889, encontrando com Pedro II. Pouco depois a República seria proclamada, adiando novamente a implantação de um programa nesse sentido.


Fig. 45a - Litogravura de Tong King Sing, feita na Revista Illustrada, n.357, 1883, p. 8.
Fonte: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional


Fig. 45b - O mandarim Tang Jingxing (na época grafado como 'Tong King Sing’). Imagem capturada em Wikimedia Commons.
Fonte: Wikipedia

Convencido de que a aquisição de braços para o trabalho sem distinção de procedência é a mais urgente necessidade do Brasil, não combato a introdução de trabalhadores japoneses, limitando-me a estudar as vantagens e dificuldades dessa introdução comparada com a dos chineses. Esforço-me, nesse estudo, por emitir um juízo correto e imparcial sem deixar-me influir pela justificada preferência que poderia merecer-me a imigração chinesa, há tantos anos estudada e aproveitada, posta em paralelo com a japonesa, só recentemente experimentada.
Defensor tenaz da ideia, ele veria sua proposta se realizar de outra forma, quando se transferiu para o Japão, servindo como Cônsul por lá entre os anos de 1897 e 1900. Embora defendesse a vinda dos chineses, seriam os japoneses que cumpririam o papel da imigração asiática no Brasil, construindo a maior colônia nipônica do mundo no interior de São Paulo. A vinda dos japoneses acabou praticamente encerrando a questão da imigração chinesa para o Brasil. O modelo adotado seria, contudo, bem diferente do proposto no tempo do império: ao invés de trabalhadores temporários, vieram famílias inteiras, como colonos, da nação ‘mais europeia da Ásia’ – o que, de certo modo, era o que os próprios japoneses pretendiam (Fukuzawa, 1885).


Fig. 46 - Família japonesa na década de 1930. Imagem e informação capturadas em Wikimedia Commons.
Fonte: Wikipedia.

A imigração japonesa para o Brasil acabou sendo bem-sucedida, e muitas famílias vieram residir no interior de São Paulo. Podemos ver mais fotografias como essas nos livros 100 Anos da Imigração Japonesa no Brasil Através de Fotografias e A imigração japonesa no Brasil : uma saga de 100 anos.


Fig. 47 - Cartaz estimulando a migração japonesa para o Brasil, sem data [aprox.. início do séc. 20]. Imagem capturada em Wikimedia Commons.
Fonte: Wikipedia

»Veja mais: Temos muitos artigos e materiais que estudam os debates dessa época: desde notícias da visita de Tong King Sing até as caricaturas da Revista Illustrada sobre a questão chinesa, passando por um estudo da missão à China ou pelas críticas de Machado de Assis e Joaquim Nabuco a imigração asiática; mesmo os abolicionistas britânicos fizeram pressão contra a missão brasileira na China. Há uma fortuna crítica sobre a imigração chinesa no Brasil que está sendo construída, e uma guia sobre essas fontes está disponível na BN.


 

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