BNDigital

O BRASIL ENCONTRA O EXTREMO ORIENTE: A MISSÃO CHINESA (1880)

< Voltar para Dossiês

Percebendo as diferenças

De Macau a Hong Kong, em direção a Tien Tsin (onde a comitiva seria recebida), Lisboa empregou seu tempo para observar os costumes e a vida comum dos chineses. Aos poucos, ele ia percebendo as diferenças e particularidades de cada região, mostrando um quadro bastante diverso de povos e tradições:

Não são poucos os escritores que classificam os habitantes da China como pertencentes à raça mongólica. Essa é, mesmo, a opinião mais vulgarizada e de que os adversários da imigração chinesa no Brasil não duvidam tirar partido, acenando ao patriotismo o perigo da nossa futura mongolização. Não sei, realmente, qual seja a origem de tão crasso erro; talvez a casualidade de ter Marco Polo visitado a China e dado as primeiras notícias circunstanciadas daquele império justamente na curta época em que achava-se ele submetido aos descendentes mongóis de Gengis Khan. Mas poder-se-ia assim, com tanto fundamento, atribuir igual origem aos atuais habitantes da Europa oriental, até onde alcançou o domínio daqueles célebres conquistadores. Não encontro, na verdade, outra explicação para tal confusão, pois nem na aparência física nem no caráter e nos costumes assemelham-se os chins aos mongóis. Estes são de conformação mais robusta, de ombros quadrados e pescoço curto, o que os franceses chamam trapu, provavelmente por fazerem pouco exercício a pé, passando, à maneira dos gaúchos, quase toda a vida a cavalo. Os chins são, ao contrário, bem formados e esguios. Não têm tampouco os mongóis os olhos oblíquos e a escassez de barbas que caracterizam a raça chinesa. Além de tão notáveis distintivos físicos, distanciam-se ainda as duas raças pela diversidade de caráter e costumes próprios de povos nômades e pastores uns e sedentários e agricultores os outros. Mas, nem os mongóis nem os manchus, cujo tipo aproxima-se mais do chinês, interessam ao estudo que faz o objeto deste capítulo. Tratarei, pois, da raça chinesa. Pondo de parte as conjecturas antropológicas que fazem descender os chins de um neto de Noé e filho de Jafé, e só remontando às antigas tradições daquele império, verifica-se que tiveram eles por berço a região situada ao nordeste do Rio Amarelo, donde desceram há mais de quatro mil anos para povoar as dezoito provinciais, desalojando os antigos habitantes e enxotando-os pouco a pouco para as alcantiladas montanhas do sudoeste. Aí, nos limites das províncias de Kuei-tcheu e Kuang-si mantêm-se ainda hoje quase independentes os restos dessas tribos aborígenes, conhecidas pelo nome geral de Miao-tse, e cuja aparência física tem mais do tipo cochinchinês do que do chinês. Os Miao-tse formam a única exceção de consideração à homogeneidade histórica da raça que povoa a China. E digo histórica porque, se bem atribui-se aos chins a origem indicada, dá-se naquele império um fato pouco comum nas sociedades políticas em que se divide o mundo, e é que os habitantes das suas províncias oferecem tipos tão diversos como os que distinguem os povos, embora da mesma origem, que ocupam o continente europeu. Se se começar pelo norte, encontra-se mais robustez, barba mais fornida, tez clara e mesmo alguns olhos azuis ou cabelos louros que contrastam com o título de raça de cabelos pretos de que tanto se ufanam os chins. À medida que se desce para o sul a aparência dos habitantes vai sofrendo sensíveis modificações, a tez escurece e as formas adelgaçam-se. Não é difícil conjecturar o motivo dessas diferenças numa população pertencente à mesma raça; a diversidade das latitudes, da topografia do solo e das ocupações a que se dedicam os habitantes de cada região as explicam suficientemente e são causas que produzem os mesmos efeitos em muitos países ocidentais. Mas, na China, ainda acrescem motivos especiais para distanciar o aspecto físico, o caráter e os costumes dos habitantes de províncias limítrofes ou mesmo de diversos distritos de uma só. A quase autonomia com que funciona, na prática, a administração das províncias ou das suas subdivisões; os hábitos sedentários da densa população que nem um instante pode furtar às ocupações de que tira difícil subsistência; a semelhança dos produtos agrícolas e industriais, que torna insignificante entre regiões vizinhas o movimento comercial, fator principal da fusão dos povos e aliás entregue na China, por antigos costumes, a uma casta especial e relativamente reduzida; e, finalmente, o apego ao solo natal imposto pelo tradicional culto dos antepassados, são poderosas razões para que povos da mesma origem se isolem pouco a pouco, transformando-se, de acordo com o meio especial em que cada um vive, para formarem raças bastante distintas pelo tipo, pelo caráter, pelos costumes e dialetos.

As questões raciais eram um ponto crucial nos discursos dos antagonistas a vinda dos chineses, como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e Nicolau Moreira. Lilian Schwarcz (1993) mostrou como a eugenia era usada para guiar as ideias científicas da época, e eram aplicadas aos asiáticos, aliadas as turvas visões culturalistas do orientalismo. Lisboa foi capaz, com sensibilidade e cuidado, de mostrar a diversidade étnica da China, e o valor de seus trabalhadores. Esse ponto de vista seria importante para construir uma imagem alternativa sobre os Chins no Brasil.

Fig. 40 - Seguindo as conveniências locais, Lisboa adota um traje chinês. [1888, p. 238-239]. Imagem capturada na Biblioteca Nacional de Lisboa.
Fonte: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional

Parceiros