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O Amor-perfeito: jornal critico, jocoso e instructivo

por Maria Ione Caser da Costa
O periódico O Amor-Perfeito foi lançado no Rio de Janeiro em 7 de outubro de 1849. Se apresentou com o subtítulo jornal critico jocoso e instructivo.

No acervo da Biblioteca Nacional estão preservados nove exemplares deste título, que podem ser consultados no site da Hemeroteca Digital, sendo o último da coleção, o número dez, publicado no dia 9 de dezembro de 1849. O número 9 não consta no acervo, mas pode ser consultado, também através da web, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

Medindo 26,3 cm x 17,5 cm, com oito páginas, de duas colunas separadas por um fio simples. Foi impresso pela Typographia Classica de F. A. de Almeida, que estava situada no número 141 da rua da Valla, atualmente, rua Uruguaiana.

Cada página recebeu uma moldura demarcando a mancha gráfica. A elegante moldura, em uma simplicidade quase selvagem, é formada por desenhos de folhas aos pares, separadas por uma flor.

O Amor-perfeito circulou em toda a Corte, e prometia ser atencioso com o “belo sexo”. Os editores também não mediriam esforços para apresentar interessantes matérias, para que seus leitores pudessem ter momentos de distração e recreação, como explicado em seu editorial. Eis um excerto do mesmo:
Eis-nos trilhando a senda do jornalismo!... Eis-nos fazendo gemer os prélos, e já suppondo que temos uma reputação collossal, um nome illustre nos annaes das Lettras!... Eis que encetamos a viagem n’essa vereda tão semeada de espinhos, tão cheia de rodeios e precipícios, e tão diffícil de caminhar!...

A imprensa periódica é um mar perigoso, em o qual a cada momento, se encontram mil syrtes, e innumeráveis cachopos naufragosos, onde o palinuro, por mais experiente, que seja, vê-se muitas vezes em risco de naufragar!...[...]

Demos ao nosso pequeno esquife... (não se assustem que não é de conduzir mortos) o engraçado nome de AMOR-PERFEITO -. Nem s’espantem; porque, segundo a grammatica, a qual, se nos não enganamos, deve ser conhecida dos nossos leitores, - o nome é uma voz com que se dão a conhecer as cousas -; isto é: - boas e más, - não podendo influir, por consequencia, nas qualidades ou atributos das pessoas ou cousas. [...]

Mas, em qualquer d’estes casos, será sempre modesto e attencioso para com o – Bello-Sexo, pois que é flôrzinha sempre apreciada das Bellas, e não quer perder, por motivo algum, o bom conceito, de que goza. [...]

Em conclusão: - se para alguns fôrmos – silva espinhosa, - para a maior parte contamos que havemos de ser sempre – AMOR-PERFEITO.

O semanário publicou poesias, crônicas, contos e charadas, mantendo algumas seções fixas. Um dos artigos publicados, o  “Revista teatral” teria sido motivo de desagrado de alguns artistas da época, que, na função de leitores de O Amor –perfeito, se sentiram desconfortáveis e fizeram reclamações nos periódicos que circulavam na Corte.

Com textos longos, e, em sua maioria, com a continuação publicada no número seguinte, são encontrados nas páginas de O Amor-perfeito uma infinidade de temas.

A publicação não apresenta expediente, também não aponta os nomes dos seus proprietários ou responsáveis. Alguns artigos e poemas são assinados por Antonio Cezar de Berredo, Floriano Alves da Costa (1825-?), Frederico José Corrêa (1817-1881), J. A. Ferreira da Cunha, J. B. da Cunha, Montanhez e Maciel Monteiro (1804-1868). A seguir um poema de autoria de J. A. Ferreira da Cunha, publicado no número 5 com o título “Soneto”.

 

Soneto

Mais força tem o amor, que os juramentos.

 

Eis-me de novo no poder d’aquella

Ingrata, desleal, cruel, perjura,

Que sem cansar me cava a sepultura,

E vai-me collocar no fundo d’ella.

 

Agora mais que nunca se disvella,

Meu decidido amor, minha ternura,

Pela sua divina formosura,

Que sempre me parece inda mais bella.

 

No furor de meus barbaros ciumes

No meio dos mais duros soffrimentos

Jurei abandonal-a em meus queixumes.

 

Mas, esp’ranças vãs, loucos intentos,

As promessas quebrei, faltei aos numes,

Mais força tem amor, que os juramentos.

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