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A Setta, um periódico florianista

por Irineu E. Jones Corrêa (FBN), Luzia Ribeiro de Carvalho (IC Faperj – bolsista)
A coleção de A Setta, da Fundação Biblioteca Nacional, é formada por três números não sequenciais: Ano 1, n. 1, de 1 de abril de 1895, Ano 2, n. 8, de 23 de janeiro de 1896 e Ano 2, n. 21, de 29 de junho de 1897. O artesanato dos exemplares é simplório. O primeiro número é produzido em folhas pautadas, os dois outros em folhas sem pauta. A capa do número de janeiro de 1896 é do mesmo material que o miolo. O último número tem capa em papel fino, desbotado pela ação do tempo. Os tipos de letras dos cabeçalhos mantêm o mesmo formato, nos três exemplares.

A arrumação da escrita nas páginas do exemplar ano 1, de número 1 imita o modelo da época para os periódicos impressos: espaço dividido em três colunas, amarradas por um cabeçalho em que o título ocupa a parte superior da página. Além do título, estão ali os registros sobre periodicidade, data da edição, autoridade, local e dedicatória. Não há capa, com o texto começando na própria folha de rosto. Na parte de cima da coluna esquerda, aparece o expediente com o nome do diretor, A. M. Vasconcellos, o aviso da não existência de assinaturas e o preço do exemplar avulso – $300. Abaixo, separado por uma vinheta em losango, está o sumário. Em seguida, também separado por uma vinheta, aparece o texto de apresentação do ideário do periódico, assinado pela Redação e alcançando quase a metade da segunda coluna. Nos outros dois números, as capas são ilustradas, com as matérias começando nas terceiras páginas, sendo separadas em duas colunas. As ilustrações não obedecem sempre o espaço das colunas. O periódico é dedicado ao marechal Floriano Peixoto (1939-1895), presidente do Brasil entre 23 de novembro de 1891 e 15 de novembro de 1894, a quem a historiografia marca pela forte repressão às manifestações reivindicatórias e aos movimentos revoltosos, passadas sempre ao fio da espada. Os presos de um desses movimentos, a 2ª revolta da Armada (1893-1894), produziram o curiosíssimo A Justiça, outro periódico da coleção da Biblioteca Nacional brasileira. Sobre Floriano pesa também a pecha de ser oportunista do ponto de vista político, havendo contribuído para a derrocada do governo Deodoro da Fonseca, ao qual sucedeu. Suas medidas são 22 x 33 cm no primeiro exemplar e 24,50 x 18 cm nos dois números seguintes.

Entretanto, exatamente pela continuidade que dá ao governo republicano e pelo forte combate que oferece aos movimentos revoltosos, considerados sempre potencialmente desagregadores da unidade do regime proclamado em 1889, o Marechal é considerado uma das figuras públicas mais importantes para a consolidação da república no país. Esse lugar é registrado pela epígrafe do periódico, que avisa ser “dedicado ao salvador da república brasileira”. As matérias seguintes são todas de conteúdo patriótico ou moralista, mesmo quando irônicas e jocosas.

O número seguinte, de janeiro de 1896, é também dedicado “à memória do salvador da pátria”, falecido em junho do ano anterior. Abaixo do título, em seguida à referência ao diretor, aparece o nome do secretário, um Doutor X.P.T.O. O texto do expediente informa que o periódico poderá ter sua publicação interrompida, pois a redação precisará se dedicar aos “trabalhos escolares”, um sinal de que o periódico seria produzido no âmbito do grêmio estudantil de algum colégio paulista. O texto principal do número descreve o episódio do julgamento e condenação de Miguel J. de Almeida e Castro, o Padre Miguelinho (1768-1817), apresentando-o como exemplo de patriota e defensor dos ideais republicanos, fuzilado pela participação na Revolução Pernambucana (março a maio de 1817).Em 2017, a Revolução foi tema de uma exposição na Biblioteca Nacional, podendo ser consultado seu histórico através de mapas e imagens do conflito. A edição do pequeno jornal termina com um poema dedicado a Floriano.

O último número da coleção traz na capa a informação de o periódico ser um “orgam infantil republicano”, declaração que dialoga com o expediente da edição de 1896. Alusivo aos dois anos passados da morte do homenageado, o jornal tem a primeira página interna ocupada por uma ilustração do que seria um obelisco no qual aparecem datas importantes da vida do marechal. O texto inicial, assinado pela Redação, declara cumprida a missão do periódico, nada mais havendo a fazer que reafirmar o espírito florianista do povo, conforme fica declarado no último dos textos da edição.

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