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O Prego, uma folha original e estranha

por Irineu E. Jones Corrêa (FBN), Luzia Ribeiro de Carvalho (IC Faperj – bolsista)
O Prego é um jornalzinho manuscrito publicado no Rio de Janeiro, em 27 de outubro de 1896. O acervo da Biblioteca Nacional guarda o exemplar de número 10. Não há registros sobre a sua periodicidade e nem sobre quanto tempo circulou.

O título vem no cabeçalho com o desenho de um prego gigante, criando a sugestão de que ele serviria para fixar todo o cabeçalho. As letras têm formas irregulares, com uma espécie de crema nos arremates. Ao contrário de tantos outros periódicos manuscritos, elas não imitam os modelos tipográficos. Cada uma delas tem seus bordos cravejados por pregos desenhados em diferentes tamanhos e formatos, como se precisasse deles para estar fixada em seu lugar, imitando o efeito do título.

Abaixo do título, ainda no cabeçalho, o desenho de um galho maior, transversal à página, segura um rendilhado formado por pequenos galhos e folhas nas quais aparecem camufladas o local, a data e o número da publicação.

O papel de pasta de madeira é frágil, estando amarelecido pelo tempo, mas está integro, não há rasgos mesmo nas bordas. As letras estão escurecidas pela oxidação do metal utilizado na produção da tinta com que foram escritas. A caligrafia é em letra cursiva, irregular e variada. É composto numa única folha, frente e verso. Ao invés de ser identificado como um jornalzinho, como referido acima, talvez deva ser reconhecido como um panfleto.

O aspecto enegrecido, os pregos, o rendilhado das vinhetas dão um efeito lúgubre, sugerindo reminiscências góticas, contudo, uma reflexão mais acurada deixa em evidência os traços torcidos e florais, características art-nouveau do grafismo da peça.

A diagramação obedece aos padrões de publicações periódicas da época, com as matérias organizadas em três colunas. É possível verificar que ele foi dobrado, produzindo uma mancha decalcada.

O Prego não faz referência a nenhum fato político ou econômico. Sua primeira página é composta por uma espécie de editorial de apresentação dos propósitos da publicação – o que deixa em dúvida ser o décimo número, pois neste caso, bem poderia ser o primeiro. Entre as matérias seguintes há uma pequeníssima digressão sobre a importância do prego para a humanidade: desde os tempos remotos, quando foi criado, auxiliou o homem em suas atividades mais práticas, começando por Adão, passando por Noé, até as suas utilidades modernas. Os pregos possuiriam várias aplicações, dentre elas, pendurar pensamentos, ideias, fogos de inteligência – seriam essas, as melhores aplicações para os pregos, diz o editor.
Ainda na primeira página, a coluna “Pregadas”, traz um poemeto moral que denuncia um “certo rapaz” que tinha uma boa aparência e lançava olhares derriçados, escarnecedores para uma “bela”.

Na segunda página há uma seção de enigmas, observação feita por Marialva Barbosa, em seu livro História cultural da imprensa no Brasil, publicado no ano 2007, do qual a Biblioteca Nacional possui um exemplar em seu acervo. Um deles tem cunho joco-sério, algo picante, atiçando a curiosidade do leitor que, entretanto, somente a conheceria na edição seguinte, inexistente no acervo institucional.
A última matéria da página é mais um poema de cunho moralizante, desta vez assinado por C. Zar. As rimas fazem referência a uma pessoa, que saiu da “terra do toucinho”, Minas Gerais, em direção a “capital da União”, o Rio de Janeiro, para “gosar de riqueza”. O autor se intitula “Um mineiro cafezista” que, ao chegar, se depara com muitos caminhos possíveis para o sucesso buscado, numa referência a grandiosidade do Rio de Janeiro do final do século XIX.





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