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O Sexo: órgão imparcial, critico e litterario consagrado ao bello sexo da Capital da Republica

por Irineu E. Jones Corrêa (FBN), Luzia Ribeiro de Carvalho (IC Faperj – bolsista)
O Sexo – furo de reportagem e texto impertinente

A edição do dia 29 de abril de 1900 de O Sexo, orgão imparcial, critico e litterario, consagrado ao bello sexo da Capital da Republica abre com a notícia da chegada da presença no porto do Rio de Janeiro do cruzador português D. Carlos. Seria uma notícia banal, como qualquer notícia de um jornaleco manuscrito, porém, ela adquire importância na medida em que o leitor é informado de que a visita do navio seria considerada um dos pontos altos das comemorações do quarto centenário do descobrimento do Brasil que ocorriam naquele mês. Ela ocuparia as páginas mais importantes dos grandes jornais. O Paiz, por exemplo, dedica a edição do dia 30 de abril, dia seguinte ao da chegada, para descrever em detalhes o acontecimento. É exatamente na questão da data em que a notícia é dada em cada um dos dois jornais que reside uma diferença curiosa: o jornalzinho furou o jornalão. A principal razão da agilidade do jornal manuscrito em relação ao jornal impresso, reside no fato de ele não estar subordinado aos horários rígidos de impressão, aos quais o outro é inteiramente subordinado.

As diferenças no tratamento que as duas publicações dão ao acontecimento não se resumem, entretanto, ao furo de reportagem. O tom das reportagens é completamente diferente. O jornal impresso é efusivo e congratulatório. O jornalzinho trilha outro caminho, com seu texto manuscrito, nem sempre fácil de decifrar, fazendo uma apresentação do navio e dos acontecimentos numa linguagem jocosa, com uma boa pitada de ironia, uma inflexão quase inacessível para um jornal compromissado com interesses empresariais e comerciais, como era O Paiz.

O Sexo começa lembrando que o nome do navio é o mesmo do rei português, d. Carlos I (1863-1908) naquele momento – navio imponente, que chegou atrasado. A matéria refere-se se a Portugal como uma terra “veterana” e ao Brasil, como a “grande pátria de Colombo e Tiradentes”. O parágrafo seguinte comenta sobre a situação basbaque dos lusitanos diante da festança que assistiam – chama-os de tolos. Brinca com a linguagem lisboeta – lembrando que o vaso esteve a “Demuraire”, ou seja, atrasou.

A matéria seguinte tem o título de “A Mulher”. É um texto que vitimiza o homem. Segundo se lê, a sina masculina seria uma constante submissão às artes de sedução feminina. Por ela, ele faria tudo, não passando de um mero instrumento dos caprichos femininos. O autor é Penedo. Na mesma página, a coluna “Pulando” é um pequeníssimo conto sobre o sucesso de um moço na sedução de uma donzela, como que invertendo o sentido da matéria anterior, ambas, todavia, tendo em comum uma perspectiva misógina das relações entre macho e fêmea. Numa perspectiva romântica, aparece o poeminha “Lucinda”, assinado por S. Rolim. A página termina com a notícia sobre um acontecimento inverossímil em Anchieta, no Espírito Santo, numa espécie de piada. Gêmeos teriam sido paridos por uma mulher de 97 anos, dita uma jovem, e o pai seria um sujeito de 22 anos, dito velho.

A edição de número 4, ano 1, é um documento composto em quatro páginas de papel almaço, já amarelecidas pelo tempo. O título, desenhado com letras grandes e vazadas, está centralizado na folha de papel almaço e possui traços e tamanhos irregulares e com pouco preenchimento. A grafia não apresenta um padrão específico, podendo ser observado ao longo do texto, diversos formatos e tamanhos, o que poderia sugerir que houve mais de um escritor. A data de circulação da edição, 29 de abril de 1900, um domingo há 120 anos passados, faz dele uma peça rara e preciosa. Além do título e a data em que circulou, o cabeçalho informa o local da edição, Capital Federal da Republica dos E.U. da América do Sul, indicando, sem que o jornal explique, uma espécie de panamericanismo latino. Uma espécie de ufanismo que ecoa na página 2, em que há uma homenagem a Floriano Peixoto (1839-1895), incluindo o jornaleco ao fã-club do Marechal, característica bastante comum ao periódicos da coleção de manuscritos da Biblioteca Nacional, caso, entre outros, de A Setta.

Acima do cabeçalho, aparece a indicação de um destinatário específico, Bellarmino Carneiro (1847-1918), jornalista e político importante. Do lado oposto, está o endereço do destinatário, o jornal O Paiz, ao qual o jornalista era ligado. Fica reafirmada, uma prática comum aos pequenos periódicos – o envio de exemplares de suas edições para as redações dos confrades impressos e de circulação mais ampla. Esse encaminhamento, mais do que uma coincidência, lembra que parte da coleção de periódicos manuscritos da Biblioteca Nacional foi doada por Carneiro, em 1906.

O nome do editor, S. Rolim ou Silvino Rolim é um personagem importante na imprensa da época, aparecendo como editor de vários periódicos impressos. Entre eles, O Jacobino. , publicado durante o ano de 1901. A coluna “Vida Elegante”, de A Imprensa,de 12 de julho de 1908, ao felicitar Rolim pela passagem de seu aniversário, informa também que ele era diretor de O Brado, O Americano e O Grito Nacional, confirmando o que aparece na seção de leitores do jornalzinho manuscrito. Mensagem de agradecimento pelos números 1, 2 e 3, confirma que O Sexo não se limitou a uma brincadeira por ocasião da chegada do navio português, mas, brincadeira ou não, foi uma experiência repetida pelo editor que, enquanto trabalhava em jornais impressos, achava tempo para a circulação de veículos informativos mais ágeis. A informação concorre para reafirmar uma ligação entre o trabalho na grande imprensa ou na imprensa empresarial e o pequeno jornal, feito de modo artesanal – assunto de outro verbete deste dossiê, sobre a pena rápida do Folheto de Lisboa, manuscrito do século XVIII.

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