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A Avenida: semanário crítico e litterario

por Maria Ione Caser da Costa
A Avenida: semanário crítico e litterario foi um periódico que circulou semanalmente na cidade de Fortaleza, capital do Ceará. Teve por fundadores e editores Virgilio Brigido, José Carlos Junior, Jovino Guedes, Antônio Salles e Papi Júnior. O primeiro exemplar veio a público pela primeira vez em 09 de junho de 1889 e foi todo voltado para as letras e para as artes, como pode ser comprovado pelas palavras do editorial:

Para esta geração que surge faltava, entre nós uma arena, onde podesseella exercitar e desenvolver as forças e aptidões do seu espirito. A imprensa da terra, cegamente atreita aos interesses partidarios, sem respiradouro para expansões de outro genero, colocava-a na alternativa ou de transigir, involvendo-se na onda montante, ou de recolher-se a um silencio prejudicial á causa das letras, que é, sem duvida, a causa do futuro.
Enquanto havia imprensa neutra e generosa, somente ocupada com os mais largos interesses da comunhão, atenta a pugnar pelas mais amplas questões sociaes, a arte e as letras n’ella encontravam um ponto de apoio para os seus commettimentos, e uma salvaguarda á suas aspirações. Mas depois, tudo acabou deluido pelo partidarismo, e a imprensa foi transformada em reducto para guerrilhas, em que só podiam ou deviam entrar os que pensavam do mesmo modo, ou os que, sem precisar d’essa uniformidade, aceitavam a senha, n’uma cumplicidade, que estamos longe de censurar, mas que nem todos poderão imitar.
D’ahi nasceu a idéa de crear-se uma folha exclusivamente votada ás letras e ás artes, que servisse de órgão aos que pensam e sustêm, e querem, n’uma região mais elevada e mais nobilitante, trabalhar por uma causa mais justa e mais fecunda; em que cada um contribuísse, na medida de suas forças, para a educação intelectual e para o engrandecimento commum.
A Avenida é, nós o esperamos, a realisaçãod’essaidéa, idéa que, sem duvida, encontrará no favor publico o mais decidido apoio, pois responde não sómente a uma aspiração legitima dos que desejam apprender, como á necessidade que tem o publico de descançar da leitura irritante dos jornaes, na serena e placida leitura de uma folha litteraria.

Fugir do foco político que diariamente invadia as páginas dos jornais. Colocar em relevância a importância do pensamento da cultura letrada na construção de uma identidade. Estes foram alguns dos argumentos dos editores de A Avenida: um projeto de ação para a causa da literatura, unindo vários letrados do Ceará que participaram produzindo seus discursos e ensaios. Um ideário republicano, que estabeleceria um vínculo entre a arte e a literatura para serem os responsáveis por igualar a sociedade. Sobre isto, ainda esclarece o primeiro editorial:

A mais ampla liberdade na manipulação da sua arte, compatível com a dignidade da causa que professamos, é o lemma que deve inspirar os que escrevem nas columnas d’A Avenida; por que só assim os verdadeiros eleitos do talento acharão veio fácil de partir o casulo que os envolve, e desatarem o vôo n’uma escapada para o idéal.
Trabalhar e lutar; na luta e no trabalho está o desenvolvimento da inteligência e do coração. Não esquecer nunca que uma bela phase é uma obra meritória. Eis uma norma de conducta razoável e logica:
“Ver como procederão os mestres, os espíritos dominadores, e para lá encaminhar-se, não renegando as próprias tendências”.

Dentre os colaboradores da revista podem ser citados Antonio Salles, Pepolin, Fredolim, Amphrisio, V., Vedrine, Ad. Caminha, pseudônimo de Adolfo Caminha (1867-1897), Rugino Pherione, JulioTabosa, J. M. Brigido, Steno e Lauro. Como pode ser observado, a maioria escondidos por pseudônimos, deixando em dúvida a identidade do colaborador. Este grupo em torno da A Avenida é a gênese do movimento Padaria Espiritual que, uns poucos anos depois, marcaria a modernidade na poesia brasileira.

Na Biblioteca Nacional estão os exemplares números 1, 4 e 5, sendo este último lançado a 9 de julho daquele mesmo ano. Em nossas pesquisas encontramos a informação de que A Avenida deixou de circular no dia 29 de julho de 1889.

O título A Avenida está colocado na parte superior da publicação, em letras dispostas em arco. Logo abaixo o desenho de uma avenida demarcada por postes encimados por luminárias.
Abaixo deste cabeçalho, aparecem as informações pertinentes ao expediente da publicação, como o endereço, o nome dos redatores e o valor das assinaturas. Esse material está disposto em três colunas, separadas por fios duplos.

A redação funcionava na rua do Major Facundo número 110, 1º andar e o responsável era José Maria Brigido. Em seguida aparece a informação destinada aos interessados em enviar material a ser publicado: “Collaboração franca, sugeita, porém á censura da redação. Não se restituem manuscriptos”.

Na terceira coluna os valores para venda. O número avulso poderia ser adquirido por 200 rs. As assinaturas, que só poderiam ser trimestrais valiam 2$000 para a capital e 3$000 para o interior e províncias.

Após este bloco de informações, inicia a publicação com um sumário e o editorial. A Avenida é diagramada em duas colunas separadas por fios duplos e não apresenta ilustrações. A última página era destinada as propagandas locais.

Copiamos abaixo um soneto publicado em 30 de junho de 1889, e assinado por Ad Caminha.


Minha musa

Cantem outros a Natureza: as flôres,
as aves e as estrellas sintillantes;
cantem o mar e os bosques verdejantes,
o céo e a terra, os astros e os condores...

Camtem as luctas dos heróes triumphantes,
a Patria, o Bem, o Mal, e as próprias dôres;
eu sei cantar somente os meus amores,
inda que em pobres versos vacillantes...

A minha musa és tú, pallida rosa,
que és entre as flores que eu já tenho visto
a mais encantadora, a mais formosa.

Sim, podes crer sinceramente n’isto:
és tú a minha musa lacrimosa,
vivo por ti, por ti sómente existo...

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