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A Camélia: órgão do Congresso Terpsychore

por Maria Ione Caser da Costa
Lançada no Rio de Janeiro em 14 de agosto de 1888, A Camélia: órgão do Congresso Terpsychore, teve como redatores Eugenio Azevedo, Affonso Martins, Teixeira Bastos e A. Golçalves.

O Clube, também chamado de Congresso Terpsychore estava situado na rua do Catete, 67, mesmo local onde funcionaou a redação de A Camélia. A impressão do periódico foi feita pela Typographia Central, de Evaristo R. da Costa, localizada na Travessa do Ouvidor, nº 7.

Publicação que se designava ser um mensageiro de informações relativas aos sócios do Congresso Terpsychore, com o título Nós, e assinado por A Commissão, os editores apresentam as boas vindas e se colocam à disposição dos sócios neste primeiro primeiro editorial.

Este pequenino jornal vem preencher um fim no Congresso Terpsychore.
Combater divertindo é também lutar, embora muito pouco, em prol das grandes idéascivilisadoras do século. Os moços que se reúnem em torno de uma bandeira ou de uma idéa, para fazel-atriumphar, recommendam-seá consideração de seus iguaes. A commissão diretora d’A Camelia reconhece-se inhabilitada para a luta, mas como obedecer é o primeiro dever do soldado, obedecendo á indicação dos seus chefes julga cumprir um dever.
Havemos de, nos estreitos limites da nossa tarefa, concorrer quanto nos for possível para a realisação deste grande ideal – a fraternidade de todas as classes sociais. Que a mocidade do Congresso nos auxilie, é a única cousa que desejamos.
Nós somos poucos e fracos; com o auxilio de todos os moços, seremos muitos e fortes. A Camelia, a pequenina e mimosa criança, cuja existência foi confiada aos cuidados, espera tudo da generosa mocidade do Congresso.

A camélia era a flor dos anti-escravistas, recentemente bem sucedidos em sua luta, com a promulgação da Leia Áurea, em 13 de maio daquele mesmo, 1888. Conta a história que a flor, rara no país no final do século XIX, era cultivada pelos escravos fugidos reunidos no Quilombo existente em terras do atual bairro do Leblon, que contaria com a proteção do próprio imperador Pedro II e da princesa Isabel. O editorial, ao comentar que pretendia “combater, divertindo” deixa registrado o compromisso com essa luta, embora naquele momento o campo de “batalha” fosse o das Artes.

O Clube, foi fundado em 15 de agosto de 1885, inspirado numa das nove Musas, filhas de Zeus, fundadora e inspiradora da dança, das artes plásticas e das ciências. Seus associados manauaras eram participantes ativos dos acontecimentos culturais da cidade, frequentadores das apresentações teatrais, bem como dos “grandes bailes”. O jornal denominava estes eventos como reuniões dramáticas e dançantes.

A Biblioteca Nacional possui dois exemplares de A Camélia, os números um e dois. Foram editados para dar posse a uma nova diretoria do clube, uma vez que as datas de posse e lançamento do primeiro número coincidem e, no segundo número, o assunto do editorial foi a “A festa de posse”.

Realisou-se no dia 14 do passado a sessão solemne de posse da nova directoria.
Ás 8 horas da noite, perante grande numero de senhoras e convidados, o Sr. Augusto Guimarães, presidente da directoria cujo mandato tinha terminado, declarou aberta a sessão, convidando a presisil-a o nosso collega Eugenio Azeredo. Assumindo este senhor a presidência, foi convidado para secretario o Sr. Affonso Martins, e empossados em seguida os novos directores, agradecendo depois o Sr. presidente, em um bello improviso, ás senhoras e convidados a sai presença. O Sr. Augusto Guimar~esoffereceu em nome da directoria, ao nosso collega Eugenio Azevedo, um lindo bouquet de flores artificiaes, dando posse n’essa occasião ao Sr. Adolfo Costa, director de scena. Terminada a ceremonia da posse, seguio-se pelo corpo scenico do Congresso o espectaculo composto das comedias: Marido victima da moda, Duello a espeto e Toribio 39 da 8ª.
A festa terminou com um animado baile ás 6 horas da manhã.

A Camélia publica poemas, epigramas, contos e notícias referentes aos sócios do clube. Os colaboradores que assinam os textos são Acrisio Gilberto, Alcino Mario, Antonino Gaudencio, D. Tiberio, Diogenes Mirim, Elisio d’Alva, Eugenio Azevedo, Flaviano Gil, Helena d’Apresentação e Tito Bruno.

Selecionamos, a título de ilustração, um soneto de Faviano Gil, publicado no segundo exemplar. De um modo geral, os poetas que colaboraram neste periódico não foram consagrados pela academia, eram sócios do clube que partilhavam suas poesias.


Um Retrato
(a um amigo)


Olha. O rosto encantador
Moreno, bello e formoso
Illumina a santa luz
Do seu olhar gracioso.

Nas fórmas castas e puras,
Ha perfeição, correcção,
Assim como tem perfeito
Cheio de amor o coração.

Seu rubro lábio sorrindo
Parece ir desferindo
Cheio de amor o coração.

............................................
Eu sei que fui insensato
Fiz incorrecto retrato
Perdôa, não foi por mal.

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