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A Cithara: revista bi-mensal

por Maria Ione Caser da Costa
A Cithara: revista bi-mensal foi lançada no dia 28 de fevereiro de 1905 em Niterói, que desde 1903 era a capital do Estado do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Uma publicação que tinha por finalidade “dotar a capital do Estado com uma revista illustrada, obedecendo a todos os progressos das publicações desse gênero”.

O único exemplar existente na Biblioteca Nacional, ainda não está digitalizado. Para consulta é preciso se dirigir a Coordenadoria de Publicações Seriadas.
Seu número avulso foi vendido por 200 réis. O valor cobrado para a assinatura semestral era de 2$000 e a anual valia 4$000.

A Cithara foi impressa com 16 páginas, sendo sete delas destinadas a propaganda de seus fornecedores. A responsabilidade pela impressão ficou a cargo da Typographia Amerino, com escritório localizado no número 50 da rua Gavião Peixoto, em Niterói. Seus redatores foram Altino Pires e J. A. da Silva.

A ilustração da capa, assinada pelo desenhista Minon, traz um desenho em nanquim, a bico de pena, onde o título da publicação está no centro da página, em letras vazadas. Um ramo com folhas enfeita o lado direito da página, e o desenho de uns arabescos margeiam a lateral esquerda. Apesar de ser em preto e branco, a folhagem lembra o verde por ser criterioso nos detalhes e bem trabalhado. O desenho de uma pena cruza as letras do título. Num círculo do lado direito ao alto da página, vê-se o rosto de uma mulher de cabelos longos com uma cítara. No lado esquerdo inferior, o desenho de uma praia, possivelmente a baia de Guanabara.

A primeira página, que os redatores chamam de “página de honra”, traz a foto do busto do dr. Nilo Peçanha (1867-1924), ladeada por um texto em sua homenagem. Nilo Peçanha foi um político brasileiro que naquele período ocupava o cargo de presidente do Rio de Janeiro e anos depois seria o presidente do Brasil.

Na página seguinte vemos um texto com o título “Vita nuova”, que funcionou como editorial da publicação. A partir da leitura deste texto compreende-se que A Cithara está em sua segunda fase. Entretanto a coleção anterior não foi encontrada na Biblioteca Nacional nem em acervos de outras instituições.

Depois de uma pequena interrupção, reaparece hoje a Cithara, apresentando modificações que visam corresponder á geral aceitação que, graças aos esforços da directoria passada, sempre obteve da culta e digna sociedade niteroyense.
Entra, pois, em nova phase, tornando por isso mais amplo o seu programma, o qual abrange as artes em geral, sem esquecer, entretanto, o commercio, a industria, a agricultura, o Sport e, finalmente, tudo que se refere ao movimento social desta cidade.

O texto segue descrevendo o interesse da revista em superar as dificuldades que vierem a surgir pelo caminho. Os editores elucidam que “confiados na benevolência da adiantada população niteroyense, esperamos poder transpor facilmente todos os obstaculos e fazer d’A Cithara, senão uma publicação que honre a nossa terra, ao menos uma iniciativa que deve attrahir a attenção do publico pelas novidades que apresenta”.

Além das notícias do dia a dia, fotos de personalidades representativas para a cidade e localidades mencionadas, a revista conta também com algumas páginas onde a poesia se faz presente. Os colaboradores dos versos são: A. Gonçalves, Adelia Canongia, Aniceto de Medeiros, Antonio Lamego, Isidro Nunes, Guilherme Cruz e J. Donizetti.

Selecionamos, das páginas de A Cithara, o soneto de Antonio Lamego.


Nihil

O que valho? O que sou? O que é que represento?
O que é a Vida humana, ephemera pesada?
A grandeza de Tudo – a miséria do Nada.
A angustia universal – o supremo lamento.

Represento essa vil matéria aniquilada,
Que para progredir, ter desenvolvimento,
Vae na putrefação procurar o fermento
Onde a Vida começa em Vida acabada.

A Natureza é um laboratório immenso,
Onde a Verme através de seu cycloembryonario
O Universo produz, (m’odemonstra o bom senso).

Da creação percorrendo o vasto itinerário,
Diante da evolução – concluo e me convenço:
Que o Homem não passa, enfim, de um triste protozoário.

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