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A Estrella: periodico hebdomadário, litterario e noticioso

por Maria Ione Caser da Costa
A Estrella, um “periodico hebdomadário, litterario e noticioso”, foi editado no Rio de Janeiro em 9 de março de 1884. Os redatores e também proprietários eram os senhores Bricio Filho e Arthur Mendes e a publicação foi impressa pela Typografia Camões, que estava situada na rua do Hospício, 139.

Na Biblioteca Nacional estão armazenados 12 fascículos desta coleção, que podem ser consultados através da Hemeroteca Digital. O décimo segundo foi publicado em 8 de junho de 1884. Nos números 11 e 12, Alexandre da Silva Vaz Lobo substituiu Arthur Mendes, que precisou se ausentar da responsabilidade redacional.

A publicação é especificamente voltada para anunciar os acontecimentos e defender questões que promovam e beneficiem o progresso de um bairro do Rio de Janeiro: São Cristóvão. No bairro, onde ainda residiam alguns “illustres S. Cristovianos”, depois que muitos destes deixaram o “arrabalde dos pobres” para se estabelecerem em “Larangeiras e Botafogo”, eram grandes as dificuldades encontradas e a leitura deste periódico nos dão uma ideia de como eram os usos e costumes daquele “extremo da corte”.

Assim inicia o editorial:

Ahi têm os senhores o primeiro numero da Estrella.
Não é um desses atavios poderosos que ornamentam com extrema delicadeza o bello firmamento.
É apenas o titulo de um periódico que vem semanalmente emitir luz sobre as necessidades deste arrabalde.
Falta-nos o talento indispensável para que a creança de hoje venha a ser alguma cousa; mas elle será substituído pela energia e justiça com que havemos de encarar os factos.
Será muito pallida a lus.
Antes porém ella que a escuridão.
E nós porém conhecemos bem de perto as dificuldades da manutenção de uma folha.

Os editores seguem informando aos leitores a força de vontade que deverão ter para manter o periódico em circulação, tendo em vista todas as dificuldades que sabem, encontrarão pelo caminho.

Varios companheiros mais audazes têm se apresentado em campo, esgotam todas as forças e após bem longos martyrios sofrem a mais completa derrota.
Neste mesmo bairro já um jornal teve a ousadia de apparecer. Luctou, advogou os interesses dos lugar e depois... Cahio como os outros.
Teremos sorte semelhante?
É quase certo.
Entretanto S. Christovão, por sua população notadamente grande e pelas palpitantes reformas de que carece, deve dispensar arrimo a defensores sinceros que vêm clamar contra a indifferença, concorrendo assim para a modificação do péssimo juízo com que nos tributam. [...]
Póde ser que não cheguemos em meio do caminho.
Mas havemos de combater emquanto tivermos forças.
Aquelles que cahem deste modo têm cumprido o seu dever.

Os valores cobrados para a assinatura de A Estrella eram diferenciados da Côrte para as Províncias. Nestas valia 2$500 a assinatura trimestral, 4$000 a semestral e 8$000 a anual; naquela os valores cobrados eram 2$000 a trimestral, 3$500 a semestral e 7$000 a anual.

A Estrella publicou em suas páginas folhetins, crônicas, poesias e notícias diversas. Dentre as notícias destacamos uma campanha para a libertação dos que ainda eram escravos. Em 1884 já existiam alguns estados que haviam abolido a escravatura. E as campanhas que se organizavam para este fim, chamadas de “sociedades emancipadoras”, são lembradas em suas páginas, especialmente uma “exclusivamente organizada por senhoras” é relatada no editorial do fascículo seis.

Aleixo de Banville, Arthur Mendes, Bricio Filho, Fernando Gama, Mucio Teixeira, Napoleão Paim, Olavo Bilac, Pedro d’Orville, Viriato Guimarães colaboraram nas páginas de A Estrella.
Escolhemos um poema de Aleixo de Banville datado de 1883, para ilustrar nossa página. Chama a atenção sua estrutura. É um soneto invertido. Isto é, os tercetos são postos no começo, invertendo literalmente a disposição estrófica.


Deus
A Olivio Bivar

O que Deus que vós temeis, tyranno furibundo
Que manda o furacão e manda a epidemia
Para vos castigar impenitente mundo;

Que julgaes em furor quando o vento esfusia
Ou ruge o vendaval como um tigre iracundo,
Nunca, ó povo, existiu é pura fantasia...

O homem paa explicar o problema – existência –
Creou o creador e fez-se criatura,
Collocou-o no ceu e deu-lhe ominipotencia
Sobre todas as leis que regem a natureza.

Nada mais é que um mytho, uma simples mistura
De piedade e terror, de pasmo e reverencia
E não como vos diz o bom do senhor cura
Um terrível papão que só quer penitencia.

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