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A Maçã

por Maria Ione Caser da Costa
No início dos anos de 1920 surge no Rio de Janeiro, então capital da República, o semanário ilustrado A Maçã. Seu primeiro exemplar é lançado em 11 de fevereiro de 1922, tendo circulado ininterruptamente até março de 1929.

O expediente dos primeiros exemplares, apresentado na décima quinta página, trazia os nomes dos responsáveis pela publicação: como diretor, o Conselheiro X. X. e, como proprietário o nome de Humberto de Campos (1886-1934). Sabe-se que aquele era o pseudônimo de Humberto de Campos, cronista, jornalista e poeta, que desde 1919 ocupou a Cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras.

A administração de A Maçã estava localizada na rua Bethencourt da Silva, números 15, 17 e 19, na Livraria Leite Ribeiro, propriedade de Humberto de Campos. Para esse endereço deveria ser dirigida toda e qualquer correspondência. A redação ocupada o espaço da rua Sachet, 28.

O número avulso era vendido por $500, sendo que o número atrasado tinha o valor de $600. A assinatura anual era vendida por 30$000. Havia também valores cobrados para envio da publicação para o exterior.

Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional podem ser consultados todos os exemplares dessa coleção que inovou a maneira de apresentar suas matérias. Com contos de amores furtivos, traições, bem como ilustrações apimentadas, chamaram a atenção dos leitores, tornando-a um sucesso.

As revistas ilustradas passavam a identificar um importante momento das linguagens gráfica e literária, firmando o gosto dos leitores. A Maçã inovou graficamente. Em suas páginas vemos alguns ilustradores que se tornaram expoentes na área, como K. Lixto e o paraguaio Andrés Guevara, que se tornaria um dos principais reformadores da imprensa brasileira, promovendo também uma mudança nas capas da publicação.

A Maçã era voltada para o público masculino. Sua máscara gráfica utilizava clichês e vinhetas tipográficas, caricaturas, ilustrações diversas, fazendo uma perfeita interação entre os textos e as imagens.

Em seu décimo quinto exemplar, lançado em 20 de maio de 1922, portanto, apenas três meses após seu lançamento, A Maçã já era sucesso absoluto de venda. Esta informação pode ser confirmada com a nota de página inteira colocada no exemplar:

Collaborada pelos mais brilhantes escriptores brasileiros, consagrados como romancistas, como “conteurs”, como jornalistas, como dramaturgos, como poetas - illustrada pelos nossos melhores artistas do lápis, mestres na correcção do desenho e no espírito da caricatura - escripta em linguagem decente e offerencendo um conto de réis em BONUS DA INDEPENDENCIA a quem encontrar nas suas páginas um termo obsceno - é A MAÇÃ, hoje, o semanário de maior circulação nesta capital.

A Maçã teve uma duração bastante sólida, se comparada à maioria dos periódicos da época. Circulou até março de 1929. Neste espaço de tempo passou por algumas transformações gráficas, entretanto sempre mantendo uma interação entre os seus textos e as imagens.

Contando com a colaboração de importantes nomes do meio intelectual e artístico, como Di Cavalcanti e Artur Azevedo, A Maçã foi considerada uma das melhores publicações da época, se preocupando com o humor e apresentando os temas do dia-a-dia, com liberdade e arte
Alguns dos colaboradores de A Maçã: Afranio Peixoto, Alberto Faria, Caliban, Humberto de Campos, Maria Pinto Soeiro, Martins Fontes, Medeiros e Albuquerque, Paul Guiraud. De todos os colaboradores, destacamos o poema “Sensual”, de Gilka Machado, a única colaboradora feminina encontrada nas páginas de A Maçã.


Sensual

Quando, longe de ti, solitária, medito
Neste affecto pagão que envergonhada occulto,
Vem-me as narinas, logo, o perfume exquesito
Que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.

A febril confissão d’este affecto infinito
Ha muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,
Pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,
Á minha castidade é como que um insulto.

Si acaso te achas longe, a colossal barreira
Dos protestos que, outr1ora, eu fizera a mim mesma
De orgulhosa virtude, erige-se altaneira.

Mas, si estás a meu lado, a barreira desaba,
E sinto da volúpia a ascosa e fria lesma
Minha carne polluir com repugnante baba...

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