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Anecdotista: semanario dedicado aos homens de espirito

por Maria Ione Caser da Costa
Anecdotista: semanario dedicado aos homens de espirito foi um periódico lançado na província do Rio de Janeiro a 21 de outubro de 1882. O preço para venda do número avulso era de 40 réis. Número anteriores seriam vendidos pelo valor de 60 réis. Não indicação de valores para assinaturas.

Na Biblioteca Nacional podem ser consultados os números 1 e 2 e não foram encontradas evidências de que a publicação tenha continuado. Ela foi impressa na rua do Hospício, 206, na Typographia da Mentira. A duas informações da frase anterior carregam uma blague. O nome da tipografia é certamente fictício, seguindo uma tradição das publicações jocosas e licenciosas que, por graça ou prevenção das buscas policiais, informavam erradamente o nome do impressor. O endereço do local de impressão corresponde, entretanto, a um nome verdadeiro da rua, no caso, o da atual Rua Buenos Aires. No segundo número aparece o que seria o nome correto da empresa, Typographia Militar, com o mesmo endereço.

Toda a publicação é composta por historietas jocosas e irônicas, cada notícia ou fato narrado era descrito em tom de piada.

O primeiro número informa uma tiragem de 1000 exemplares. O segundo número teria saído com o dobro de exemplares, informação algo estranha, uma vez que depois disso não se tem mais notícia do periódico, que tanto sucesso teria feito, conforme sinaliza essa duplicação da tiragem.

Os nomes dos editores não aparecem, mas o primeiro editorial vem como sendo de autoria de Brito Aranha e Pelludo. O segundo dos nomes indicados parece um apelido. O primeiro, Brito Aranha, foi um tipógrafo, jornalista e autor lisbonense, que colaborou com alguns jornais na então província do Rio de Janeiro.

No editorial aparece a explicação dos motivos que os levaram à criação do periódico. Teria sido uma extorsão, mas uma extorsão no contexto da comédia, da comicidade:

O Anecdotista é um modesto semanario, exclusivamente dedicado aos homens de espirito, que mansa e subtilmente se insinúa pela algibeira do proximo para extorquir tão sómente as duas moedas de cobre, delicadamente embrulhadas em papel de jornal ou de gazeta, que ficarão do troco de uma canequinha de café moka tomado em botequim da rua do Ouvidor.
Mas extorque honestamente, porque em troco leva para os centros de reunião e para todos os serões domésticos os factos mais ou menos curiosos, mais ou menos interessantes, alegres e epigramáticos da vida do homem publico.
Faz a sua historia!...


De acordo com seus editores, fazer anedotas dos fatos diários e corriqueiros da vida faz parte de uma literatura histórica, e este hábito precisa ser cultivado, pois serve “para entreter assembléas populares ou reuniões familiares”. E continuam: “reunir essas particularidades secretas, esses factos curiosos, revestindo-os de fórmas taes que dispertem o riso e de modo a tornar conhecido o homem que os produz, tal é o fim que procura alcançar o nosso semanário”.

O exemplar de número 2 apresenta num longo expediente , várias informações pertinentes à confecção e distribuição dos exemplares:

Publica-se o Anecdotista aos sabbados;
Franquêa as suas columnas a quem o quiser honrar com colaboração honesta e séria; não se obrigando a restituir os originaes que não forem publicados;
Recebe-se annuncios para a ultima pagina mediante modica retribuição;


Ainda na seção Expediente pode ser encontrada uma relação com os locais de venda de O Anecdotista, e outra com a indicação de onde que os exemplares do primeiro número foram entregues. Nesta última aparece o nome da Biblioteca Nacional. Muito provavelmente será este, que hoje podemos ler na Hemeroteca Digital.
O Anecdotista se apresentava diagramado em duas colunas, separadas por um fio simples utilizando um traço pequeno para evidenciar e separar os artigos e as notas publicadas. Não apresentava ilustrações.

Toda a publicação era composta por historietas jocosas e irônicas, cada notícia ou fato narrado era descrito em tom de piada. Os textos publicados não possuem autoria ou identificação de quem os produziu, exceto o editorial. Nos dois exemplares do acervo, encontramos apenas um poema na última página do exemplar número 2, que também se encontra sem indicação autoral, mas que, a título de ilustração, reproduzimos a seguir:



Dialogo chistoso

N’uma casa em certa noute
De brilhante companhia,
Sem nada vir para o caso,
Certo fanfarrão dizia:

“Meu páe sempre andou nas varas
Como sei que não se ignora
Foi dos orphãos, crime e civel
Sem nunca ficar de fora.


Só eu por desgraça minha
E apezar de doutorado,
Estou no esquecimento,
Não fui ainda despachado.”

Eis que um fuão lhe diz
Com applauso da asse,bléa:
“Requeira que tem justiça
Está vaga uma boléa.”

Eis que o truão lhe repica:
“Eu não entendo o senhor,
Pois é estranho vir á gente,
Uma boléa propôr.”

Eu lho creio, mas acredite
Não ser das cousas mais raras,
Entrar o filho na boléa,
Quando o páe andou nas varas.”


Em: Anecdotista: semanario dedicado aos homens de espírito, Anno 1, n.2, out. 1882.

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